Leituras: Judith Moore, miúda gorda!

«Um escritor é pelo menos duas pessoas. É o prosador à secretária e uma espécie de camareiro que o serve e que trata de viver a sua vida.»
Victor Sawdon Pritchett
img_210418881_1361187377_abigJudith Moore (1946-2006) foi uma jornalista e escritora norte-americana. Escreveu sobretudo ensaios para jornais e revistas e fez entrevistas.
Este livro conta a sua história de vida, de acordo com o The New York Times. Conta como é a sua relação com a comida: oh gula! E conta sobretudo a sua infância infeliz, com pouco afecto. Conta como ganhar muitos quilos emocionais.
A narradora-autora descreve-se como não sendo uma mulher de afecto fácil. Diz, por exemplo:
«Os autores que escrevem sobre estas conversas da treta na primeira pessoa saúdam muitas vezes o leitor à entrada com abraços calorosos e beijos complacentes. Eu não. Não me farei querida. Não porei ares.
Não sou assim tão agradável. Vou-me tornando cada vez menos agradável com a idade. Desconfio das histórias da vida real que terminam num tom triunfal… Construí quatro paredes de gordura e vivi lá dentro. »
O certo é que apesar de tanta frieza, o seu livro emociona e faz pensar. Às vezes parece um ensaio, outras uma obra de ficção: porque está mesmo muito bem escrito!

 

Leitura de: Judith Moore, Fat girl (Lisboa, Quetzal, 2006)

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Facebook: #aculpatambémésua

«Rasgaram-se as vestes, bateram-se portas e estalaram-se diversos vernizes, mas este escândalo da empresa que usou dados de uma aplicação instalada via Facebook para influenciar o resultado das eleições dos EUA (e de outras) só pode ter surpreendido quem nunca quis muito saber como funcionava a plataforma de Zuckerberg.

Nunca percebi, ao longo destes anos todos, por que razão as pessoas usavam aquelas aplicações de utilidade zero e fiabilidade ainda menor. Quem, na verdade, quer realmente saber com que celebridade é parecido ou outras coisas manhosas do género que proliferam por aí?

Tudo aconteceu debaixo de todas as barbas: dos utilizadores, do poder político e dos reguladores, que pouco ou nada se importaram com a forma como as redes sociais, e o Google, utilizam os nossos dados. Não faltaram os alertas: “Cuidado, não se exponha, nem aos seus filhos”; “Verifique a credibilidade da informação que lhe aparece no mural”; “Ninguém está a controlar a forma como os dados são usados”; “É perigoso que apenas uma ou duas empresas tenham o controlo não fiscalizado deste espaço, que é tão grande e relevante, que se transformou no espaço público preferencial”. Estes e outros avisos foram recebidos com sobranceiros encolher de ombros.

Não tenha dúvidas: boa parte da responsabilidade é sua, caro utilizador de redes sociais. Em vez de acreditar em tudo o que vê no seu feed, ou de tornar público o que nunca devia deixar de ser privado, pense um bocadinho. Só é usado e manipulado quem quer. Ou quem deixa.»

Miguel Conde Coutinho (1)

Comentarium: Concorde-se com Miguel Conde Coutinho!

Para Saber Mais (e há muito para saber):
Guia de sobrevivência para o Facebook
Como proteger (a sério) os seus dados no Facebook

Cambridge Analytica na Wikipédia em Inglês.

O documento que explica como a Cambridge Analytica ajudou a eleger Trump
Cambridge Analytica suspende o CEO após polémica sobre subornos e prostitutas
Facebook, o Big Brother amável

If You’re Not Paying For It, You Become The Product
Stop Saying ‘If You’re Not Paying, You’re The Product

Sim, os presidentes continuam a ser como os sabonetes

Uma ferramenta para ditadores e genocidas
Facebook rouba secretamente informações de utilizadores Android
Um psicólogo está no centro do escândalo de dados do Facebook
The Facebook and Cambridge Analytica scandal, explained with a simple diagram

Sorria, está a ser manipulado
carneirinhos…somos todos carneirinhos!

you-are-the-product

(1) Artigo de opinião publicado no Jornal de notícias, 24/03/2018.

Última Actualização: 28/03/2018

Educar crianças: sem exageros, ok?

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Lê-se por aí:

As crianças não precisam de escola a tempo inteiro, precisam de pais a tempo inteiro.

Isto é um título de um texto que mostra a revolta totalmente legítima de professores perante a ideia estúpida de (vários) Ministério(s) de Educação de vários governos, segundo a qual os alunos devem estar na escola das 9h às 20h para os pais poderem ser explorados no trabalho.

Claro que aquilo que eles propõe no título, para chamar a nossa atenção para o tema é inexequível e perigoso:

As crianças precisam tanto de escola como de pais a meio tempo. Qualquer coisa a tempo inteiro é pouco saudável.

Claro que concordo com o resto do texto e não posso deixar de citar:

«Mas o problema é mais lato, o problema está na própria concessão do modelo social e laboral que não é family friendly. A nossa sociedade teima em ajustar o horário das crianças ao horário dos pais e não o contrário… O que é mais importante, a família ou o trabalho?»

Leituras: Morrie Schwartz, o inspirador…

as terças com morrieQuase todos nós temos algum professor ou alguma professora que nos inspira mais, que nos marca. Mitch Albom teve Morrie Schwartz, professor de sociologia na Universidade de Brandeis (uma universidade privada situada a 14 Km de Boston).

Este livro trata da transformação de Mitch Albom: deixou de ser apenas um jornalista desportivo conhecido em Detroit, depois de assistir aos últimos dias do seu professor Morrie Schwartz, que morreu em 1995, tornou-se guru de auto-ajuda citável, conhecido mundialmente e colaborador assíduo de Oprah Winfrey.

Como o próprio Mitch Albom refere as ideias do seu professor são todas herdeiras dos anos 60 do século XX. O desapego e a busca de sentido para a vida são importantes desde então e são alguns dos temas do livro. O que a indústria da auto-ajuda tem feito desde então é comercializar ideias feitas de como as pessoas se devem preparar para morrer. Mitch Albom com este livro foi um pioneiro dessa indústria.

Graças a Morrie Schwartz, que está a morrer de esclerose lateral amiotrófica (ELA), Mitch Albom redescobre todo o idealismo que tinha quando estudava na universidade, nos anos 70. Agora – o livro foi escrito nos anos 90 do século XX – abunda o cinismo e o egoísmo. (Mitch Albom continuará a ser um homem dos anos 90, embora não o confesse publicamente.)

Morrie Schwartz mais parece um catequista que um professor de sociologia, sempre a debitar ideias citáveis, com as quais eu concordo totalmente. Eis uma das suas generalizações:

«”AH, SE FOSSE NOVO OUTRA VEZ…” Nunca ouves ninguém dizer “Gostava de ter sessenta e cinco anos”.

Sorriu.

“Sabes o que isso reflecte? Vidas insatisfeitas. Vidas incompletas. Vidas que não encontraram sentido nenhum. Porque se encontrares um sentido na vida, não desejas voltar atrás. Queres ir para a frente. Queres ver mais, fazer mais. Estás mortinho para chegar aos sessenta e cinco.”

“Ouve, tens que saber uma coisa. Todos os jovens têm de saber uma coisa. Se estiveres sempre a batalhar contra o envelhecimento, vais ser sempre infeliz, porque isso vai acontecer de qualquer maneira.”»

Claro que concordo com ele. Mas irrita sempre o tom de catequista de Morrie Schwartz, bem como de “bom aluno” de Mitch Albom.

 

Leitura de: Mitch Albom, Às terças com Morrie (Cascais, Sinais de Fogo, 1999)