Byung-Chul Han explica a alienação de hoje

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«O poder de estabilização do sistema não é repressivo mas sedutor

O poder de estabilização da sociedade industrial e disciplinar era repressivo. Os operários eram brutalmente explorados pelos proprietários, o que originava actos de protesto e de resistência. Nesse momento, foi possível que uma revolução derrubasse as relações de produção existentes. Nesse sistema de repressão tanto os opressores como os oprimidos eram visíveis. Havia um adversário concreto – um inimigo visível – ao qual se oferecia resistência.

O sistema de dominação neoliberal tem uma estrutura completamente distinta. Hoje, o poder que estabiliza o sistema já não funciona através da repressão, mas através da sedução – isto é, cativando. Já não é visível, como no caso do regime disciplinar. Hoje, não há um adversário concreto, um inimigo, que nos retire a liberdade e ao qual se possa resistir.

O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido num empresário livre, um empreendedor de si mesmo. Hoje, cada um de nós é um trabalhador que se explora a si próprio na sua própria empresa. Cada um de nós é mestre e escravo na sua mesma pessoa. E também a luta de classes se transforma em luta interna de cada um consigo próprio. Hoje, aqueles que não conseguem atingir o sucesso culpam-se a si próprios e sentem-se envergonhados. As pessoas vêem-se a si próprias como o problema e não a sociedade.

O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão

Um poder disciplinar que procura colocar o ser humano debaixo de um colete-de-forças de ordens e proibições é totalmente ineficiente. Pelo contrário, é significativamente mais eficiente assegurar que as pessoas se submetam de espontânea vontade à dominação. A eficácia que define o actual sistema advém do facto de operar não tanto através da proibição e da privação, mas procurando agradar e satisfazer. Em vez de gerar homens obedientes, esforça-se por torná-los dependentes. Esta lógica da eficiência neoliberal aplica-se igualmente à vigilância. Nos anos 80, para citar um exemplo, houve protestos veementes contra o censo demográfico alemão. Até os estudantes saíram à rua.

Do ponto de vista actual, a informação solicitada no censo – profissão, níveis de educação, distância de casa ao trabalho – parece quase ridícula. Mas naquela altura o Estado era visto como uma instância de dominação que retirava informação aos cidadãos contra a sua vontade. Essa época há muito que ficou para trás. Hoje expomo-nos de livre vontade. É precisamente este sentido de liberdade que torna qualquer protesto impossível. Ao contrário daquilo que acontecia nos dias do censo, hoje dificilmente alguém protesta contra a vigilância. O livre desnudamento e a auto-exposição seguem a mesma lógica da eficiência como livre auto-exploração. Protesta-se contra quê? Contra si próprio? A artista conceptual Jenny Holzer formulou o paradoxo da actual situação: “Protect me from what I want” [“Protege-me daquilo que quero”].

É importante distinguir entre um poder que impõe e um poder que estabiliza. Hoje, o poder que estabiliza o sistema assume um disfarce amigável e smart, tornando-se invisível e inatacável. O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão. O sujeito pensa-se livre. Esta técnica de dominação neutraliza a resistência de modo eficaz. A dominação que reprime e ataca a liberdade não é estável. Por isso o regime neoliberal é tão estável, ele imuniza-se contra toda a resistência porque faz uso da liberdade em vez de a reprimir. Suprimir a liberdade provoca imediatamente resistências, explorar a liberdade não.

Depois da crise financeira asiática, a Coreia do Sul estava paralisada e em choque. O FMI interveio e disponibilizou crédito. Em troca, o governo teve que impor uma agenda neoliberal. Isto foi iminentemente repressivo, poder impositivo – o tipo de poder que frequentemente é acompanhado de violência e que se distingue do poder de estabilização do sistema que procura sempre passar como liberdade.

De acordo com Naomi Klein, o estado de choque social que se segue a catástrofes como a crise financeira na Coreia do Sul – ou a actual crise na Grécia – oferece a oportunidade de reprogramar radicalmente a sociedade pela força. Hoje, quase não há qualquer resistência na Coreia do Sul. Bem pelo contrário: um consenso generalizado prevalece – assim como a depressão e o esgotamento. A Coreia do Sul tem hoje a mais alta taxa de suicídio do mundo. As pessoas agem violentamente sobre si próprias em vez de procurarem mudar a sociedade. A agressão dirigida para fora, que implicaria a revolução, foi substituída pela auto-agressão dirigida contra si próprio.

(…) O neoliberalismo não pode ser explicado em termos marxistas. No neoliberalismo não tem sequer lugar a “alienação” do trabalho. Hoje, mergulhamos euforicamente no trabalho – até ao esgotamento. O primeiro nível da síndrome de Burnout [esgotamento] é a euforia. Esgotamento e revolução excluem-se mutuamente. Assim, é um erro pensar que a Multitude poderá derrubar o “Império parasitário” e construir uma ordem social comunista.

A economia de partilha leva à total mercantilização da vida

Qual é o estado actual do comunismo? Há hoje uma invocação constante da noção de “partilha” [sharing] e de “comunidade”. A economia de partilha parece substituir a economia da propriedade e da posse. Sharing is Caring [partilhar é cuidar] é a máxima da empresa “Circler”, no mais recente romance de Dave Egger: partilhar é curar, por assim dizer. Os passeios que levam até à sede da empresa estão cheios de máximas como “Comunidade Primeiro” e “Humanos trabalham aqui”. Mas o verdadeiro mote deveria ser: “cuidar é matar”

Centros de boleias digitais, que nos transformam a todos em taxistas, são igualmente divulgados com apelos à comunidade. Mas é um erro afirmar – como faz Jeremy Rifkin no seu mais recente livro, The Zero Marginal Cost Society – que a economia de partilha anuncia o fim do capitalismo inaugurando uma ordem social orientada para o comum, onde partilhar tem mais valor que possuir. O que acontece é precisamente o oposto: a economia de partilha leva, em último caso, à total mercantilização da vida. (…)»

Byung-Chul Han

Nota: Texto publicado originalmente no Süddeutsche Zeitung, a 3 de Setembro de 2014. Traduzide e publicado na revista online Punkto.

 

Psicologia neoliberal

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«Com demasiada frequência, os críticos falam do neoliberalismo como uma força coercitiva externa que se encontra em algum lugar “lá fora” na paisagem política. Mas muitos de nós cada vez mais e voluntariamente governamos nossas vidas de uma maneira espelhando a lógica do mercado. É de admirar, então, que essa ideologia tenha se naturalizado, e as alternativas tão difíceis de se ver?
O neoliberalismo é um termo indescritível, tipicamente usado para descrever processos como a privatização, a desregulamentação, a redução do fundo para o estado social, a retracção do estado e a idealização dos mercados livres: ideias que nasceram nas mentes de académicos em Paris na década de 1930 antes de surgirem como uma realidade política na década de 1970.
Mas essa definição ignora o fato de que esse movimento criou suas raízes ideológicas profundamente dentro de cada um de nós. As racionalidades neoliberais são políticas e psicológicas, servindo para criar uma ordem utópica de mercado livre com o poder do estado e estender essa lógica a todos os cantos da sociedade. Como afirma o sociólogo Loïc Wacquant, o neoliberalismo representa uma “articulação do estado, do mercado e da cidadania que aproveita o primeiro a impor o selo do segundo ao terceiro”.
(…) Podemos usar o Google Ngrams para visualizar como essa psicologia colectiva varreu a sociedade rastreando a frequência com que diferentes palavras e frases foram usadas em livros de língua inglesa desde o século XIX. Ao seleccionar cuidadosamente palavras e frases que encontramos diariamente e que incorporam o espírito da racionalidade neoliberal, encontramos alguns padrões fascinantes emergentes no início dos anos 70.
Por exemplo, houve uma explosão no uso da frase “vender-se” – um sinal inquietante da maneira pela qual aprendemos a falar de nós mesmos na linguagem do mercado. Agora, somos incentivados a nos vender em nossas primeiras datas. É como se tivéssemos abolido a escravidão apenas para substituí-la por um sistema de auto-mercantilização totalmente voluntária. Além da década relativamente tranquila dos anos 60, o tempo também se tornou uma mercadoria que compramos e em que investimos.
Os políticos e os formuladores de políticas fazem infinitas tentativas de alinhar o interesse próprio com resultados sociais ou ambientais mais desejáveis (em vez de atraentes para as responsabilidades colectivas), uma mudança que se manifesta no discurso em rápida expansão em torno dos incentivos. E o crescente uso de frases como “não é da sua (ou minha) empresa” em contextos em que nada é realmente comprado ou vendido mostra como a ideia de gerir a vida como um empreendedor tomou posse. Mesmo os livros fervorosamente anti-neoliberais lemos frases como “bang on the money” aplicadas a ideias de justiça social.
Apesar da tendência de ver tanto a vida pessoal, social e económica como um investimento calculado para retornos futuros, as sociedades contemporâneas não parecem ter aumentado significativamente suas capacidades para resolver seus problemas a longo prazo. Ameaças como mudanças climáticas, sistemas de produção de alimentos esgotados e abastecimento de água, resistência a antibióticos, colapso económico e a corrida de armas permanecem principalmente não mitigadas. Então, por que ainda não conseguimos reagir adequadamente a tais ameaças?
Parece que nossas vidas se tornaram quase permanentemente projectadas em um lugar situado entre o presente e o futuro. Nossas esperanças, sonhos e buscas para uma existência significativa são lançados em um espaço no tempo que nunca chega. É como se fizéssemos um tipo de vida após a vida secular – um destino imaginário que justifica as lutas do presente -, embora, ao contrário da vida após a morte religiosa, é um fato que temos de acreditar que alcançaremos antes das nossas mortes.
Esses impactos psicológicos também parecem profundamente problemáticos em si mesmos. Ao cultivar a antítese de um modo de viver atento e fundamentado, não é de admirar que agora ouvimos falar de epidemias de depressão, desmoralização, narcisismo e outros distúrbios psicológicos. Mas talvez essas questões tenham vindo a produzir por muito mais tempo do que a palavra “epidemia” implica. Autores como Charles Eisenstein argumentam que um processo de separação entre pessoas e natureza começou com o desenvolvimento da agricultura há milhares de anos, desenvolvendo através da separação dos deuses da natureza para se tornarem forças da própria natureza, estendendo-se à noção de domínio humano sobre O mundo natural e culminando na ideia neoliberal de que não somos apenas separados da natureza e uns dos outros, mas do nosso eu presente.
Hoje, pelo menos parece ser um crescente reconhecimento da necessidade de contrariar essas tendências, como evidenciado pelo aumento de interesse em atenção e meditação, que estão cada vez mais desmitificados por um crescente número de pesquisas científicas. Previsivelmente, a resposta do capitalismo tem sido adequar essas práticas e direccioná-las para produtividade e lucros, bem capturadas pelo “treino de atenção plena” da Google em um novo aforismo neoliberal: “a atenção plena abre a porta para a bondade amorosa, que é o coração do sucesso comercial “.
Mas a contradição entre o eu projectado, atomizado do neoliberalismo e a ausência de atenção plena, é flagrante. Os gerentes de negócios podem acreditar que o tempo de investimento na meditação “pagará dividendos” na forma de aumento da produtividade dos funcionários e redução dos custos de saúde, mas pode um consumidor que seja verdadeiramente mindful ou um banqueiro de investimentos mindful existir? Talvez essas apropriações culturais sejam fatais para a base psicológica do próprio capitalismo neoliberal.»

Joel Millward-Hopkins

Nota: Artigo publicado no sítio Open Democracy em 08-05-2017, traduzido por mim.

Comentarium: Quando a forma como pensamos é condicionada por uma ideologia que se torna parte do nosso dia-a-dia e nós nem nos damos conta!!

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Criticar os vencedores tem de ser possível! (Maio 2017)

“Não emitas juízos negativos sobre os vencedores, porque são vencedores. Cala-te”, dizem-me, referindo-se a Cristiano Ronaldo e Joana Vasconcelos, Salvador Sobral, entre outros. Eu não concordo!
Será que alguém por ser vencedor esta acima de observações negativas? Vencendo não tem defeitos? Os vencedores tornam-se automaticamente santos? Pelo amor de Deus! Poupem-me essa censura!

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