Radicalismo da Terapia de Choque no seu melhor, na União Europeia (1)

«Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia (UE) chegaram nesta segunda-feira (30) a um acordo sobre o pacto para reforçar a disciplina fiscal do bloco, mas Reino Unido e República Tcheca ficaram de fora, anunciou o presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy.

“Os 17 líderes da zona do euro assinarão o tratado em nossa próxima reunião em março, junto com os líderes de países de fora da zona do euro que estão disposto a participar. O tratado é sobre mais responsabilidade e melhor supervisão”, afirmou van Rompuy.

Ao término do encontro, o primeiro-ministro sueco, Frederik Reinfeldt, disse à imprensa que a República Tcheca decidiu não se unir ao acordo porque teme que “o processo de ratificação possa durar anos”.

(…) O pacto fiscal forçará os países signatários – os 25 países membros restantes da UE – a incluírem em suas legislações ou Constituições a chamada “regra de ouro”, que os obriga a manter o déficit estrutural anual abaixo de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

Os países membros que não adotarem corretamente essa norma poderão ser denunciados no Tribunal de Justiça da UE por alguma outra das nações, que além disso poderá solicitar diretamente uma sanção financeira.

A máxima instância judicial da UE poderá, em últimos casos, impor uma sanção de 0,1% do PIB do país punido.

Após o consenso político obtido nesta segunda-feira, o pacto fiscal deverá ser assinado durante o Conselho Europeu, que ocorrerá nos dias 1º e 2 de março. O tratado entra em vigor quando 12 países já o tiverem ratificado. (…)»

Agencia EFE (1)

«Na cimeira da União Europeia (UE), 25 países aprovaram ontem o novo pacto fiscal, que limita o défice estrutural cíclico a 0,5% do Pib; as multas por incumprimento irão até 0,1% do Pib. A República Checa  juntou-se ao Reino Unido na rejeição do pacto, o que atenua a dimensão triunfal que Berlim lhe atribui.

“Lisboa perde o domínio do seu destino fiscal”, titula o Wall Street Journal: o Daily Telegraph também fala em contágio de Portugal pela crise grega. O nosso Primeiro Ministro afirmou que a dívida pública portuguesa é gerível mas estes não acreditaram: o yield da nossa dívida a cinco anos disparou ontem no mercado secundário, atingindo um uma taxa record, cerca de 20%. As decisões da cimeira da UE são a causa imediata deste contágio: a cimeira europeia nem aprovou o alargamento do Mecanismo Europeu de Estabilidade, nem resolveu a crise grega. Por isso, aumentam os receios que Atenas saia do Euro a pontapé. Não é de excluir que um eventual acordo da Grécia com os seus credores seja considerado bancarrota.  Portugal será o próximo alvo.

A cimeira tinha por objetivo oficial promover o crescimento económico mas não são conhecidas medidas que tenha adotado para o alcançar. Cerca de 82 biliões de euros não gastos do orçamento da UE serão aplicados na criação de empregos, uma medida que muitos consideram de dimensão insuficiente para compensar a austeridade.

A cimeira revelou uma surpreendente brutalidade alemã: Berlim queria nomear um comissário para a Grécia, o qual passaria a exercer a soberania fiscal deste país. Na cimeira, a chancelarina Merkel não insistiu, porque se viu abandonada pela sua guarda próxima: em política, “o insulto nada resolve”, sentenciou o chanceler austríaco, Werner Faymann. O Luxemburgo também se opôs ao regresso da política da canhoneira às águas europeias, tendo o chefe da sua diplomacia recomendado “um pouco mais de cuidado” à Alemanha. O Presidente Sarkozy também se opôs. Era por certo contra estes comportamento, tão prejudiciais à própria Alemanha como aos restantes europeus, que o ex-chanceler Helmut Schmidt há meses alertava. Assinalemos que a Suécia está igualmente a perder a cabeça com os sucessivos incumprimentos gregos.

No imediato, o novo pacto fiscal é prejudicial à solução da crise, pois dificulta o pagamento da dívida soberana, dado que diminuirá o Pib. O pacto oferece a vantagem psicológica de manter o eleitor alemão bem disposto, por o convencer que os latinos gastadores serão por fim castigados. Anteriores acordos deste tipo foram violados pela UE. Veremos o destino deste. Para já, só vigorará depois de ser ratificado. A França por certo demorará  a ratificação, pois em período eleitoral o seu Parlamento suspende a atividade.»

O Economista Português (31/01/2012)

(1) Reproduzido no sítio G1.

Fonte da Imagem: O Economista Português (mapa retirado do jornal Washigton Post).

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Leituras: Kafka para principiantes – parte 1

Desde acerca de uma década que de vez enquanto alguém me diz: “Tens de ler Kafka!”. Hannah Arendt refere-o várias vezes, Milan Kundera também. Demorei a pegar nos livros de Kafka pois tinha uma ideia que era um escritor difícil (para eruditos) e nebuloso. Tinha lido, há alguns anos os “Diários” e a atmosfera soturna levou-me a adiar a leitura da obra o que só aconteceu nos últimos meses. O objectivo desta série de postais é desmistificar preconceitos à volta de Kafka, para aqueles que já se sentiram como eu.

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franz-kafka-wwwFranz Kafka nasceu em Praga, em 1883. É necessário lembrar que até 28 de Outubro de 1918 esta cidade, bem como grande parte do território que é hoje a República Checa pertenceu ao Império Austro-húngaro. Praga era o centro do Reino da Boémia. Em 1918, tendo Franz Kafka 35 anos, foi proclamada a República da Checoslováquia.

Kafka passou a vida divido entre uma tripla identidade:

– Era judeu e as suas relações familiares e as maiores amizades foram judeus (e Kafka interessou-se muito pela cultura judaica, chegando a estudar ídiche e hebreu). Chegou a pensar mudar-se para Israel com uma das suas noivas. Mas o judaísmo nem sempre o satisfazia e Franz Kafka não foi um judeu praticante durante muitos anos.

– Escrevia em alemão, tendo a sua educação superior sido nessa lingua. Admirava muito Goethe. Isso eram coisas que o aproximavam do círculo germanófilo (embora nunca tenha sido aceite em círculos germanófilos).

– Era checo (identidade pré-existente à independência da Checoslováquia, com uma língua diferente do alemão; penso que Kafka nunca se sentiu checo, apesar de se ter dado conta da existência de uma cultura popular checa e das suas potencialidades; para além disso, muitos empregados do pai eram checos e Kafka deixa transparecer algum respeito por eles).

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Aconselho a quem vai ler as obras de Franz Kafka deve começar pelos contos, que para mim são o melhor do autor. Estes são filosóficos e anedóticos, sendo possível encontrar as duas características juntas (tudo depende da analise de quem lê).

“A Metamorfose” é um clássico e com razão. Relata as consequências da transformação de um caixeiro-viajante num news2_0insecto. Inicialmente ele estranha a mudança e ainda pensa como um homem cheio de deveres (sendo o principal dever sustentar a família). Pouco a pouco vai-se habituando à vida de ócio (ao mesmo tempo que os seus familiares começam a tomar decisões difíceis), actuando como um verdadeiro verme.

Ao nível da família, passa-se de uma total dependência do caixeiro-viajante para uma autonomia cada vez maior dos seus membros, cuja coroação é o amadurecimento da irmã do protagonista e a morte deste. Li “A Metamorfose” depois de ter lido “Carta ao Pai” e a animosidade entre pai e filho é semelhante. Mas à medida que o conto flui, Franz Kafka abandona esses considerandos e este passa a ser uma paródia melancólica à vida e à liberdade.

Outro conto que tem como tema a relação pai-filho é “A Sentença”. Com este título que nos remete para o mundo dos juízes e das leis, Kafka constrói um conto à volta da verdade, da mentira e da amizade. O clímax do conto é uma conversa entre pai e filho. Sentenciado como culpado, o filho cometerá o suicídio.

Kafka usa o mundo das leis (os tribunais e as prisões) como pano de fundo de muita da sua ficção. “Diante da Lei”, a história de um agricultor que deseja passar por uma porta mas é impedido por um guarda. Mais parece um prelúdio de O Processo (mais tarde esta estória acompanhava esse romance, nalgumas edições).

“A Colónia Penal” é a estória de uma morte que não aconteceu e de outra que acaba inesperadamente por acontecer.mar_postercolony

“Chacais e Árabes” é um conto que liga Franz Kafka ao sionismo. Foi inicialmente publicado no Der Jude (“Os Judeus”), um jornal que advogava a cooperação entre judeus e árabes para a criação de um estado binacional israelo-palestiniano. Trata-se de um conto centrado no diálogo entre um viajante europeu e alguns chacais encontrados no deserto. Estes pedem ao viajante que acabe com um ódio antiquíssimo entre eles. O viajante é tratado como um messias e os chacais queixam-se que os árabes são sujos e insensatos (ao contrário dos homens do Norte, ou seja, da Europa). O conto termina com os chacais a beberem o sangue de um camelo morto e a serem chicoteados por um árabe, que refere o ódio existente. Segundo algumas interpretações, os chacais são os judeus ortodoxos que na altura viviam na Palestina.

“Um médico de aldeia” trata das desventuras de um médico numa noite escura em que é chamado para uma falsa urgência. Este conto tem uma atmosfera pesada e está cheio de seres mitológicos (e simbólicos).

No conto “O Vizinho” voltamos ao mundo das profissões liberais, em que um solicitador se sente ameaçado por um vizinho colega de profissão, a ponto de se sentir perseguido e vigiado constantemente. A obsessão pela perfeição é tratada no conto “O primeiro desgosto”, que conta a história de um trapezista que faz da profissão a sua vida. O animal do conto “O Covil” também partilha a obstinação pela perfeição: quer construir o covil perfeito, inacessível aos outros animais e com comida sempre à mão. Mas, tal como o solicitador de “O Vizinho” acaba por se sentir acossado – por um animal que não conhece mas que sente que pode matá-lo a qualquer momento.

“Reminiscência do caminho-de-ferro de Kalda” é o elogio da vida solitária. Esta é uma história que faz parte dos “Diários” mas que eu encontrei publicada separadamente. O autor põe as palavras num antigo empregado dos caminhos-de-ferro russo. Ainda dentro desta temática, encontramos “O Solteirão”, a descrição dos hábitos de Préflury, o solteirão, que parece ser uma caricatura do próprio Franz Kafka (uma auto-caricatura bem-humorada?).

“Fábula curta” é uma versão curta e filosófica da história do gato e do rato. Franz Kafka usa ainda os animais para ridicularizar os homens: “O novo advogado” trata de um cavalo no mundo do direito. “Comunicação a uma academia” é a história um símio que se decidiu tornar humano, contada na primeira pessoa, numa palestra ficcionada. Quando se comparam homens e animais, os primeiros ficam sempre a perder. Mas este palestrante acaba por escolher aprender a ser homem, deixando-se contagiar pela paixão pelo saber.

Fontes das Imagens: Franz Kafka – Prague Wax Museum; Iconocast; Blogue do Teatro Municipal da Guarda.

Fim da Primeira Parte

Última Actualização: 30/03/2009

Kundera e a denúncia

Adam Hradilek, é um historiador checo e faz parte do Instituto para o Estudo dos Regimes Totalitários. Pesquisando num relatório da policia checoslovaca uma referencia de que tinha sido o escritor Milan Kundera a denunciar em 1950 o estudante Miroslav Dvořáček, desertor do exército e que tinha estado na República Federal Alemã na Primavera anterior. Milan Kundera negou veementemente a acusação, numa das poucas vezes que decidiu falar em público. A minha reacção tudo isto: acreditar em Milan Kundera. É claro que pode ser verdade, que Milan Kundera seja quem esteja a mentir. Mas o relatório da polícia também pode ter sido forjado: Milan Kundera teve problemas com a polícia nesse ano.

Mais sobre o caso:
Milan Kundera’s denunciation (artigo da revista checa Respekt, onde Adam Hradilek expõe a sua investigação).
The Institute for the Study of Totalitarian Regimes (de que faz parte Adam Hradilek e onde se têm apresentado as provas contra Milan Kundera).
Outros Pontos de Vista:
– De Rui Bebiano: Delação e Delação (2).
– De F. Guerra: O episódio Kundera.

Leituras: Gorbachev, Determinismos e o Pós-comunismo – parte 3

Continuação da Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais, de Jacques Lesourne e Bernard Lecomte (Venda Nova, Bertrand, imp. 1991).

Jacques Lesoune e Bernard Lecomte, debruçam-se seguidamente sobre a situação dos países da Europa de Leste e, em especial da Alemanha. Este foi um processo mais fácil, pois mesmo durante o comunismo havia muita gente que simpatizava com as democracias europeias e via o comunismo como um regime importado e opressor. No entanto, também aqui Mikhail Gorbatchev e os reformistas de Moscovo tiveram, de 1985 a 1990, uma acção dúbia. E em cada país tomou um caminho diferente.
– A Polónia foi, de todos, o país menos permeável ao comunismo. Mais uma vez, para analisar o país, os autores recorrem a Emmanuel Todd:
«O sistema de parentesco polaco revela da família nuclear igualitária, como no norte da França e em certas regiões da Itália, Espanha ou Portugal: igualdade dos irmãos, ausência de coabitação dos filhos casados e de seus pais, recusa entre o casamento entre os filhos de dois irmãos, ou seja, entre primos. Este sistema opõe-se tanto na família rude alemã como na família comunitária russa, dando origem a uma cultura igualitária e individualista que muitas vezes comprometeu o destino do Estado polaco, mas que não deixou de corroer o comunismo panificador imposto por Moscovo».
Os autores evocam também a vontade de independência polaca: entre 1795 e 1918 a Polónia foi desmembrada e os seus territórios fizeram parte, do império austríaco (no século XIX designado Império Austro-húngaro), do reino da Prússia e do e do império russo. A independência foi declarada no fim da 1ª Guerra Mundial e a 2ª Guerra Mundial aumentou a coesão nacional. Foi o país que desde o início mostrou mais hostilidade aos russos, sobretudo depois do massacre de Katyn em 1940. Por isso, depois da morte de Estaline os polacos tentaram de todas as formas livrar-se da dominação soviética. No entanto, depois do fracasso da Primavera de Praga os polacos tiveram durante alguns anos sem mostrar hostilidade directamente. Mas a elevação de Karol Wojtyła a Papa João Paulo II e a politica seguida por Mikhail Gorbatchev foram as oportunidades que os polacos esperavam. Este último conduziu negociações que visavam manter o poder russo por mais algum tempo, através de eleições, onde 65% dos lugares pertenceriam ao POUP e os 35% restantes às forças da oposição. Mas o POUP acabou por perder essas eleições, bem como o referendo feito anteriormente. Como consequência o POUP praticamente desaparece do espectro político e “converte-se” à social-democracia.
– A Hungria seguiu um caminho diferente. Em Outubro de 1956 a revolução contra o poder de Moscovo ter foi esmagada pelos soviéticos. János Kádár, líder comunista que por várias vezes chefiou o Conselho de Ministros polaco, conseguiu de Moscovo alguma autonomia em troca do alinhamento da Hungria na política externa soviética. Essa autonomia permitiu os húngaros ter pequenos espaços de liberdade que eles aproveitaram o máximo que poderam. Quando Mikhail Gorbatchev sobe ao poder os húngaros não se sentiram por isso mais livres, até porque tiveram medo que este pusesse em causa a autonomia conquistada. Em Maio de 1988 János Kádár é substituído por Karoly Grosz. Mas nessa altura já havia políticos, como Imre Pozsgay, que consideravam o comunismo irreformável e que desejavam a democracia. Em Fevereiro de 1989 o Magyar Szocialista Munkáspárto (Partido Socialista dos Operários Húngaros, o partido do poder) pronuncia-se a favor do multipartidarismo e em Outubro do mesmo ano transforma-se em partido socialista. E em Março de 1990 o Magyar Demokrata Fórum (Fórum Democrático da Hungria), de centro-direita, chefiados por József Antall, venceu as primeiras eleições livres do pós-comunismo.
De notar que, durante este processo, os húngaros acolheram dentro do seu país emigrantes que fugiam da RDA e deram-lhes abrigo. A Hungria serviu assim de porta de entrada nos países democráticos da Europa e nos Estados Unidos, para muitas pessoas sem esperança.
– Em relação à Republica Democrática Alemã (ou RDA) esta foi uma criação artificial de Estaline para quebrar a força alemã. Foi erguida uma Cortina de Ferro e o muro de Berlim. Estes obstáculos foram deitados abaixo em 1989, pela vontade dos povos húngaro e da RDA. Em Outubro desse ano realizam-se desfiles em Leipzig (território da RDA) para exigir a democracia. Mikhail Gorbatchev, em 6 e 7 de Outubro desse ano, durante uma visita (por ocasião do 40º aniversario da RDA), encoraja os reformadores comunistas e pede paciência aos jovens. Em 18 desse mês Erich Honecker é substituído por Egon Krenz. No entanto as manifestações pela democracia continuam, levando Egon Krenz a abrir o muro e a fronteira com a República Federal Alemã (RFA). Em Novembro de 1989 Hans Mosrow substitui Egon Krenz, mas antes o muro de Berlim já tinha caído e o reformismo comunista de Mikhail Gorbatchev tinha deixado de fazer sentido. A Alemanha começou o caminho para a reunificação.
– Em relação à Bulgária, a situação foi mais complexa. Os autores consideram que a Bulgária tem afinidades demográficas com a Rússia (mais uma vez baseados nos dados de Emmanuel Todd): «Com as suas afinidades eslavas, a sua religião ortodoxa e a sua família comunitária exógama, a Bulgária aceitou sem grande resistência um comunismo directamente importado de Moscovo. E por isso também não deve espantar que, como a URSS, o impulso tenha sido dado de cima».
Em Novembro de 1989, já depois da queda do Muro de Berlim, Todor Jivkov da direcção do conselho de Estado (que governava o país) é demitido pelos seus pares. O pretexto usado foi a sua politica de repressão aos muçulmanos búlgaros, que tinham começado a sair do país. Foi substituído por Petar Mladenov, que tinha sido ministro dos Negócios Estrangeiros até àquela data. Apenas no dia 18 de Novembro de 1989 o búlgaros vieram para a rua exigir democracia. Realizaram-se as primeiras eleições livres para a presidência da República em Julho de 1990 que resultaram na vitória do mesmo Petar Mladenov. No entanto, ele teve de resignar do cargo quando foi acusado de ter sugerido o uso de tanques contra as manifestações anti-governo realizadas no ano anterior. Foi substituído por Jeliou Jelev, que foi eleito por uma Assembleia Constituinte. Em 1992 este foi confirmado no cargo. Em Agosto de 1990 uma multidão provocou um incêndio na sede do Partido do Povo da Bulgária (como era conhecido o partido comunista), como forma de represália por causa dos anos de opressão.
– A Checoslováquia era um país que existiu entre 1918 e 1993. Entre 1948 e 1989 foi dominada pelos comunistas. Hoje são dois países diferentes, a República Checa e a Eslováquia. Mais uma vez, na sua análise, os autores seguem Emmanuel Todd:
«À família “rude” da Boémia, terra de eleição da sócio-democracia de entre as duas guerras, opõe-se a família comunitária exógama, mais autoritária e autoritária, da muito católica Eslováquia. A Boémia manifesta, de resto, desde o desastre da Montanha Branca que provocou o esmagamento dos Habsburgos da nobreza checa (1620), uma certa repugnância pela luta armada, não sem manter uma longa tradição de resistência passiva à dominação cultural que alimentará, em 1968, a “Primavera” histórica».
A Primavera de Praga, em 1968, foi liderada por intelectuais reformistas do Partido Comunista Checo. Esse movimento teve final infeliz, pois em Agosto de 1968 a Checoslováquia foi invadida pela URSS. O fracasso deste movimento levará a que só em 1989 os checoslovacos soltem a sua voz contra o comunismo. Em 17 de Novembro ocorre a primeira manifestação, organizada (segundo Jacques Lesourne e Bernard Lecomte) pela polícia politica. A partir daí, sob impulso de Vaclav Havel, que liderava o Fórum Cívico, ocorreu a “revolução de Veludo”, que mudou a maior parte dos dirigentes do país. Vaclav Havel foi eleito presidente da República da Checoslováquia nas primeiras eleições livres. Depois conduziu o processo de separação das duas repúblicas, apesar de ser favorável à manutenção da federação.
– Na Roménia as coisas ocorreram de forma muito violenta. Os autores comentam que a revolução romena foi praticamente seguida, momento a momento, pelas televisões do Ocidente.
«Mas retomemos os factos tal como hoje eles podem reconstruir-se, num país em que o comunismo se fez caricatura de si mesmo e se distingue dos países vizinhos em dois planos: com a família nuclear igualitária, fortemente marcada por influências comunitárias, a Roménia, ao mesmo tempo tentada pela anarquia e o autoritarismo, não se situa nos limites da democracia nem do comunismo. Revela-se como um pequeno país e o seu nacional-comunismo, afastou-se profundamente do grande irmão soviético, que nunca manifestou uma excessiva simpatia por esta nação latina».
A Roménia tinha perdido parte do seu território para a URSS e para a Hungria antes da 2ª Guerra Mundial. Por isso, os romenos apoiaram Hitler contra os soviéticos no inicio da guerra. Em Agosto de 1944 um golpe de estado conduzido por Miguel de Hohenzollern-Sigmaringen (que foi o último rei do país) com o apoio de políticos de oposição e do exército, depôs a ditadura Antonescu e colocou os exércitos romenos sob o comando do Exército Vermelho. Aproveitando a situação romena, os soviéticos ocuparam o país e tornaram-no um país comunista. Passou a ser chamado de República Popular da Roménia. Entre 1965 e 1989 quem governou o país foi Nicolae Ceauşescu. Este foi genuinamente popular no início do seu governo e manteve relações com o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, bem como com países como Israel, China, República Federal Alemã e Albânia. No entanto o período de aparente liberdade teria vida curta. Desde 1971 havia uma conspiração para depô-lo. Ian Iliescu foi afastado nos anos 70 do século XX e fundou uma organização politico-militar composta por antigos dirigentes comunistas – a Frontul Salvarii Nationale (FSN, Frente de Salvação Nacional). Em 16 de Dezembro de 1989 uma manifestação em favor de László Tőkés, um pastor da Igreja Reformada da Roménia (calvinista) é fortemente reprimida, levando à morte de 100 pessoas. Essa repressão levará a uma revolta violenta, que levará à fuga de Nicolae Ceauşescu. Ian Iliescu conseguiu eleger-se e ao seu partido como novos representantes do país, matando depois, sem demora, os comunistas da Securitate que ainda apoiavam o poder anterior e o próprio Nicolae Ceauşescu (julgado e morto em poucos meses). O Partido Comunista foi declarado ilegal e as medidas mais impopulares de Nicolae Ceauşescu, como a proibição do aborto e da contracepção, foram revogadas.
Em 2005 começaram as investigações que podem levar ao julgamento de Ion Iliescu sob acusações de crimes contra a humanidade. Também se especula acerca das suas ligações ao KGB.
Os autores comentam que a mão de Mikhail Gorbatchev teve sempre na condução destes acontecimentos, nomeando reformadores do partido para tentar condicionar os acontecimentos. Mas em quase todos os casos essa intervenção não adiantou de muito, pois as pessoas estavam fartas do comunismo.
Depois desta avalanche, apenas a Albânia se manteve comunista. Os autores apenas falam da Jugoslávia de passagem, já que o seu comunismo à muito se tinha desligado da URSS.

Fonte da Imagem: Transitions Abroad.com

Fim da 3ª Parte