Facebook: #aculpatambémésua

«Rasgaram-se as vestes, bateram-se portas e estalaram-se diversos vernizes, mas este escândalo da empresa que usou dados de uma aplicação instalada via Facebook para influenciar o resultado das eleições dos EUA (e de outras) só pode ter surpreendido quem nunca quis muito saber como funcionava a plataforma de Zuckerberg.

Nunca percebi, ao longo destes anos todos, por que razão as pessoas usavam aquelas aplicações de utilidade zero e fiabilidade ainda menor. Quem, na verdade, quer realmente saber com que celebridade é parecido ou outras coisas manhosas do género que proliferam por aí?

Tudo aconteceu debaixo de todas as barbas: dos utilizadores, do poder político e dos reguladores, que pouco ou nada se importaram com a forma como as redes sociais, e o Google, utilizam os nossos dados. Não faltaram os alertas: “Cuidado, não se exponha, nem aos seus filhos”; “Verifique a credibilidade da informação que lhe aparece no mural”; “Ninguém está a controlar a forma como os dados são usados”; “É perigoso que apenas uma ou duas empresas tenham o controlo não fiscalizado deste espaço, que é tão grande e relevante, que se transformou no espaço público preferencial”. Estes e outros avisos foram recebidos com sobranceiros encolher de ombros.

Não tenha dúvidas: boa parte da responsabilidade é sua, caro utilizador de redes sociais. Em vez de acreditar em tudo o que vê no seu feed, ou de tornar público o que nunca devia deixar de ser privado, pense um bocadinho. Só é usado e manipulado quem quer. Ou quem deixa.»

Miguel Conde Coutinho (1)

Comentarium: Concorde-se com Miguel Conde Coutinho!

Para Saber Mais (e há muito para saber):
Guia de sobrevivência para o Facebook
Como proteger (a sério) os seus dados no Facebook

Cambridge Analytica na Wikipédia em Inglês.

O documento que explica como a Cambridge Analytica ajudou a eleger Trump
Cambridge Analytica suspende o CEO após polémica sobre subornos e prostitutas
Facebook, o Big Brother amável

If You’re Not Paying For It, You Become The Product
Stop Saying ‘If You’re Not Paying, You’re The Product

Sim, os presidentes continuam a ser como os sabonetes

Uma ferramenta para ditadores e genocidas
Facebook rouba secretamente informações de utilizadores Android
Um psicólogo está no centro do escândalo de dados do Facebook
The Facebook and Cambridge Analytica scandal, explained with a simple diagram

Sorria, está a ser manipulado
carneirinhos…somos todos carneirinhos!

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(1) Artigo de opinião publicado no Jornal de notícias, 24/03/2018.

Última Actualização: 28/03/2018

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Educar crianças: sem exageros, ok?

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Lê-se por aí:

As crianças não precisam de escola a tempo inteiro, precisam de pais a tempo inteiro.

Isto é um título de um texto que mostra a revolta totalmente legítima de professores perante a ideia estúpida de (vários) Ministério(s) de Educação de vários governos, segundo a qual os alunos devem estar na escola das 9h às 20h para os pais poderem ser explorados no trabalho.

Claro que aquilo que eles propõe no título, para chamar a nossa atenção para o tema é inexequível e perigoso:

As crianças precisam tanto de escola como de pais a meio tempo. Qualquer coisa a tempo inteiro é pouco saudável.

Claro que concordo com o resto do texto e não posso deixar de citar:

«Mas o problema é mais lato, o problema está na própria concessão do modelo social e laboral que não é family friendly. A nossa sociedade teima em ajustar o horário das crianças ao horário dos pais e não o contrário… O que é mais importante, a família ou o trabalho?»

Leituras: Como pensamos depressa e como pensamos devagar?

Pensar-Deprea-e-DevagarDaniel Kahneman é um psicólogo norte-americano. Nasceu em Tel Aviv (Palestina). Passou a infância em França (na altura sob ocupação nazi) e voltou à Palestina em 1948, pouco tempo antes da independência de Israel. Graduou-se na Universidade Hebraica de Jerusalém em 1954. Ai começou a dar aulas até ser convidado a dar aulas nos Estados Unidos. Hoje dá aulas na Universidade de Princeton, no Woodrow Wilson School of Public and International Affairs, na Universidade Hebraica para além de desenvolver pesquisas para o Gallup.

Daniel Kahneman venceu o Prémio Nobel da Economia (que se chama realmente Prémio do Banco da Suécia para as Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel) em 2002, «por introduzir os insights da pesquisa psicológica na ciência económica, especialmente no que diz respeito às avaliações e tomada de decisão sob incerteza». É sabido que alguns familiares de Alfred Nobel consideram este prémio como uma espécie de «campeonato de relações públicas para economistas» (1), pelo que podemos concluir que as ideias de Kahneman já se tornaram a tendência do momento.

Cada capítulo tem no final algumas ideias de como podemos aplicar os seus conceitos no dia-a-dia: Daniel Kahneman propõe que usemos as suas ideias quando conversamos na máquina de café (ou seja, nos intervalos para almoçar ou para lanchar). Engraçado porque na parte detrás da capa – espaço para as habituais citações elogiosas – encontramos uma citação do New York Times que diz tudo:

«As implicações da obra de Kahneman são vastas, estendendo-se aos âmbitos da educação, do negócio, do marketing, da política… e até ao da investigação sobre a felicidade. Poderíamos chamar a este domínio “psiconomics”, o raciocínio que se esconde por detrás das nossas escolhas.»

Este livro é a síntese de todas as pesquisas: as suas e a de outros psicólogos, economistas e outros cientistas sociais. Daniel Kahneman cita as investigações de Mihaly Csikszentmihalyi, Richard Thaler, Paul Slovic, Martin Seligman, Nassim Nicholas Taleb, de ex-alunos seus e de ex-alunos de Amos Tversky.

O livro inicia com o resumo das investigações que desenvolveu em colaboração com Amos Tversky (esta amizade foi tema de um livro de Michael Lewis) sobre heurísticas e enviesamentos dos juízos que as pessoas fazem. Grande parte do livro é uma explicação de como funciona o nosso Sistema 1 (a intuição) e o Sistema 2 (consciência e racionalização).

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Outros objectos de pesquisa:

Economia comportamental ou Econos e Humanos – A economia habitualmente parte do princípio de que todas as decisões que os sujeitos tomam são racionais. Daniel Kahneman e colaboradores demonstram que todas as decisões têm um fundo emocional por detrás: arriscamos mais quando sentimos que vale a pena.

Psicologia do hedonismo (também chamada de economia da felicidade) ou o Eu da experiência e o Eu da memória – Trata-se do estudo quantitativo e teórico da felicidade, emoções positivas e negativas, bem-estar, qualidade de vida, satisfação da vida e conceitos relacionados, combinando, geralmente, economia com outros campos, como psicologia, saúde e sociologia.

(1) Nobel descendant slams Economics prize.

Leitura de: Daniel Kahneman, Pensar, depressa e devagar (Lisboa, Temas e Debates, 2017)
Para Saber Mais:

Daniel Kahneman no blogue Correntes
Economia evolucionista
O enigma da experiência versus memória (TED Talk)
Daniel Kahneman changed the way we think about thinking. But what do other thinkers think of him?

Quem é Daniel Kahneman e por que todo administrador deve conhecê-lo

Leituras: Morrie Schwartz, o inspirador…

as terças com morrieQuase todos nós temos algum professor ou alguma professora que nos inspira mais, que nos marca. Mitch Albom teve Morrie Schwartz, professor de sociologia na Universidade de Brandeis (uma universidade privada situada a 14 Km de Boston).

Este livro trata da transformação de Mitch Albom: deixou de ser apenas um jornalista desportivo conhecido em Detroit, depois de assistir aos últimos dias do seu professor Morrie Schwartz, que morreu em 1995, tornou-se guru de auto-ajuda citável, conhecido mundialmente e colaborador assíduo de Oprah Winfrey.

Como o próprio Mitch Albom refere as ideias do seu professor são todas herdeiras dos anos 60 do século XX. O desapego e a busca de sentido para a vida são importantes desde então e são alguns dos temas do livro. O que a indústria da auto-ajuda tem feito desde então é comercializar ideias feitas de como as pessoas se devem preparar para morrer. Mitch Albom com este livro foi um pioneiro dessa indústria.

Graças a Morrie Schwartz, que está a morrer de esclerose lateral amiotrófica (ELA), Mitch Albom redescobre todo o idealismo que tinha quando estudava na universidade, nos anos 70. Agora – o livro foi escrito nos anos 90 do século XX – abunda o cinismo e o egoísmo. (Mitch Albom continuará a ser um homem dos anos 90, embora não o confesse publicamente.)

Morrie Schwartz mais parece um catequista que um professor de sociologia, sempre a debitar ideias citáveis, com as quais eu concordo totalmente. Eis uma das suas generalizações:

«”AH, SE FOSSE NOVO OUTRA VEZ…” Nunca ouves ninguém dizer “Gostava de ter sessenta e cinco anos”.

Sorriu.

“Sabes o que isso reflecte? Vidas insatisfeitas. Vidas incompletas. Vidas que não encontraram sentido nenhum. Porque se encontrares um sentido na vida, não desejas voltar atrás. Queres ir para a frente. Queres ver mais, fazer mais. Estás mortinho para chegar aos sessenta e cinco.”

“Ouve, tens que saber uma coisa. Todos os jovens têm de saber uma coisa. Se estiveres sempre a batalhar contra o envelhecimento, vais ser sempre infeliz, porque isso vai acontecer de qualquer maneira.”»

Claro que concordo com ele. Mas irrita sempre o tom de catequista de Morrie Schwartz, bem como de “bom aluno” de Mitch Albom.

 

Leitura de: Mitch Albom, Às terças com Morrie (Cascais, Sinais de Fogo, 1999)