Razões para o sucesso das telenovelas da TVI (e das telenovelas portuguesas em geral)

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Já não há motivo para analisar as telenovelas da televisão portuguesa. O diagnóstico é crítico: enredos sem pés nem cabeça e temporadas infindáveis!
Este post limita-se a tentar perceber porque as pessoas as vêem. Dirige-se de maneira particular às telenovelas da TVI mas a lista seguinte também de aplica às dos outros canais do TDT.
Eis as razões do sucesso:

– As dos outros canais são igualmente más;
– As pessoas estão habituadas às novelas da TVI e não sabem mudar de canal;
– As pessoas apenas gostam de ver “gajas boas”, não estão preocupadas com a verossimilhança da história;
– As pessoas gostam de praticar o escapismo: a fuga à realidade está bem e recomenda-se;
– As pessoas recusam-se a raciocinar.

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Hoje lembrei-me de Gilles Lipovetsky

«Anunciou-se precipitadamente o fim da sociedade de consumo quando é claro que o processo de personalização não para de lhe alargar as fronteiras. A recessão presente, a crise energética, a consciência ecológica não são o toque de finados da sociedade de consumo: estamos destinados a consumir, ainda que de outro modo, cada vez mais objectos e informações, desportos e viagens, formação e relações, música e cuidados médicos. É isso a sociedade pós-moderna: não o para além do consumo, mas sua apoteose, a sua extensão à esfera privada, à imagem e ao devir do ego chamado a conhecer a obsolescência acelerada, da mobilidade, da desestabilização. Consumo da sua própria existência através dos media desmultiplicados, dos tempos livres, das técnicas relacionais, o processo de personalização gera o vazio em technicolor, a flutuação existencial na e pela abundância de modelos, mesmo que condimentados de convivialidade, de ecologismo, de psicologismo. Estamos na segunda fase da sociedade de consumo, cool e já não hot, consumo que digeriu a crítica da opulência.»

Gilles Lipovetsky

Tornar o homem num objecto: processo em curso

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«O corpo masculino é hoje celebrado como objecto de interesse sexual, desportivo ou lúdico. O ideal popular passou a valorizar o porte atlético considerando-o verdadeiro atributo do homem. Os modelos são sempre jovens, bonitos, perfeitos. A televisão mostra permanentemente imagens de gente bonita e magra, eles musculados e confiantes, dançando com mulheres igualmente bonitas, magras e sexy.

Apesar de existirem homens que não perseguem activamente os novos padrões corporais masculinos, muitos idealizam-nos e consideram-nos um objectivo social e cultural a atingir a todo o custo. Facilitando esse objectivo, há uma verdadeira explosão de produtos que pretendem melhora a apresentação do corpo masculino: aparelhos mecânicos de treino, suplementos dietéticos, injecções anabolisantes, massagens, cremes cutâneos, programas de treinos, monitorização fisiológica em tempo real.
Há uma preocupação masculina, intensa e permanente, em manter um bom aspecto físico. Não é uma preocupação com a saúde, é antes uma pura preocupação com a imagem.
Um estudo que realizei e publiquei há alguns anos, com uma amostra de 498 jovens adultos portugueses entre os 18 e os 25 anos, mostrou que o principal foco de desagrado dos jovens é a barriga, imediatamente seguido do nariz. O terceiro foco são os genitais. Quase metade dos homens afirmou-se insatisfeita com a estatura, quase todos desejando ser mais altos. Afirmaram-se insatisfeitos com o seu peso um pouco mais de metade dos inquiridos. Porque eram gordos? Não. Sessenta por cento desse grupo queria ter mais peso. Ou seja, mais músculo.
A auto-estima e o modo como cada um se julga a si próprio, quase exclusivamente através da aparência, desenvolve a exigência de um ideal, que muitas vezes pode levar a uma exagerada avaliação de si mesmo, tornando-se extremamente crítico com qualquer mínima imperfeição ou anormalidade. Felizmente, a maioria dos homens tem uma imagem realística, por vezes conformada, de si próprios. Apenas uma pequena percentagem dos homens tem verdadeiros problemas com a sua imagem corporal. (…)»
Nuno Monteiro Pereira

Nota: Artigo publicado na revista Sauda+, em 03-07-2017.

Leituras complementares:
Como é o corpo perfeito de um homem segundo as mulheres?
Crise econômica levou ao surgimento do ‘spornsexual’
Lumbersexual, Spornsexual são tipo Metrossexual

Tornar a mulher um objecto: um guia dos produtos á venda para o efeito

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«Amamos mulheres! Desde que elas se depilem totalmente a ponto de não parecerem adultas. Sim, vaginas eternamente jovens são ovacionadas. Nenhum pelo! Que nojo mulher com pelo! Mulher tem pelo? É sério? Depilação com cera, por favor! E finge que não dói.

Amamos mulheres! Essas divas. Mas parto normal, não. Vai estragar o brinquedinho? Vagina de cocotinha, lembra? Vagina de cocotinha não é capaz de colocar uma criança no mundo. Cirurgia, por favor!

Amamos mulheres! Com peitos durinhos. Põe silicone, ué! Uma cirurgia a mais, uma a menos, não faz diferença. Peitos que jorram leite pra alimentar um bebê? Isso existe? Com tanta latinha na farmácia… Não, amamentar, não. Que pretensão é essa de poder produzir o alimento do seu filho? Seca, leite. Você não consegue. Peito é pra fins sexuais. Apenas. Servidão.

Amamos mulheres! Que nojo de menstruação… Mulher menstrua? Sangue? Ai, vou desmaiar. Esconde esse absorvente. Shhhhh. Ninguém pode saber que sai sangue de você todo mês. Tem jeito de não menstruar. Vai! Faz isso! Que nojo! Hormônio pra dentro. Tá tudo bem.

Amamos mulheres! De barriga chapada: por que a sua não é? Lipoaspiração. Abdominoplastia. Cinta que tira o fôlego. Tudo a seu favor. O que não vale é ter a sua própria barriga. Onde já se viu? Que audácia amar seus pneuzinhos!

Amamos mulheres! Mas essa vagina não é igual ao do filme pornô. Vai lá! Tem cirurgia íntima! O Brasil é recordista mundial em cirurgias íntimas femininas. Uma cirurgia a mais, uma menos… Mais uma dose de cirurgia, por favor. Labioplastia ou ninfoplastia. Ninfo. Aproveita que também existe clareamento anal. Tudo rosinha. Ninfo. Rosinha. Sua vagina não serve. Nem seu ânus.

Amamos mulheres! De sobrancelha feita, cabelo pintado, escovado, maquiada, com esmalte, depilada, vagina e ânus rosadinhos, salto, sem menstruação, sem leite jorrando do peito, sem ver um filho passando em sua vagina. Mulheres… Cirurgias. Produtos pra maquiar. Naturalidade feminina? Nojo!

Amamos mulheres! Doces. Já tomou seu rivotril hoje? Gritou? Tá louca. The mad woman in the attic. Mulheres. Jovens. Eternamente. Um fio de cabelo branco é sinal de desleixo. Compra tinta, maquiagem, faz cirurgia, toma hormônio, rivotril, sinta a dor de cada pelinho sendo arrancado com cera quente. Vai em frente!

Amamos mulheres! Jovens, maquiadas, moldadas, dormentes, lipoaspiradas, siliconadas, alisadas, clareadas, refinadas, “limpas”, de salto – nem sua altura serve! – desumanizadas, anestesiadas para a próxima cirurgia. São tantas Galateas…

Amamos mulheres! Já viu o ‘the perfect v’? Novidade no mercado. Iluminador para a vagina. Rosa. Iluminada. Ninfa. Cocotinha. Depilada. Infantil.

Amamos mulheres! Desde que elas não sejam mulheres. Apenas estátuas moldadas. Apenas Galateas esculpidas por Pygmalion. Sem vida. Estão todas dopadas. Seja por remédios ou pela mídia.

“Gostamos de mulheres femininas”: mentira! Porque vocês odeiam tudo o que é feminino: pelos, sangue, parto, leite, cheiro natural de vagina, cores e sabores. Vocês não gostam de fêmeas. Vocês gostam que mulheres performem feminilidade. A qualquer custo. Que não sejam elas mesmas. Chora, Galatea. Em silêncio pra não incomodar.

Foto: reprodução/instagram @theperfectv»

Quartinho da Dany (página do Facebook) em 23-07-2017