Em defesa de um populismo

«Em 1990, o historiador Eric Hobsbawm assinalava: “o capitalismo e os ricos deixaram, até ver, de estar amedrontados”. Tinha sido em parte o medo do socialismo a alimentar a reforma social e democrática do capitalismo a seguir à Segunda Guerra Mundial. Sem este medo, o capitalismo, de novo sem freios e contrapesos sistémicos, tenderia para um padrão economicamente financeirizado, socialmente oligárquico, ambientalmente insustentável e politicamente esvaziador da democracia.

Mais de um quarto de século depois, é preciso assinalar a presciência desta análise histórica e perguntar: o que é que pode hoje meter medo à elite económica e política dominante, que beneficiou de uma globalização entretanto acelerada também pelas instituições supranacionais, de recorte historicamente imperialista, incluindo a União Europeia? A resposta passa por um populismo que tenha uma declinação eurocéptica nas causticadas periferias europeias.

Parece que já ouço o mantra de uma certa elite euro-liberal dita de esquerda, dominante neste e noutros jornais: perante Trump e Le Pen, valha-nos Merkel e Macron, já que Clinton não nos pôde valer. É a mesma elite intelectual que, tendo abandonado o terreno da economia política, fala de populismo e de nacionalismo, cada um no singular, reduzindo-os a perversos discursos étnicos e culturais, sem razões ou ancoragens materiais.

Na realidade, populismos, tal como nacionalismos, houve, há e haverá sempre muitos, antagónicos nas suas justificações e nas suas consequências. Em contracorrente com uma literatura que confunde análise com amálgama insultuosa, o ensaísta John B. Judis, em A Explosão do Populismo, livro recentemente editado entre nós, começa sensatamente por distinguir entre populismo das direitas, “triádico”, e populismo das esquerdas, “diádico”. O populismo dito triádico, de Trump a Le Pen, alimenta uma clivagem, sobretudo cultural e política, entre povo e elite, sendo que esta última é acusada de proteger um terceiro grupo, minoritário, que serve então de bode expiatório para problemas reais. O populismo diádico, de Bernie Sanders a Jean-Luc Mélenchon, expõe uma clivagem material, bem real, entre povo e elite, resultado de décadas de regras neoliberais que transferem recursos de baixo para cima, decisivamente favorecidas pela globalização.

A força dos populismos é totalmente incompreensível sem as crises recorrentes da globalização em sociedades cada vez mais desiguais e fragmentadas, onde a polarização impõe politicamente uma clivagem entre um “nós” e um “eles”. Como o teórico político Ernesto Laclau nos ensinou, tal clivagem é, em última instância, indissociável de sociedades onde as massas muito dificilmente podem ser arredadas da política, apesar de todos os esforços elitistas. Se atentarmos na análise do economista político Dani Rodrik, o populismo das direitas seria favorecido neste contexto pela saliência política dos fluxos migratórios, enquanto que o das esquerdas seria favorecido pela saliência política dos fluxos comerciais e financeiros internacionais. Fluxos há muitos e desglobalizações potencialmente também.

Diria que o populismo das direitas, como Trump ilustra, não mete grande medo às elites do poder, porque deixa intacto o sistema socioeconómico, canalizando a justificada raiva e angustia populares para os que estão ainda mais em baixo. Para lá de ser um útil contrafogo ao populismo das direitas, a promessa que o populismo das esquerdas encerra para a gente comum é a de colocar o enfoque numa redistribuição modificada por transformações na economia política: o medo deve poder fluir de baixo para cima e os recursos de cima para baixo. Para tal, é necessário limitar a política de fronteiras abertas que alimenta toda a chantagem do capital mais móvel. Sem algum grau de fronteira económica, sem algum controlo político democrático sobre os capitais e sobre os fluxos comerciais ao nível dos Estados, não há responsabilidade política democrática que nos valha; nem segurança da que vale a pena, a social, a que é garantida pela provisão pública de recursos essenciais. A política popular passou sempre pela disputa ideológica da fronteira e da segurança a garantir, como a esquerda que conhece a sua história tem a obrigação de saber.

Entretanto, e isto vale ainda mais para as periferias do que para o centro europeu, o discurso populista das esquerdas não pode cingir-se à redistribuição, já que tem de colocar o problema do desenvolvimento das capacidades socioeconómicas nacionais; ou seja, o populismo tem de ser desenvolvimentista, cuidando neste processo de uma distribuição primária do rendimento mais equilibrada, produto de relações de poder mais favoráveis à grande massa dos trabalhadores É também por isto que o populismo tem de ser civicamente nacionalista e logo eurocéptico. Porque nunca houve, e nunca haverá, desenvolvimento conduzido a partir de fora da comunidade política mais relevante; nunca houve e nunca haverá desenvolvimento sem o controlo nacional de instrumentos de política pública que garantam alguma margem de manobra aos Estados para modificarem as instituições nacionais, tornando-as mais inclusivas.

Já vai sendo tempo de atentar na resiliência do vínculo nacional, tanto mais forte quanto mais pulverizadas são outras identidades, e nos custos em termos de desenvolvimento que se pagam quando o controlo estrangeiro dos recursos passa um certo limiar, em Portugal franqueado desde a passagem do milénio.

É por apostarem na obtenção de ganhos para os de baixo, sem deixarem de denunciar a ingerência externa europeia que hoje os continua a limitar, que as esquerdas anti-liberais mostram, cada uma à sua maneira, a vitalidade de projectos de construção de uma vontade colectiva nacional e popular. O facto de jamais serem elogiadas por estas práticas na generalidade da comunicação social pode ser interpretado como um sinal de que estão no bom caminho. Apesar de todos os esforços intelectuais, partindo das margens para o centro, o espectro populista não se esconjura facilmente. Há boas razões materiais para tal. Em democracia, o medo não pode estar concentrado em baixo por muito tempo.»
João Rodrigues (1)

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(1) Opinião publicada no Público, 01/09/2017 e reproduzida no Canal CES.

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Leituras: Quando Daniel H. Pink me compeliu a escolher os meus passatempos…

A-Nova-InteligenciaDaniel H. Pink estudou na Northwestern University (uma universidade privada dos Estados Unidos) e conseguiu fazer-se eleger para a Phi Beta Kappa, a mais antiga sociedade de honra nas áreas de ciência e arte liberal dos Estados Unidos da América. Também recebeu uma Bolsa Harry S. Truman. Depois formou-se em jurisprudência na Yale Law School. Decidido a não praticar direito, dedicou-se à acessoria política durante a presidência de Bill Clinton. Fez parte do gabinete de Robert Reich quando ele foi Secretário para o Emprego e foi escritor de discursos de Al Gore, quando este era Vice-presidente. Mas em 1997 desistiu deste trabalho. Em 2001 publicou o seu primeiro livro, sobre a emergência do trabalho independente e em louvor dos empresários por conta própria, baseado em artigos publicados em jornais e revistas desde 1997. Em 2005 publicou o seu segundo livro, este. Hoje é empreendedor e aclamado como guru no mundo da gestão.
Em Portugal este livro foi editado a primeira vez em 2009. Em 2017 foi reeditado e tornou-se no livro da moda.
No primeiro capitulo o autor faz uma pequena reflexão sobre o hemisfério esquerdo (o lugar do raciocínio e da linguagem oral) e o hemisfério direito (hemisfério das emoções e da linguagem visual (imagem, desenho)).
No segundo capitulo o autor analisa de forma ultra-superficial três eras: primeiro a Era da Abundância (ou seja, do hemisfério esquerdo e do consumismo), segue-se a Era da Ásia (ou seja, do outsourcing), a Era da Automação (ou seja da ascensão da Inteligência Artificial).
No capitulo terceiro o autor convida-nos a pensar nos últimos 150 anos como um drama em três actos:
1º A Era Industrial (a partir de 1850)…
2º A Era da Informação (os “trabalhadores do conhecimento”)…
A actualidade – a Era Conceptual. Nesta era o hemisfério direito (ou seja, a criatividade) predomina. Nesta nova Era, a arte, a inteligência emocional e a procura de sentido predominam.
Para o autor o essencial é cada um desenvolver sete habilidades (o autor chamas-lhes “sentidos”):
Design – Descobrir o artista que há em nós.
Capacidade de contar histórias – Essa capacidade é importante para cada um de nós alcançar sucesso.
Sinfonia – Para saber criar ligações entre coisas e assuntos opostos.
• Empatia – Para perceber os outros e liderar melhor. Inclui a Inteligência Emocional.
Diversão – Terminou a compartimentação entre trabalho e diversão. Necessário jogar jogos, divertir-se a trabalhar e ter humor no quotidiano.
Sentido – Partindo das teorias de Viktor Frankl, que descobriu que em situações extremas como um campo de trabalhos forçados ter um sentido para viver e objectivos é meio caminho andado para a resiliência. Aqui entra também a ideia de que o lado espiritual do homem tem de ser levado a sério, assim como a sua procura da felicidade. Aqui o livro começa a parecer um compêndio das ideias da Psicologia Positiva e de conceitos de auto-ajuda da moda.
Para cada um destes temas o autor propõe recursos para a desenvolver. Essa é, aliás, a grande utilidade do livro.
Ao ler este livro sinto-me num campo de trabalhos forçados que explora os meus tempos livres. (Pode escrever-se que as ideias de Byung-Chul Han se opõe às ideias de Daniel H. Pink e que o último faz psicopolitica.)
No entanto tenho grande interesse em ouvir e contar histórias (storytelling) e a minha necessidade de organização levam-me a estabelecer objectivos (a procurar um sentido). Todos os dias pratico a empatia (fazer atendimento ao público é também isso). E a minha curiosidade leva-me escolher como passatempos para este ano, para além de escrever neste blogue e de ler, experimentar desenhar algo, ouvir sinfonias e trazer diversão para o quotidiano.
É claro que desenvolver estas habilidades não livrará ninguém do desemprego, mas isso o autor não diz. Todavia são boas ideias para actividades de lazer e nesse sentido o livro não é inútil.

Leitura de: Daniel H. Pink, A nova inteligência (Alfragide, Texto, 2013)

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Os Factos Que Marcaram a Nível Mundial em 2017

    1. Donald Trump tomou posse como presidente dos Estados Unidos da América em 20 de Janeiro. De tudo o que fez depois disso, merece ser destacado:

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a) Está a promover uma descida brutal dos impostos dos mais ricos!

b) Reconheceu Jerusalém como capital de Israel e ordenou a transferência de embaixada americana, pondo assim em causa as ambições palestinianas em relação à cidade;

c) A saída do Acordo de Paris e o estar-se a “borrifar” para as alterações climáticas

d) 12 de Agosto, centenas de nacionalistas brancos, membros da chamada direita alternativa e neo-nazis deslocaram-se a Charlottesville, Virginia, Estados Unidos da América, para participarem numa marcha denominada “Unite the Right”.

A “direita alternativa” norte-americana a curto prazo, apoiam fervorosamente as ideias de Trump, em questões como a imigração e a guerra ao islão. A longo prazo, querem seriamente estabelecer um “estado étnico”, só para brancos, dentro dos EUA.

e) Reverteu parte do acordo de Obama com Cuba e reverteu parte do acordo nuclear com o Irão;
f) Deixou a Parceria Transpacífico;
g) Suspendeu a entrada de pessoas transgéneros nas forças armadas;
h) Tornou facultativo o financiamento de contraceptivos por parte dos planos de saúde;
i) Acabou com o princípio da neutralidade da internet;
j) A morte sem fim nos Estados Unidos e Trump apoia posse de armas de fogo!
«Os Estados Unidos vivenciaram ao menos 273 tiroteios em massa em 275 dias. Os números chocantes são resultado de um levantamento conduzido pelo grupo de pesquisa Gun Violence Archive, que monitora esses incidentes desde 2013 e mantém registos actualizados com base em dados de autoridades americanas.» (Fonte).

    1. Atentados por todo o mundo, especialmente em países com maioria muçulmana.

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3. Pobreza e não só no seculo XXI!

«As notícias relacionadas com os milhões de crianças a viver em extrema pobreza, a crise de fome no Iémen, a fuga dos muçulmanos rohingyas de Myanmar, a problemática dos refugiados na Austrália, e o tráfico de seres humanos na Líbia, mostram que a Humanidade precisa de férias (e porque estás por aqui, “checka” a sensibilidade do vídeo acima).» (Fonte)

  1. O Brexit ( A ruptura oficial está marcada para 29 de Março de 2018).
  2. Paraísos Fiscais e Legais

Muitos escândalos, periodicamente irão aparecer. Mas nada muda, pois até os governos estão dependentes de paraísos fiscais.

    1. A propósito de paraísos: a corrupção no mundo está boa e recomenda-se!
    2. A luta pela independência da Catalunha…

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8. A subida da extrema-direita no mundo…

Se a esquerda não parece ser alternativa e nós adoramos ser explorados pelo capitalismo, porque não votar extrema-direita? Há muita gente no mundo a pensar assim. Eu não sou uma delas! E essa gente é inteligente, tem licenciaturas, mestrados e doutouramentos. Há também gente que vota extrema-direita e tem pouca instrução. Todos têm em comum muita frustração com o statuos quo!

  1. Emmanuel Macron ou mais do mesmo com um estilo diferente!

(Mais uma razão para a extrema-direita subir!)

    1. O novo presidente angolano, João Lourenço.

«É só uma operação de cosmética (apesar das dezenas de exonerações), ou significa que está a pensar em todos e não só em benefício de alguns?» (Fonte).

    1. No Zimbabwe sai Robert Mugabe para que tudo fique na mesma??
    2. Brasil ou o retrocesso continua (e chamam-lhe progresso)!

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13. #MeToo ou quando o feminismo foi usado por outros interesses…

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14. Xavier Bettel, primeiro-ministro do Luxemburgo…

« Tornar o que poderia ser considerado um embaraço de protocolo num momento perfeitamente banal. Alguém tinha de ser o primeiro e Xavier Bettel fê-lo: “Ecco mio marito (este é o meu marido)”, disse o primeiro-ministro luxemburguês num tom descontraído. Foi assim que, com a maior naturalidade, Xavier Bettel apresentou o seu marido, Gauthier Destenay, aos seus homólogos líderes europeus numa cimeira da União Europeia.» (Fonte).

    1. A promoção da inteligência artificial a substituta do trabalho humano ou patrões procuram empregados doces e com cérebro programável?

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16. A bolha da procura da bitcoin!

«Esse foi um ano e tanto para as criptomoedas. O bitcoin começou 2017 valendo menos de US$ 1 mil (aproximadamente R$ 3,3 mil) e, em dezembro, quase ultrapassou US$ 20 mil em meio a dois meses de grande flutuação.

Durante toda a curva de ascensão do preço da moeda, céticos previram que a bolha iria estourar – e, há duas semanas, parecia que isso estava de fato ocorrendo.

O preço da moeda caiu até quase US$ 13 mil – e passou a flutuar neste patamar. Na sexta, abriu o dia em US$ 14,4 mil e fechou em US$ 13,3 mil. As mudanças têm acontecido com tanta velocidade que qualquer artigo ou matéria sobre a flutuação ficam velhos cinco minutos depois de serem escritos.» (Fonte).

cartoon686017. Aumento da depressão e das doenças mentais no mundo…

Screen-Shot-2016-03-04-at-12.18.05-PM118. Obsessão com o corpo no mundo ocidental…

19. Nu, o novo normal nas redes sociais do mundo ocidental…

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20. E no meio de tudo isto António Guterres é o secretário-geral da Organização das Nações Unidas… até agora uma belíssima figura decorativa!

Leituras: A pilhagem de África!!

A-Pilhagem-de-AfricaEste livro é o resultado das viagens de Tom Burgis por África, ele que é jornalista do Finantial Times. Embora muitas informações do livro estejam desactualizadas, o princípio que levou à sua escrita mantêm-se, a chamada “maldição dos recursos”: os Estados exploram as riquezas até ao tutano e em consequência disso não há qualquer vínculo entre governantes e governados.

«Onde outrora os tratados eram assinados à força expropriavam os habitantes de África da sua terra, ouro e diamantes, hoje as falanges de advogados que representam as empresas petrolíferas e empresas mineiras com receitas anuais de centenas de milhares de milhões de dólares impõe condições de miséria aos governos africanos e utilizam esquemas de evasão fiscal para retirar receita às nações pobres. Em vez dos antigos impérios, ocultam-se agora redes de multinacionais, agentes e potentados africanos. Estas redes fundem o poder dos estados e das empresas. Não estão alinhados com nenhuma nação e pertencem, antes, a elites transnacionais que florescem na era da globalização. Servem, acima de tudo o seu próprio enriquecimento.»

Na prática a maioria dos países africanos tem o pior de dois mundos: Estado forte e autoritário para aquilo que prejudica os seus cidadãos; Estado fraco para proteger os seus cidadãos.

Leitura de: Tom Burgis, A pilhagem de África (Amadora, Vogais, 2016)  ff

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