Razões para o sucesso das telenovelas da TVI (e das telenovelas portuguesas em geral)

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Já não há motivo para analisar as telenovelas da televisão portuguesa. O diagnóstico é crítico: enredos sem pés nem cabeça e temporadas infindáveis!
Este post limita-se a tentar perceber porque as pessoas as vêem. Dirige-se de maneira particular às telenovelas da TVI mas a lista seguinte também de aplica às dos outros canais do TDT.
Eis as razões do sucesso:

– As dos outros canais são igualmente más;
– As pessoas estão habituadas às novelas da TVI e não sabem mudar de canal;
– As pessoas apenas gostam de ver “gajas boas”, não estão preocupadas com a verossimilhança da história;
– As pessoas gostam de praticar o escapismo: a fuga à realidade está bem e recomenda-se;
– As pessoas recusam-se a raciocinar.

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Conhecer Óbidos em tempos de austeridade (Novembro 2017)

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Pode parecer estranho dizer isto, mas os nossos ordenados não aumentaram, o descongelamento de carreiras é uma miragem. Por isso os orçamentos são cada vez mais limitados para quem quer ser turista no seu próprio país.
Eu, por outro lado, há muito que sonhava conhecer melhor Óbidos. Uma coisa é passar num local, outra é estar lá uns dias, ver as dinâmicas do local e as pessoas que fazem parte dele.

O dilema antes de partir era:
Será possível fazer férias baratas em Óbidos?

Agora já sei responder a essa questão e a outras!
A experiência é amiga das respostas….
Concluindo, depois de uns dias em Óbidos:
Óbidos é um local lindo!! Em qualquer parte da vila se vêem paisagens deslumbrantes!!
Óbidos é um local turístico por excelência!
3º Por isso a maioria dos restaurantes, bares e hotéis tem preços para turistas com dinheiro. O ÚNICO sítio realmente barato é o ÚNICO supermercado existente na vila.
Todos os sítios culturais municipais que visitei são gratuitos! Foi óptimo!
Estão a decorrer os preparativos para Óbidos Vila Natal 2017. E isso muda tudo.
Óbidos Vila Natal abre 30 de Novembro e termina dia 31 de Dezembro. Nessa altura vai ser cobrada um preço para entrar em certas zonas do Centro de Óbidos.
Os preparativos já estão a decorrer a todo o vapor, e suponho que vá ficar tudo esplêndido! Mas por causa disso não me deixaram visitar o Castelo, o que me decepcionou!
Óbidos Vila Literária…
«O Projecto da Vila Literária de Óbidos é uma iniciativa da Ler Devagar que teve a assessoria na programação das Produções Fictícias e o apoio da Câmara Municipal de Óbidos e da empresa municipal de gestão de bens culturais Óbidos Criativa.» (ver sítio oficial)
Este projecto levou à criação de quatro livrarias em Óbidos. Será que está a valer a pena?
A Biblioteca Municipal…
Numa cidade tão dedicada à difusão da cultura, foi triste ver uma biblioteca escondida num edifício da Câmara Municipal, onde as pessoas quase não vão. Falta dinamismo e actualização! E um espaço maior e arejado…

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Óbidos terra abandonada…
Casas lindas tão velhas na vila… Mas fechadas, para venda. Uma dúzia com ar de que vai cair dentro de alguns meses ou alguns anos…. Quem as reconstrói? Faltam pessoas na vila para as reconstruir e viverem nelas. Afinal, a austeridade também passou por Óbidos… Parece haver preocupação com isso…

Óbidos terra de gente simpática… Adorei falar com as pessoas!!

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Catalunha

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Por mim, por mais que se leia que a nação é uma invenção, as independências têm ainda assim vez e legitimidade!!
Sou apoiante da ideia da Catalunha independente, mas não concordo com tudo o que Carles Puigdemont e o seu partido enquanto poder fizeram. Provavelmente eles têm feito o melhor que podem. Não percebo que ilusões levaram Puigdemont até Bruxelas!!

Ver Também:

Puigdemont em liberdade condicional

Puigdemont e quatro ex-conselheiros sob custódia

Catalunha. Sondagem dá vitória a pró-independentistas mas sem maioria

Justiça belga dá pressa à detenção de Puigdemont

Espanha: Movimentos Separatistas (Catalunha)

Catalunha: Justiça marca datas para ouvir Puigdemont e aplica-lhe fiança milionária

Catalunha, a liberdade não é um posto

Deputados catalães aprovam declaração unilateral da independência

A map of Europe’s separatist movements

Constituição espanhola de 1978

História da Catalunha. Relato de uma submissão indesejada

Há 800 anos, a Catalunha era parte de Espanha?

Rei de Espanha fala em “deslealdade inadmissível” na Catalunha

 

Leituras: Farmacêuticas, neo-colonialismos e a falta de ética médica

Cobaias-HumanasEm Portugal quem autoriza um medicamento a entrar no mercado é o INFARMED; nos Estados Unidos a lei determina que um medicamento só é aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) depois de ser testado num conjunto de pacientes, enquanto por contraste noutro conjunto de pacientes a que é dado um placebo.
A autora cita várias vezes Robert Temple, que é director do plano de acção ao nível da saúde no FDA, é uma autoridade em como os medicamentos devem ser testados: «a sua opinião tem exercido grande influência sobre o FDA – e sobre a comunidade médica de investigação internacional que vê o FDA como modelo». Robert Temple é um apoiante incondicional dos testes por meio de placebos. A autora nota no entanto que esse pensamento é perverso:
«Porque em testes controlados por meio de placebos, mesmo se o fármaco experimental for seguro e eficaz, algumas cobaias doentes terão de ficar sem qualquer tipo de tratamento e as consequências para elas podem ser, de facto, terríveis. Por esta razão, é um tipo de concepção de teste que tem sido constantemente criticado como sendo pouco ético»
Robert Temple coloca-se sempre a favor dos testes com placebos, mesmo quando há controvérsias sobre a forma como os testes são feitos.
Anteriormente eram as farmacêuticas quem faziam os testes. Hoje ainda são mas elas passaram a subcontratar outras empresas para os fazer nalgumas ocasiões – as chamadas CRO (contract research organization) que se instalam em países pobres ou em desenvolvimento – como a Rússia depois da queda do comunismo, a Polónia, na Índia, no Uganda, na África do Sul, etc. – e aí fazem testes de medicamentos.
Estas organizações têm um discurso neocolonial: «Se os pacientes forem pobres e privados de medicamentos, a realização de uma experiencia de um fármaco neles é, positivamente, um acto de caridade». É este discurso que domina!
No livro explica-se também como foram criadas artificialmente as necessidades para certos medicamentos, como o colesterol e o Viagra. O Viagra pode curar a impotência, mas causa enfartes em quem tem tensão alta, para além de poder causar outros problemas – dependendo dos outros problemas que as pessoas tenham.
Assim, o número de pessoas ajudadas pela maioria dos medicamentos é pequeno, e há muitas mortes por má administração e por excesso de medicamentos.

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Desde o século XIX as experiencias com medicamentos e curas que são feitas em pessoas pobres e escravos. E a ciência médica sempre se considerou acima de qualquer debate, com filmes como a história de Louis Pasteur a elevar os médicos acima dos outros profissionais. A autora contesta isso.
As experiências nazis durante a Segunda Guerra Mundial causaram escândalo, daí ter surgido em 1947 o primeiro código de ética – o Código de Nuremberga. Experiências semelhantes a essas foram feitas anteriormente nos Estados Unidos, e algumas continuaram mesmo depois da Segunda Guerra. Houve sempre duplicidade nos Estados Unidos: por um lado condenar publicamente (muito justamente) os médicos nazis, por outro lado contratar alguns deles depois dos referidos julgamentos…
Em 1964 a Associação Médica Mundial elaborou e aprovou a Declaração de Helsínquia, constituída por onze princípios claros e concisos. Mas as sucessivas revisões desta declaração têm-lhe tirado a força, criando um documento cheio de excepções, em linguagem hermética e de difícil compreensão.
Situação condenável moralmente é a investigação de medicamentos para a SIDA em muitos países em desenvolvimento:
– Não é disponibilizada a terapêutica anti-retroviral às populações (com o argumento que depois do estudo as pessoas não têm meios para continuá-la)
– Não são facultados os instrumentos conhecidos para a prevenção da SIDA (agulhas esterilizadas, serviços de aconselhamento, preservativos)
A razão dessas práticas é simples: isso iria atrasar a propagação dos vírus e seria mais complicado provar que o medicamento X é bom para combater a SIDA. No entanto, por causa da ausência destes procedimentos novas infecções com HIV acontecem desnecessariamente e muitas pessoas morrem escusadamente! Notar que essa é a postura da indústria farmacêutica E dos médicos investigadores que nela trabalham.
De notar que as próprias Nações Unidas colaboram com a industria farmacêutica: o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) dos Estados Unidos, juntamente com o Programa Conjunto das Naçoes Unidas para o HIV-SIDA, o UNIAIDS e outras instituições faziam testes de medicamentos para HIV em vários países de África usando placebos.
Isto chamou a atenção e revoltou o médico e investigador Peter Lurie. Por causa das suas críticas à forma como a investigação para combater a SIDA estava a ser conduzida, despediu-se e a farmacêutica onde trabalhava. A empresa conseguiu arranjar maneira dele nunca mais trabalhar com a SIDA.
A autora mostra como cada forma de controlo da indústria farmacêutica ficou pelo caminho – regras rigorosas, consumidores informados, médicos cépticos. Até os investigadores médicos universitários estão dependentes do financiamento das farmacêuticas! Logo, não vão ser críticos nem dos medicamentos aprovados pelo FDA nem da forma como os testes são feitos.
Hoje (e sempre) os investigadores pensam (e pensaram) que como salvam (algumas) vidas e criam medicamentos novos têm desculpa para não se preocuparem muito com a ética. O motivo principal por que alguém precisa de cobaias para um estudo é apenas porque precisam de dados estatísticos. A investigação farmacêutica tornou-se em si mesma uma indústria, cujo único objectivo é ganhar dinheiro, passando por cima de seja quem for para o obter. Sonia Shah observa que isso não é bom.
Para a autora cabe às pessoas informarem-se e pressionar as farmacêuticas para mudarem as suas práticas – que causam a morte em muitas cobaias e as melhoras em poucos doentes depois do medicamento aprovado. E os países pobres deviam dar prioridade à investigação em medicamentos já comprovados – possíveis de ser melhorados – em vez dos medicamentos novos criados pelas farmacêuticas.
Este livro tem um prefácio de John Le Carré que diz que desde que escreveu O fiel jardineiro muita gente lhe enviou histórias perversas da industria farmacêutica. Ele passou a palavra a agentes literários e editoras mas até agora (2006) nenhum tinha sido editado. Por isso o livro é um acto de coragem por parte da autora e da editora.

Nota:  Ou a autora não soube escrever certas partes ou foi mal traduzido: provavelmente a segunda hipótese. Por isso algumas partes estão confusas.

Leitura de: Sonia Shah, Cobaias humanas (Casal da Cambra, Caleidoscópio, 2008)

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