Leituras: Brincar com palavras com Carla Veríssimo

CapaEntrilhas
(Aviso: Esta resenha tem mais elogios do que o normal.)
Carla Veríssimo é uma força da natureza! Bióloga de formação, escritora por paixão. E também animadora sociocultural, formadora e comunicadora nata.
O livro Entrilhas é um reflexo da sua personalidade irrequieta, activa, controversa e divertida.
Neste livro a autora demonstra, em poesia e prosa, o seu amor pelos Açores, região em que trabalhou durante alguns anos.
Também demostra a admiração pelo actor António Feio, cuja morte foi marcante para muitas pessoas (inclusive para mim).
Mostra sobretudo a sua extraordinária capacidade de brincar com as palavras, de criar poesia, de dar o tom certo à emoção para que ela possa ser percebida por outros.

Estão também de parabéns as ilustradoras Irene Sáez e Yaiza López que conseguiram criar uma simbiose perfeita entre palavra e imagem.
Carla Verissimo livro 2017

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Poetry Slam Leiria ou como me tornei aprendiz de poeta

Este ano de 2017 ficará marcado pelo evento Ronda Poética, realizado em Leiria, numa organização conjunta entre Jornal de Leiria e Câmara Municipal de Leiria (Município de Leiria), em colaboração com várias entidades e intervenientes.
Sempre gostei de poesia, mas nos últimos anos tinha deixado de ler. E apenas tinha escrito um poema na vida!
Foi então que participei em alguns eventos da Ronda Poética, entre eles o Workshop de Poetry Slam no Atlas Hostel Leiria. Treinando eu a arte de falar em público no Leiria Toastmasters Club, pareceu-me natural este passo seguinte.
Aí conheci a Carla Veríssimo e o Pedro Silva (entre outras pessoas, mas tenho de destacar estes nomes). Não pude estar até ao fim do Workshop, mas gostei do que vi. Escrevi os meus primeiros poema-desabafo. Também não participei no 1º Poetry Slam Leiria, mas ver as fotografias dessa tarde/noite é muito inspirador, ainda hoje.
Depois participei no Microfone Aberto, da Sessão Demonstrativa do Poetry Slam Leiria, na FNAC, onde disse os poemas que escrevi no Workshop. Foi uma sessão muito inspiradora, onde pude ver a forma como a Carla Veríssimo e o Pedro Silva viviam os seus poemas em batida. Conheci muitas pessoas interessantes nessa Sessão, entre elas Sílvia Tavares e Júlia Rodrigues, duas pessoas cuja idade nos faz aprender todos os dias.
Depois participei, como júri, no 2° Poetry Slam Leiria, na Acrenarmo – Associação Cultural e Recreativa. Conheci uma associação nova em Leiria, logo ao lado do mimo – museu da imagem em movimento. Conheci a escrita de Clara Antunes, Maria Mafalda Graça e Clara Paulo. Foi uma sessão de mulheres apesar do vencedor ser um homem, Francisco Azevedo. Foi uma sessão bem portuguesa, apesar de África estar presente o tempo todo.
Depois outros compromissos afastaram-me do Poetry Slam Leiria por uns tempos.
Voltei agora, no 4º Poetry Slam, nos Lourais. Entrar em casa de pessoas desconhecidas é sempre estranho, mas os anfitriões (Zaida Paiva Nunes e António Nunes) fizeram-me sentir bem-vinda. Quando vi o elenco de poetas tive quase vontade de desistir de dizer os poemas. Mas porque estar no palco é uma oportunidade que nunca devemos desperdiçar, avancei. Penso que de todos, esse Poetry Slam foi aquele em que mais me envolvi.
Portanto, depois de participar num Workshop, uma sessão de divulgação e dois concursos de Poetry Slam, esses poemas em batida, sinto-me uma aprendiz de poetisa, com muito ainda para viver e escrever antes de ser uma poetisa encartada. Como referi ao longo do texto, pessoas inspiradoras no Poetry Slam Leiria não faltam.

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Escrito em 01/09/2017

Revisão do texto de Carla Veríssimo

Fotografia de António Nunes

Leituras: Dez peões em jogo

And_Then_There_Were_None_First_Edition_Cover_1939Agatha Christie escreveu muitos romances policiais mas este é considerado um dos mais famosos e é fácil perceber porquê.
A história passa-se numa ilha deserta, situada na costa de Devon. Ela é narrada em terceira pessoa e descreve a vivência de dez estranhos (entre si) que foram atraídos para a mansão da ilha por um misterioso homem e sua esposa que têm as mesmas iniciais: U. N. Owen.
Em todos os quartos existe este poema, na realidade uma versão de uma canção popular do Reino Unido:

«Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou, e então ficaram nove.
Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, então ficaram oito;
Oito negrinhos vão a Devon em charrete;
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Um deles quis ficar, então ficaram sete.
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, então ficaram seis;
Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco;
A abelha picou um, e então ficaram cinco,
Cinco negrinhos vão ao fórum, a tomar os ares;
Um deles foi julgado, então ficaram dois pares.
Quatro negrinhos vão ao mar; a um tragou de vez
O arenque defumado, e então ficaram três.
Três negrinhos passeando no zoológico. E depois?
O urso abraçou um, e então ficaram dois.
Dois negrinhos brincando no sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.
Um negrinho está sozinho, é só um;
Ele se enforcou, e não sobrará nenhum.»

Este poema é extremamente racista, note-se.
A partir dele a autora criou um enredo surpreendente, do início ao fim.
Quando chegam à ilha, os dez estranhos parecem todos pessoas de bem. Mas, à medida que o tempo passa e as mortes se sucedem, eles vão despindo a aura de civilização que trouxeram consigo e se tornando mais grosseiros e ao mesmo tempo mais verdadeiros. No fundo, todos os que receberam este convite são pessoas más com um passado mal resolvido.
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Os dez acabam por morrer, e quando lemos pensamos que todos foram assassinados. Mas e se o assassínio for um deles? O mistério do assassino só é revelado no final, por uma confissão do próprio antes do suicídio.
Questões que o livro coloca: Quem tem o direito de decidir o que é a justiça? E quem deve decidir que o castigo serve para cada crime? A justiça a todo o custo não será ideia de alguém com perturbações mentais?
O seu título original era “Ten Little Niggers” mas para os Estados Unidos, para não haver melindres por causa do racismo implícito, foi editado sob o título “And Then There Were None”. Em Portugal pode ser encontrado sob o título “Convite para a morte” ou, numa edição mais recente, “As dez figuras negras”. No Brasil também pode ser encontrado sob o título “O Caso dos Dez Negrinhos” ou “E Não Sobrou Nenhum”.
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Sobre o fenómeno Maria Vieira

verdades

 

Eles não sabem nem sonham,

O que é que se cozinha nos bastidores,

Antes de um post da Maria Vieira aparecer!

Eles não sabem nem querem saber

Porque tudo o que a Maria Vieira diz

É considerado assunto principal

Em qualquer ocasião

Eles não sabem nem querem perceber

Porque a Maria Vieira publica um livro

Cheio de insultos

E é a estrela da televisão

E tanto escritor bom

Não tem dinheiro

Para cinco minutos de publicitação!

Eles não sabem e gostavam de saber

E eles têm vergonha de viver

Num país que promove a Maria Vieira

Como a estrela das redes sociais

E omite as ideias de gente mais sensata

E avisada!

Eles não sabem nem sonham,

O que é que se cozinha nos bastidores,

Das palavras da Maria Vieira!

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