Leituras: Farmacêuticas, neo-colonialismos e a falta de ética médica

Cobaias-HumanasEm Portugal quem autoriza um medicamento a entrar no mercado é o INFARMED; nos Estados Unidos a lei determina que um medicamento só é aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) depois de ser testado num conjunto de pacientes, enquanto por contraste noutro conjunto de pacientes a que é dado um placebo.
A autora cita várias vezes Robert Temple, que é director do plano de acção ao nível da saúde no FDA, é uma autoridade em como os medicamentos devem ser testados: «a sua opinião tem exercido grande influência sobre o FDA – e sobre a comunidade médica de investigação internacional que vê o FDA como modelo». Robert Temple é um apoiante incondicional dos testes por meio de placebos. A autora nota no entanto que esse pensamento é perverso:
«Porque em testes controlados por meio de placebos, mesmo se o fármaco experimental for seguro e eficaz, algumas cobaias doentes terão de ficar sem qualquer tipo de tratamento e as consequências para elas podem ser, de facto, terríveis. Por esta razão, é um tipo de concepção de teste que tem sido constantemente criticado como sendo pouco ético»
Robert Temple coloca-se sempre a favor dos testes com placebos, mesmo quando há controvérsias sobre a forma como os testes são feitos.
Anteriormente eram as farmacêuticas quem faziam os testes. Hoje ainda são mas elas passaram a subcontratar outras empresas para os fazer nalgumas ocasiões – as chamadas CRO (contract research organization) que se instalam em países pobres ou em desenvolvimento – como a Rússia depois da queda do comunismo, a Polónia, na Índia, no Uganda, na África do Sul, etc. – e aí fazem testes de medicamentos.
Estas organizações têm um discurso neocolonial: «Se os pacientes forem pobres e privados de medicamentos, a realização de uma experiencia de um fármaco neles é, positivamente, um acto de caridade». É este discurso que domina!
No livro explica-se também como foram criadas artificialmente as necessidades para certos medicamentos, como o colesterol e o Viagra. O Viagra pode curar a impotência, mas causa enfartes em quem tem tensão alta, para além de poder causar outros problemas – dependendo dos outros problemas que as pessoas tenham.
Assim, o número de pessoas ajudadas pela maioria dos medicamentos é pequeno, e há muitas mortes por má administração e por excesso de medicamentos.

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Desde o século XIX as experiencias com medicamentos e curas que são feitas em pessoas pobres e escravos. E a ciência médica sempre se considerou acima de qualquer debate, com filmes como a história de Louis Pasteur a elevar os médicos acima dos outros profissionais. A autora contesta isso.
As experiências nazis durante a Segunda Guerra Mundial causaram escândalo, daí ter surgido em 1947 o primeiro código de ética – o Código de Nuremberga. Experiências semelhantes a essas foram feitas anteriormente nos Estados Unidos, e algumas continuaram mesmo depois da Segunda Guerra. Houve sempre duplicidade nos Estados Unidos: por um lado condenar publicamente (muito justamente) os médicos nazis, por outro lado contratar alguns deles depois dos referidos julgamentos…
Em 1964 a Associação Médica Mundial elaborou e aprovou a Declaração de Helsínquia, constituída por onze princípios claros e concisos. Mas as sucessivas revisões desta declaração têm-lhe tirado a força, criando um documento cheio de excepções, em linguagem hermética e de difícil compreensão.
Situação condenável moralmente é a investigação de medicamentos para a SIDA em muitos países em desenvolvimento:
– Não é disponibilizada a terapêutica anti-retroviral às populações (com o argumento que depois do estudo as pessoas não têm meios para continuá-la)
– Não são facultados os instrumentos conhecidos para a prevenção da SIDA (agulhas esterilizadas, serviços de aconselhamento, preservativos)
A razão dessas práticas é simples: isso iria atrasar a propagação dos vírus e seria mais complicado provar que o medicamento X é bom para combater a SIDA. No entanto, por causa da ausência destes procedimentos novas infecções com HIV acontecem desnecessariamente e muitas pessoas morrem escusadamente! Notar que essa é a postura da indústria farmacêutica E dos médicos investigadores que nela trabalham.
De notar que as próprias Nações Unidas colaboram com a industria farmacêutica: o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) dos Estados Unidos, juntamente com o Programa Conjunto das Naçoes Unidas para o HIV-SIDA, o UNIAIDS e outras instituições faziam testes de medicamentos para HIV em vários países de África usando placebos.
Isto chamou a atenção e revoltou o médico e investigador Peter Lurie. Por causa das suas críticas à forma como a investigação para combater a SIDA estava a ser conduzida, despediu-se e a farmacêutica onde trabalhava. A empresa conseguiu arranjar maneira dele nunca mais trabalhar com a SIDA.
A autora mostra como cada forma de controlo da indústria farmacêutica ficou pelo caminho – regras rigorosas, consumidores informados, médicos cépticos. Até os investigadores médicos universitários estão dependentes do financiamento das farmacêuticas! Logo, não vão ser críticos nem dos medicamentos aprovados pelo FDA nem da forma como os testes são feitos.
Hoje (e sempre) os investigadores pensam (e pensaram) que como salvam (algumas) vidas e criam medicamentos novos têm desculpa para não se preocuparem muito com a ética. O motivo principal por que alguém precisa de cobaias para um estudo é apenas porque precisam de dados estatísticos. A investigação farmacêutica tornou-se em si mesma uma indústria, cujo único objectivo é ganhar dinheiro, passando por cima de seja quem for para o obter. Sonia Shah observa que isso não é bom.
Para a autora cabe às pessoas informarem-se e pressionar as farmacêuticas para mudarem as suas práticas – que causam a morte em muitas cobaias e as melhoras em poucos doentes depois do medicamento aprovado. E os países pobres deviam dar prioridade à investigação em medicamentos já comprovados – possíveis de ser melhorados – em vez dos medicamentos novos criados pelas farmacêuticas.
Este livro tem um prefácio de John Le Carré que diz que desde que escreveu O fiel jardineiro muita gente lhe enviou histórias perversas da industria farmacêutica. Ele passou a palavra a agentes literários e editoras mas até agora (2006) nenhum tinha sido editado. Por isso o livro é um acto de coragem por parte da autora e da editora.

Nota:  Ou a autora não soube escrever certas partes ou foi mal traduzido: provavelmente a segunda hipótese. Por isso algumas partes estão confusas.

Leitura de: Sonia Shah, Cobaias humanas (Casal da Cambra, Caleidoscópio, 2008)

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Leituras: Dez peões em jogo

And_Then_There_Were_None_First_Edition_Cover_1939Agatha Christie escreveu muitos romances policiais mas este é considerado um dos mais famosos e é fácil perceber porquê.
A história passa-se numa ilha deserta, situada na costa de Devon. Ela é narrada em terceira pessoa e descreve a vivência de dez estranhos (entre si) que foram atraídos para a mansão da ilha por um misterioso homem e sua esposa que têm as mesmas iniciais: U. N. Owen.
Em todos os quartos existe este poema, na realidade uma versão de uma canção popular do Reino Unido:

«Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou, e então ficaram nove.
Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, então ficaram oito;
Oito negrinhos vão a Devon em charrete;
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Um deles quis ficar, então ficaram sete.
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, então ficaram seis;
Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco;
A abelha picou um, e então ficaram cinco,
Cinco negrinhos vão ao fórum, a tomar os ares;
Um deles foi julgado, então ficaram dois pares.
Quatro negrinhos vão ao mar; a um tragou de vez
O arenque defumado, e então ficaram três.
Três negrinhos passeando no zoológico. E depois?
O urso abraçou um, e então ficaram dois.
Dois negrinhos brincando no sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.
Um negrinho está sozinho, é só um;
Ele se enforcou, e não sobrará nenhum.»

Este poema é extremamente racista, note-se.
A partir dele a autora criou um enredo surpreendente, do início ao fim.
Quando chegam à ilha, os dez estranhos parecem todos pessoas de bem. Mas, à medida que o tempo passa e as mortes se sucedem, eles vão despindo a aura de civilização que trouxeram consigo e se tornando mais grosseiros e ao mesmo tempo mais verdadeiros. No fundo, todos os que receberam este convite são pessoas más com um passado mal resolvido.
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Os dez acabam por morrer, e quando lemos pensamos que todos foram assassinados. Mas e se o assassínio for um deles? O mistério do assassino só é revelado no final, por uma confissão do próprio antes do suicídio.
Questões que o livro coloca: Quem tem o direito de decidir o que é a justiça? E quem deve decidir que o castigo serve para cada crime? A justiça a todo o custo não será ideia de alguém com perturbações mentais?
O seu título original era “Ten Little Niggers” mas para os Estados Unidos, para não haver melindres por causa do racismo implícito, foi editado sob o título “And Then There Were None”. Em Portugal pode ser encontrado sob o título “Convite para a morte” ou, numa edição mais recente, “As dez figuras negras”. No Brasil também pode ser encontrado sob o título “O Caso dos Dez Negrinhos” ou “E Não Sobrou Nenhum”.
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Sobre o fenómeno Maria Vieira

verdades

 

Eles não sabem nem sonham,

O que é que se cozinha nos bastidores,

Antes de um post da Maria Vieira aparecer!

Eles não sabem nem querem saber

Porque tudo o que a Maria Vieira diz

É considerado assunto principal

Em qualquer ocasião

Eles não sabem nem querem perceber

Porque a Maria Vieira publica um livro

Cheio de insultos

E é a estrela da televisão

E tanto escritor bom

Não tem dinheiro

Para cinco minutos de publicitação!

Eles não sabem e gostavam de saber

E eles têm vergonha de viver

Num país que promove a Maria Vieira

Como a estrela das redes sociais

E omite as ideias de gente mais sensata

E avisada!

Eles não sabem nem sonham,

O que é que se cozinha nos bastidores,

Das palavras da Maria Vieira!

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Martin Luther King tinha um sonho

«De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com “fundos insuficientes”.

Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.
Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.
Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.
Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre

. Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.

E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, “Quando vocês estarão satisfeitos?”

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.»

Martin Luther King, 28 de Agosto 1963

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Fonte do texto: Macrotemas.

Discurso no inglês original: texto e vídeo.