Razões para o sucesso das telenovelas da TVI (e das telenovelas portuguesas em geral)

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Já não há motivo para analisar as telenovelas da televisão portuguesa. O diagnóstico é crítico: enredos sem pés nem cabeça e temporadas infindáveis!
Este post limita-se a tentar perceber porque as pessoas as vêem. Dirige-se de maneira particular às telenovelas da TVI mas a lista seguinte também de aplica às dos outros canais do TDT.
Eis as razões do sucesso:

– As dos outros canais são igualmente más;
– As pessoas estão habituadas às novelas da TVI e não sabem mudar de canal;
– As pessoas apenas gostam de ver “gajas boas”, não estão preocupadas com a verossimilhança da história;
– As pessoas gostam de praticar o escapismo: a fuga à realidade está bem e recomenda-se;
– As pessoas recusam-se a raciocinar.

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Leituras: Farmacêuticas, neo-colonialismos e a falta de ética médica

Cobaias-HumanasEm Portugal quem autoriza um medicamento a entrar no mercado é o INFARMED; nos Estados Unidos a lei determina que um medicamento só é aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) depois de ser testado num conjunto de pacientes, enquanto por contraste noutro conjunto de pacientes a que é dado um placebo.
A autora cita várias vezes Robert Temple, que é director do plano de acção ao nível da saúde no FDA, é uma autoridade em como os medicamentos devem ser testados: «a sua opinião tem exercido grande influência sobre o FDA – e sobre a comunidade médica de investigação internacional que vê o FDA como modelo». Robert Temple é um apoiante incondicional dos testes por meio de placebos. A autora nota no entanto que esse pensamento é perverso:
«Porque em testes controlados por meio de placebos, mesmo se o fármaco experimental for seguro e eficaz, algumas cobaias doentes terão de ficar sem qualquer tipo de tratamento e as consequências para elas podem ser, de facto, terríveis. Por esta razão, é um tipo de concepção de teste que tem sido constantemente criticado como sendo pouco ético»
Robert Temple coloca-se sempre a favor dos testes com placebos, mesmo quando há controvérsias sobre a forma como os testes são feitos.
Anteriormente eram as farmacêuticas quem faziam os testes. Hoje ainda são mas elas passaram a subcontratar outras empresas para os fazer nalgumas ocasiões – as chamadas CRO (contract research organization) que se instalam em países pobres ou em desenvolvimento – como a Rússia depois da queda do comunismo, a Polónia, na Índia, no Uganda, na África do Sul, etc. – e aí fazem testes de medicamentos.
Estas organizações têm um discurso neocolonial: «Se os pacientes forem pobres e privados de medicamentos, a realização de uma experiencia de um fármaco neles é, positivamente, um acto de caridade». É este discurso que domina!
No livro explica-se também como foram criadas artificialmente as necessidades para certos medicamentos, como o colesterol e o Viagra. O Viagra pode curar a impotência, mas causa enfartes em quem tem tensão alta, para além de poder causar outros problemas – dependendo dos outros problemas que as pessoas tenham.
Assim, o número de pessoas ajudadas pela maioria dos medicamentos é pequeno, e há muitas mortes por má administração e por excesso de medicamentos.

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Desde o século XIX as experiencias com medicamentos e curas que são feitas em pessoas pobres e escravos. E a ciência médica sempre se considerou acima de qualquer debate, com filmes como a história de Louis Pasteur a elevar os médicos acima dos outros profissionais. A autora contesta isso.
As experiências nazis durante a Segunda Guerra Mundial causaram escândalo, daí ter surgido em 1947 o primeiro código de ética – o Código de Nuremberga. Experiências semelhantes a essas foram feitas anteriormente nos Estados Unidos, e algumas continuaram mesmo depois da Segunda Guerra. Houve sempre duplicidade nos Estados Unidos: por um lado condenar publicamente (muito justamente) os médicos nazis, por outro lado contratar alguns deles depois dos referidos julgamentos…
Em 1964 a Associação Médica Mundial elaborou e aprovou a Declaração de Helsínquia, constituída por onze princípios claros e concisos. Mas as sucessivas revisões desta declaração têm-lhe tirado a força, criando um documento cheio de excepções, em linguagem hermética e de difícil compreensão.
Situação condenável moralmente é a investigação de medicamentos para a SIDA em muitos países em desenvolvimento:
– Não é disponibilizada a terapêutica anti-retroviral às populações (com o argumento que depois do estudo as pessoas não têm meios para continuá-la)
– Não são facultados os instrumentos conhecidos para a prevenção da SIDA (agulhas esterilizadas, serviços de aconselhamento, preservativos)
A razão dessas práticas é simples: isso iria atrasar a propagação dos vírus e seria mais complicado provar que o medicamento X é bom para combater a SIDA. No entanto, por causa da ausência destes procedimentos novas infecções com HIV acontecem desnecessariamente e muitas pessoas morrem escusadamente! Notar que essa é a postura da indústria farmacêutica E dos médicos investigadores que nela trabalham.
De notar que as próprias Nações Unidas colaboram com a industria farmacêutica: o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) dos Estados Unidos, juntamente com o Programa Conjunto das Naçoes Unidas para o HIV-SIDA, o UNIAIDS e outras instituições faziam testes de medicamentos para HIV em vários países de África usando placebos.
Isto chamou a atenção e revoltou o médico e investigador Peter Lurie. Por causa das suas críticas à forma como a investigação para combater a SIDA estava a ser conduzida, despediu-se e a farmacêutica onde trabalhava. A empresa conseguiu arranjar maneira dele nunca mais trabalhar com a SIDA.
A autora mostra como cada forma de controlo da indústria farmacêutica ficou pelo caminho – regras rigorosas, consumidores informados, médicos cépticos. Até os investigadores médicos universitários estão dependentes do financiamento das farmacêuticas! Logo, não vão ser críticos nem dos medicamentos aprovados pelo FDA nem da forma como os testes são feitos.
Hoje (e sempre) os investigadores pensam (e pensaram) que como salvam (algumas) vidas e criam medicamentos novos têm desculpa para não se preocuparem muito com a ética. O motivo principal por que alguém precisa de cobaias para um estudo é apenas porque precisam de dados estatísticos. A investigação farmacêutica tornou-se em si mesma uma indústria, cujo único objectivo é ganhar dinheiro, passando por cima de seja quem for para o obter. Sonia Shah observa que isso não é bom.
Para a autora cabe às pessoas informarem-se e pressionar as farmacêuticas para mudarem as suas práticas – que causam a morte em muitas cobaias e as melhoras em poucos doentes depois do medicamento aprovado. E os países pobres deviam dar prioridade à investigação em medicamentos já comprovados – possíveis de ser melhorados – em vez dos medicamentos novos criados pelas farmacêuticas.
Este livro tem um prefácio de John Le Carré que diz que desde que escreveu O fiel jardineiro muita gente lhe enviou histórias perversas da industria farmacêutica. Ele passou a palavra a agentes literários e editoras mas até agora (2006) nenhum tinha sido editado. Por isso o livro é um acto de coragem por parte da autora e da editora.

Nota:  Ou a autora não soube escrever certas partes ou foi mal traduzido: provavelmente a segunda hipótese. Por isso algumas partes estão confusas.

Leitura de: Sonia Shah, Cobaias humanas (Casal da Cambra, Caleidoscópio, 2008)

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Leituras: Desmascarando o mito do colonizador filantropo

250x22Adam Hochschild é um escritor, jornalista e professor universitário norte-americano, tornado famoso por ter escrito este livro.
Este livro centra-se em duas pessoas que fizeram a história do que somos hoje: o rei Leopoldo II da Bélgica e Edmund Dene Morel.
Graças à pesquisa feita pelo autor compreende-se como o rei Leopoldo II da Bélgica decidiu transformar-se em proprietário colonial (propriedade privada, só no final da sua vida foi vendida ao Estado belga) enquanto tentava passar à Europa a imagem de filantropo e “civilizador” europeu.
Leopoldo II da Bélgica ambicionava uma colonia para si. O Congo estava subexplorado pelos franceses na altura e ele viu ai uma oportunidade. Contratou Henry Morton Stanley, jornalista e explorador, que durante cinco anos preparar aquele que seria o Estado Livre do Congo.
A nível colonial o seu projecto era simples: tirar toda a riqueza existente da terra, até não sobrar mais nada. Uma filosofia muito parecida com a dos colonizadores portugueses e a dos colonizadores em geral, diga-se. Primeiro tirou o marfim. Depois, como a borracha passou a ser a riqueza mais precisa…
leopMas ao contrário do mito, nenhum “selvagem” era “bom” (“bom” no sentido de obediente só porque os exploradores o desejavam). Por isso tiveram de existir formas de pressão: a ameaça de morte constante sobre as aldeias e recompensas para quem matasse mais congoleses desobedientes. Ninguém o planeou, muito menos o rei Leopoldo II da Bélgica mas o resultado da sua colonização “civilizadora” foi um genocídio, comparável ao nazismo de Hitler ou ao GULAG de Estaline… Mas só podia ser desta forma, com as leis criadas pelo rei para explorar as riquezas até ao máximo!!
(Porque ali, no Congo, local que todos pensavam inexplorado (havia lá populações a viver, mas não contavam para nada) os Dez Mandamentos, que implicam o mínimo de respeito pelos outros seres humanos, não existiam!
Notar que depois da morte de Leopoldo II da Bélgica o seu sistema foi “adaptado” e continuou a ser usado, desta vez por belgas, por alemães e por franceses… Fez escola!
Notar ainda que Leopoldo II da Bélgica não foi o único a criar um sistema que colocava negros a maltratar e matar outros negros, ou colocar crianças desde pequenas a receber formação militar para matar pessoas (e tanto nos preocupa hoje, e ainda bem, o facto de haver ditadores africanos que usam crianças nos seus exércitos)…
Edmund Dene Morel foi o principal denunciador da forma de actuar dos colonizadores às ordens do rei Leopoldo II. Era uma pessoa prática, sem idealismos. Foi trabalhar nas docas da Antuérpia, numa empresa britânica que fazia exportações e importações do Congo para a Bélgica. Vendo que só iam armas e objectos sem valor, mas eram trazidos na volta o valioso marfim e a borracha ficou intrigado. Questionou os superiores mas tentaram corrompê-lo. Contra todas as expectativas, decidiu despedir-se e tornar-se jornalista. Até 1913 liderou uma campanha contra a exploração que estava a ser feita no Congo.
Apresentam-se também outras personalidades importantes para essa causa (vale a pena saber mais sobre elas): Roger Casement, George Washington Williams, Mary Kingsley, William Henry Sheppard, John Hobbis Harris, Booker T. Washington. (É aqui que descobrimos que a segregação não desapareceu do Sul dos Estados Unidos depois da guerra civil e que havia um projecto de pastores da igreja prosbiterana para levar todos os negros norte-americanos de volta a África no século XIX.)
Este livro também tem um capítulo dedicado ao Sr. Kurtz, que me fez pensar que a minha leitura de O Coração das Trevas foi extremamente ingénua. O Sr. Kurtz é uma personagem que é a junção de vários colonizadores brancos presentes no Congo durante o reinado de Leopoldo II: ele é de facto a face do Mal, mas do Mal como é sentido por quem é colonizado, não pelos colonizadores. Adam Hochschild reparou em pormenores que eu na minha análise não tive em conta, porque o tema e a forma como é abordado eram novos para mim.

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Este é um livro extraordinário. É aconselhável a quem queira saber a verdade sobre a colonização europeia, a quem goste de história, aos estudantes de sociologia e economia, bem como aos de ciências da comunicação.

Leitura de: Adam Hochschild, O fantasma do rei Leopoldo (Lisboa, Caminho, 2002)