Leituras: Judith Moore, miúda gorda!

«Um escritor é pelo menos duas pessoas. É o prosador à secretária e uma espécie de camareiro que o serve e que trata de viver a sua vida.»
Victor Sawdon Pritchett
img_210418881_1361187377_abigJudith Moore (1946-2006) foi uma jornalista e escritora norte-americana. Escreveu sobretudo ensaios para jornais e revistas e fez entrevistas.
Este livro conta a sua história de vida, de acordo com o The New York Times. Conta como é a sua relação com a comida: oh gula! E conta sobretudo a sua infância infeliz, com pouco afecto. Conta como ganhar muitos quilos emocionais.
A narradora-autora descreve-se como não sendo uma mulher de afecto fácil. Diz, por exemplo:
«Os autores que escrevem sobre estas conversas da treta na primeira pessoa saúdam muitas vezes o leitor à entrada com abraços calorosos e beijos complacentes. Eu não. Não me farei querida. Não porei ares.
Não sou assim tão agradável. Vou-me tornando cada vez menos agradável com a idade. Desconfio das histórias da vida real que terminam num tom triunfal… Construí quatro paredes de gordura e vivi lá dentro. »
O certo é que apesar de tanta frieza, o seu livro emociona e faz pensar. Às vezes parece um ensaio, outras uma obra de ficção: porque está mesmo muito bem escrito!

 

Leitura de: Judith Moore, Fat girl (Lisboa, Quetzal, 2006)

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Leituras: Morrie Schwartz, o inspirador…

as terças com morrieQuase todos nós temos algum professor ou alguma professora que nos inspira mais, que nos marca. Mitch Albom teve Morrie Schwartz, professor de sociologia na Universidade de Brandeis (uma universidade privada situada a 14 Km de Boston).

Este livro trata da transformação de Mitch Albom: deixou de ser apenas um jornalista desportivo conhecido em Detroit, depois de assistir aos últimos dias do seu professor Morrie Schwartz, que morreu em 1995, tornou-se guru de auto-ajuda citável, conhecido mundialmente e colaborador assíduo de Oprah Winfrey.

Como o próprio Mitch Albom refere as ideias do seu professor são todas herdeiras dos anos 60 do século XX. O desapego e a busca de sentido para a vida são importantes desde então e são alguns dos temas do livro. O que a indústria da auto-ajuda tem feito desde então é comercializar ideias feitas de como as pessoas se devem preparar para morrer. Mitch Albom com este livro foi um pioneiro dessa indústria.

Graças a Morrie Schwartz, que está a morrer de esclerose lateral amiotrófica (ELA), Mitch Albom redescobre todo o idealismo que tinha quando estudava na universidade, nos anos 70. Agora – o livro foi escrito nos anos 90 do século XX – abunda o cinismo e o egoísmo. (Mitch Albom continuará a ser um homem dos anos 90, embora não o confesse publicamente.)

Morrie Schwartz mais parece um catequista que um professor de sociologia, sempre a debitar ideias citáveis, com as quais eu concordo totalmente. Eis uma das suas generalizações:

«”AH, SE FOSSE NOVO OUTRA VEZ…” Nunca ouves ninguém dizer “Gostava de ter sessenta e cinco anos”.

Sorriu.

“Sabes o que isso reflecte? Vidas insatisfeitas. Vidas incompletas. Vidas que não encontraram sentido nenhum. Porque se encontrares um sentido na vida, não desejas voltar atrás. Queres ir para a frente. Queres ver mais, fazer mais. Estás mortinho para chegar aos sessenta e cinco.”

“Ouve, tens que saber uma coisa. Todos os jovens têm de saber uma coisa. Se estiveres sempre a batalhar contra o envelhecimento, vais ser sempre infeliz, porque isso vai acontecer de qualquer maneira.”»

Claro que concordo com ele. Mas irrita sempre o tom de catequista de Morrie Schwartz, bem como de “bom aluno” de Mitch Albom.

 

Leitura de: Mitch Albom, Às terças com Morrie (Cascais, Sinais de Fogo, 1999)

 

Razões para o sucesso das telenovelas da TVI (e das telenovelas portuguesas em geral)

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Já não há motivo para analisar as telenovelas da televisão portuguesa. O diagnóstico é crítico: enredos sem pés nem cabeça e temporadas infindáveis!
Este post limita-se a tentar perceber porque as pessoas as vêem. Dirige-se de maneira particular às telenovelas da TVI mas a lista seguinte também de aplica às dos outros canais do TDT.
Eis as razões do sucesso:

– As dos outros canais são igualmente más;
– As pessoas estão habituadas às novelas da TVI e não sabem mudar de canal;
– As pessoas apenas gostam de ver “gajas boas”, não estão preocupadas com a verossimilhança da história;
– As pessoas gostam de praticar o escapismo: a fuga à realidade está bem e recomenda-se;
– As pessoas recusam-se a raciocinar.

Inspirado por: Telenovelas portuguesas & Aceita que dói menos: Walcyr Carrasco é o melhor autor de novelas do mercado…

Última Actualização: 27/03/2018

Leituras: O ser humano segundo Ursula K. Le Guin

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Às vezes os escritores precisam de morrer para nós reconhecermos o quanto são geniais. Foi isso que aconteceu comigo em relação a Ursula K. Le Guin…
Ursula K. Le Guin nasceu em Berkeley, na Califórnia, a 21 de Outubro de 1929. Era filha de dois antropólogos. Será por isso que analisa tão bem o ser humano? Ou será que é porque se casou com um francês, o historiador Charles A. Le Guin, em 1953? O convívio com o marido francês de certo lhe terá aberto os olhos para as diferenças culturais, se antes isso não tivesse acontecido…
Seja como for, os seus romances estão impregnados de sociologia, antropologia e psicologia. Para quem se interessa por estes temas, é como ler a prática antes (ou depois) de ler a teoria…
Li dois livros de Ursula K. Le Guin: Expulsos da Terra e A Mão Esquerda das Trevas.

Expulsos da Terra
Esta é a história de Luz Falco Cooper, filha de um dirigente de uma colonia num planeta distante (é um livro de ficção científica!!) do seu caminho para uma nova independência. Passa-se num planeta distante mas poderia passar-se em qualquer lugar da Terra.
O livro pode ser lido de várias formas:
• Um livro de ficção científica;
• Um livro feminista;
• Um livro sobre as relações socioeconómicas;
• Um livro sobre o amadurecimento de alguém.

A Mão Esquerda das Trevas

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Temas tratados: os efeitos de sistemas sociais e políticos diferentes, a questão do género, lealdade e traição e a comunicação entre pessoas.
Genly Ai, um humano, é enviado ao planeta Gethen para convencer as suas gentes a integrar o Ecuménio, uma organização cuja função é coordenar as relações entre oito dezenas de planetas. Duas nações dominam Gethen (também chamado de Inverno devido ao seu clima inóspito): Karhide, uma monarquia, e Orgoreyn, dividido em distritos, e governado por líderes que se reúnem em conselhos. Este planeta distingue-se pela androgenia dos seus habitantes: são “ambissexuais”, sem sexo fixo.
Todos os meses estes seres passam pelo kemmer, um período no qual as hormonas femininas ou masculinas assumem predominância e transformam esse ser num homem ou numa mulher, proporcionando-lhes o que necessitam para acasalar e conceber.
O único que ajudará Genly Ai é o primeiro ministro de Gethen, Estraven, que é exilado depois de agir contra a ideia do rei. À medida que o romance avança Genly Ai e Estraven tornam-se mais próximos. Estraven será o factor-chave para o sucesso da missão de Genly Ai. E Genly Ai ao aproximar-se de Estraven tornar-se-á próximo de todo o povo que habita o planeta.
Muito bons, estes livros!

Para Saber Mais:
Opinião: A Mão Esquerda das Trevas | Ursula K. Le Guin
O Génio de Ursula K. Le Guin

 Ursula K Le Guin: ‘I wish we could all live in a big house with unlocked doors’
Discurso de Ursula K. Le Guin nos National Book Awards