Portugal: Futuro Hipotecado

«Thomas Jefferson, o pai da Declaração de Independência dos EUA, manteve até ao fim da sua vida uma hostilidade incondicional para com a especulação bancária. Ele sabia, pela sua experiência de empresário agrícola, que o crédito se tornava facilmente o veículo de uma escravatura perpétua. Por isso, Jefferson, como estadista, formulou o saudável princípio de que uma dívida pública não deve ser prolongada para além de 19 anos, sob pena de uma geração esmagar a geração seguinte com os custos das suas dívidas. Ficámos a saber que entre 1999 e 2013 as empresas públicas contrataram 1777 swaps com a banca de investimento, sobretudo internacional (onde se encontrava até o Lehman Brothers…). Esses contratos, muitos deles especulativos, atingem o valor astronómico de 335 mil milhões de euros (mais do que quatro resgates da troika). Desde 1992, os governos já tinham alienado uma parte da riqueza nacional futura às grandes famílias económicas que controlam os cordelinhos das parcerias público-privadas (implicando dezenas de milhares de milhões de euros dos contribuintes para as próximas décadas). Agora, através das swaps, constatamos que algumas dezenas de gestores públicos, através de atos que só podem ser considerados como venais ou incompetentes, amarraram os portugueses a uma dívida potencialmente infinita. Sem controlo político nem supervisão técnica. Portugal terá de escolher entre voltar a ser um Estado ou aceitar ser um ativo tóxico da banca especulativa instalada na praça de Londres. É por essa decisão que passa a “reforma do Estado”. E não pelo confisco de mais alguns milhões de euros aos que menos têm, como se prepara para acontecer no Orçamento que os regedores de São Bento preparam para 2014.»

Viriato Soromenho Marques (26/08/2013) (1)

(1) Artigo de opinião no Diário de Notícias.

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Coisas Giras de Portugal em 2013 (13)

«Os contratos de derivados de taxa de juro (swaps) adquiridos pelas empresas públicas estarão a perder neste momento cerca de €3000 milhões. O Ministério das Finanças ainda não publicou qualquer relatório trimestral do sector empresarial do Estado, depois de ter divulgado o referente ao segundo trimestre de 2012 quando o buraco era de €2,47 mil milhões, mas o Expresso fez as contas a partir dos dados disponíveis e o buraco ter-se-á agravado em cerca de €500 milhões. Isto tendo em conta que, na altura, a direção-geral do Tesouro indicava que a descida de um ponto percentual na taxa de juro Euribor representaria uma perda na ordem dos €914 milhões. O Tesouro não especificava qual a taxa Euribor a que se referia mas, por exemplo, a média dos prazos de 3, 6 e 12 meses teve uma queda de 0,6 pontos o que representaria uma perda na ordem de €500 milhões.

Questionado pelo Expresso, o Ministério das Finanças não fez qualquer comentário até ao fecho desta edição nem adiantou uma atualização da estimativa que, apesar de tudo, não tem um impacto imediato. Aquele valor é a perda até final dos contratos, muitos dos quais duram mais de uma década. Como frisava o relatório do Orçamento do Estado para 2013, “este custo será distribuído até à maturidade das operações, pelo que estes valores apenas representam um risco orçamental imediato para a conta das administrações públicas, na parcela correspondente a eventuais casos de reembolso antecipado”.

Fonte próxima do processo refere que é difícil estimar com precisão qual a perda neste momento já que os contratos são muito diferentes entre si e de enorme complexidade técnica. O dossiê está na Agência de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP) que já iniciou contactos com os bancos (quase todos estrangeiros) e está a preparar uma estratégia de renegociação.

Moda nas empresas públicas

Cerca de metade destes swaps foram contratados entre 2008 e 2010 e serviram, pelo menos em teoria, para cobrir o risco de subida da taxa de juro. Só que, a partir do final de 2008, a Euribor teve uma descida rápida que se acentuou a partir do ano passado depois de o BCE, já com Mario Draghi, ter levado a taxa diretora até um novo mínimo histórico de 0,75%.

Os dois metropolitanos são os grandes recordistas. O Metro de Lisboa era responsável por quase metade das perdas em junho do ano passado (€1039 milhões), enquanto o seu congénere da Invicta estava comumburaco de €760 milhões. A ‘história’ destas duas empresas com os swaps começou há vários anos mas cresceu rapidamente a partir de 2007.O Metro do Porto tinha 76 contratos celebrados no final de junho passado, num montante contratual de €6,4 mil milhões, quase todos com bancos estrangeiros como o Morgan Stanley, o Merril Lynch ou o Barclays. Mais de metade dos contratos só terminam depois de 2020. Já o Metro do Porto tinha apenas 15 contratos comumvalor de contratual de €1,6 mil milhões.

Fonte oficial da Metro do Porto limitou-se a dizer que a questão está entregue ao IGCP. O Expresso tentou contactar também Joaquim Reis, presidente da Metro de Lisboa entre 2006 e 2010, mas não foi possível obter um comentário até ao fecho desta edição.

Contratos ‘exóticos’

Uma das dificuldades em conhecer o verdadeiro valor de mercado dos contratos é que muitos não são aquilo que se chama em linguagem financeira plain vanilla, ou seja, contratos simples em que uma parte paga uma taxa variável (a Euribor, por exemplo) e, em troca, recebe uma taxa de juro fixa.

O Expresso sabe que entre outras coisas vários destes contratos são os chamados step up swaps em que o montante de referência, sobre o qual é calculado o juro a pagar, aumenta com o passar do tempo. O que significa que as empresas não apenas estão a perder com a descida das taxas de juro como a descida é amplificada por este mecanismo.

Os contratos de swap, tal como vários outros derivados, têm como principal finalidade a cobertura de risco. Neste caso, a cobertura do risco de subida da taxa de juro que, para empresas endividadas, representa uma ameaça séria às contas. O problema é que muitos foram celebrados numa altura de descida das taxas de juro, impulsionada pela política monetária (do BCE na zona euro, mas não só) que acabou por tornar desnecessária e penalizadora esta estratégia financeira.

O Ministério das Finanças está atento a esta situação porque a expectativa é que as taxas de juro se mantenham baixas enquanto a crise na zona euro continuar e o BCE tiver o pé no acelerador. Isso significa que as perdas vão continuar. É certo que as empresas ‘poupam’ nos juros da sua dívida mas perdem parte com estes swaps.»

João Silvestre (12/01/2013) (1)

«Ninguém vigiou os swaps?

O escândalo que agora rebentou sobre os contratos swaps foi noticiado pelo Expresso em Janeiro deste ano, porém sem o destaque que  agora assumiu e sem que tenha provocado qualquer impacto. Na “classe política”, como sempre acontece em casos polémicos, começou o jogo do “passa culpas”.

Não vai faltar um inquérito parlamentar para entreter deputados e jornalistas  durante alguns meses com o espectáculo habitual dos directos televisivos das audições parlamentares. O governo tem interesse nisso, já que as atenções ficarão algum tempo ocupadas com o  assunto e menos focadas nos falhanços da governação.

Mas no meio de tudo isto há uma reflexão a fazer: se o governo não tivesse substituído os dois secretários de Estado ligados à empresa Metro do Porto, a mais penalizada com os contratos swaps, será que teríamos sabido agora do real impacto desses contratos? Parece irónico que tenham sido o governo e a Inspecção Geral de Finanças, tutelada pelo ministério das Finanças, a chamarem a atenção para a verdadeira dimensão do problema.

Tal como aconteceu em 2008 com a  falência do Lehman Brothers, que ninguém conseguiu prever e evitar, incluindo o jornalismo americano conhecido pelo empenho que coloca no seu papel de “watch dog” da democracia, também entre nós, se não fosse a demissão dos secretários de Estado os contratos swaps continuariam  a ser conhecidos apenas de alguns. O governo “geriu” a divulgação  do assunto de acordo com as suas conveniências.

O jornalismo, sobretudo, o jornalismo económico, não devia falhar a investigação aprofundada e atempada destes casos, dando-os a conhecer antes  do calendário estabelecido para a sua divulgação oficial. O Expresso tentou, é certo, mas deixou que a notícia caísse e não lhe deu honras de primeiro caderno. Outros jornais, como o Público, fora divulgando o que iam apurando. Mas faltou iniciativa e investigação de fundo.

Também o Parlamento parece não acompanhar devidamente a gestão da “coisa” pública, limitando-se a reagir a factos consumados. E,  no seio das empresas, as comissões de trabalhadores têm, ou devem ter, acesso à gestão. Não falando já de órgãos de fiscalização de contas e conselhos gerais.  Ninguém deu pelo risco de tais operações?  Ninguém vigiou os swaps

Estrela Serrano (24/04/2013) (2)

Comentarium: Eis as alegrias que trazem os “governos”/”gestores” em quem os portugueses mais gostam de votar. Bem-vindos aos governos “bloco central swap“.

(1) Jornal Expresso.

(2) Blogue Vai e Vem.

Leituras Complementares:

Operações de swap

Algarve: um caso de ascenção e queda

«O ano de 1929 foi fatídico para o Algarve. Pode dizer-se que marcou o início de uma crise de identidade irreversível até hoje. Foi o princípio do fim da platibanda na arquitectura popular, e da antiga burguesia culta e industrial. Um vazio que abriu caminho para a monocultura do turismo de massas e do cimento. Contudo, resta-nos o prazer da açorda de pão, que afinal não é uma invenção do Alentejo, mas sim um traço cultural do Sul. E a certeza que 5 em cada 100 plantas inventariadas por um botânico do século XIX, só existem nesta região. Quem diz tudo isto é Jacinto Palma Dias, 67 anos, de Castro Marim. Este agricultor biológico e produtor de flor de sal, é também o autor de vários livros antropológicos sobre a região. O novo chama-se Algarve em 3D e é a história que lhe vamos contar.

Encontramos Jacinto Dias na sua Quinta da Fornalha, herança dos antepassados catalães, hoje gerida pela filha Rosa. À nossa frente está o pomar de figueiras que plantou em 1984/5 – “o -primeiro plantado depois da crise de 1929”.

“Muita gente não está à espera de ver a açorda” como o primeiro capítulo, ou seja, a primeira dimensão do seu novo livro Algarve 3D, já que é um prato tradicionalmente associado ao Alentejo.

“Isso não é verdade. Em termos de alimentação, o Algarve tem as mesmas características que o Alentejo e o pão de trigo também é feito cá, tão bom ou melhor. É um prato estratégico, simultaneamente popular e rico, minimalista, preparado em pouco tempo e com poucos ingredientes” e traça as fronteiras gastronómicas do Sul.

A segunda dimensão é a platibanda: “apresento a sua sucessiva destruição com uma crítica” aos académicos e aos historiadores de arte, sobretudo da universidade do Algarve.

“Desde os anos 1980 que se estudam as igrejas renascentistas no Algarve. São quase todas iguais! Está-se a estudar um franchising cultural da época. Eram quase todas com as mesmas dimensões e mesmas características. Está-se a estudar um standard em segunda-mão, já que as inspirações vêm de Roma. Enquanto que ao lado estava uma coisa original. As platibandas não são assinadas por nenhum arquitecto importante mas sim, pelas populações.”

A terceira dimensão do novo ensaio tem por título “No Jardim Botânico” e é talvez a maior surpresa. “Por volta de 1880, o Conde de Ficalho que era o homem mais culto do país na altura”, professor na Academia de Ciências de Lisboa e colega do célebre escritor Eça de Queiroz, “mandou para o Algarve um botânico francês”. Teve uma passagem difícil, num ano de muita chuva, e publicou num jornal científico da época que “em cada 100 plantas, 5 só existem cá no Algarve”. “Vá ver onde mais é que isso acontece no mundo”, desafia o autor.

“A inteligência das pessoas quando é curta não dá para ver estas coisas. Porque o Algarve, tem mais vocação para o turismo cultural, seja pela arquitectura popular, ou pela botânica, do que para o turismo de terceira categoria que os nossos políticos acham que é a grande sumidade”, diz.

Mas para Jacinto Dias, “o grande problema surge precisamente com o crash de Nova Iorque, que despoletou um dominó. Levou à falência da Alemanha para onde o Algarve era exportador. Primeiro, ninguém pagou. E depois, ninguém voltou a fazer encomendas”, recorda.

“Ao contrário do que aconteceu no resto do país, a crise de 1929 afectou muito o Algarve. Isto porque a região era duplamente exportadora. Exportava desde conserva de peixe no litoral a pasta de figo no interior. Era sobremesa de inverno no norte da Europa.”

“A propriedade no Algarve era mais equilibrada que no resto no país. Não há grandes latifúndios, nem há excessivamente minifúndios (menores de 10 metros quadrados) e portanto o que aconteceu foi que as entradas de dinheiro eram melhor distribuídas.”

“A riqueza estava melhor distribuída, havia uma estrutura fundiária com uma média de 5 hectares. Era interessante, relativamente ao grande latifúndio do Alentejo ou ao minifúndio do norte.”

“Isso teve um papel social e económico muito importante porque como os rendimentos, também no barrocal com o sobreiro, eram elevados face à pequena e média dimensão da propriedade. Dava perfeitamente para as pessoas nunca passarem fome, viverem remediadamente.”

A crise de 1929 “Foi um desastre e começou uma grande vaga de imigração nessa altura. Houve uma diáspora ao nível das populações rurais e piscatórias”, para países como Marrocos, Venezuela e Argentina (Patagónia).

“Repare que em 1934, ainda sob os efeitos da crise, Olhão tinha 3000 operárias conserveiras. Só Olhão e Setúbal juntas fabricavam metade das conservas portuguesas.”

Até essa fatídica data, “o Algarve era um cluster. Havia fornecimento de frescos. Havia metalomecânica para manter a indústria, para manter as armações do atum. Havia trabalho”, diz.

“Depois houve uma outra situação: o Algarve perdeu as suas elites, muitas até de origem estrangeira porque o Algarve sempre teve uma grande capacidade de absorção. Isto é, rapidamente as pessoas adoptam os costumes algarvios.”

E deu-se um segundo factor negativo: a subida de Salazar ao poder. “Salazar pela sua estrutura mental, nunca foi muito favorável a estas gentes do sul. Ele era um homem da Beira, era um homem desconfiado. Repare o Algarve sempre foi a região mais liberal do país. Ninguém se atreveria a fazer uma platibanda em 1920 no norte do país, sem pedir autorização ao padre.”

Mas esta “é uma província dotada de um discurso decorativista, pelo menos da decoração exterior. Repare como os barcos e os carros de tracção animal eram pintados com muito rigor e muito orgulho, muita auto-estima”, aponta Jacinto Dias.

Salazar piora as coisas para o Algarve ferido de morte pela crise de 1929, e começa a desviar a produção para fornecer o general Franco, durante a guerra civil espanhola, entre 1936/39.

“Isto conduziu a uma segunda recessão, aí sim, talvez possamos falar de fome. Começou a canalizar a produção para Espanha, começou com perseguições políticas, o que conduziu o Algarve a uma depressão enorme, Não apenas económica, mas mental. Portanto, não é de admirar que quando apareceu o turismo, o Algarve já tinha perdido grande parte da sua identidade. E nunca mais recuperou. Nunca mais!”

“O que acontece é que depois do 25 de Abril de 1974, o Algarve foi previsto ser objecto de uma região-piloto, para se fazer uma regionalização gradual no país. Na altura, houve essa iluminação. Mas claro que as forças políticas e os lobbies nunca são do Algarve, nem nunca aceitaram personalidade importantes que viessem do Algarve. Portanto essa promessa nunca se cumpriu. Foi outra derrota que o Algarve sofreu, e também o país. Muito rapidamente se instalaram lobbies nos partidos políticos, nas suas centrais, que perceberam cedo que não interessava mesmo nada fazer do Algarve uma região-piloto”, defende.

“Foi um desastre porque tornaram o Algarve num objecto de turismo de massas. O Algarve é uma região com muitas especificidades, muitas diferenças de uma ponta à outra, muita biodiversidade, e não está preparada para um arrasamento do turismo de massas.”

Ainda hoje “o discurso dominante é esse”, por exemplo, com o projecto previsto para os Salgados.

“O Algarve ficou nas mãos dos construtores. Já nessa altura, o turismo dava dinheiro, mas o que dava ainda mais era a construção de imobiliário turístico”

“A diferença entre a burguesia dos anos 1920’s e a que veio depois, é que a primeira era uma gente muito culta. Veja o Teixeira Gomes, que negociava figo. Era um grande negócio não só para ele enquanto empresário, mas também para as populações que trabalhavam nisso. E o facto de ser um homem de negócios não o impede de ser também um belíssimo escritor. Face a essa burguesia desaparecida com a crise de 1929, surge uma nova burguesia completamente bronca, verdadeiramente ignorante, e inclusivamente marginalizante” das pessoas e costumes locais.

Jacinto Palma Dias é autodidacta em antropologia. Tem “uma formação muito pessoal”, diz-nos. No seu universo familiar foi influenciado quer por “profissionais liberais”, quer por “agricultores”. “Uns absentistas, outros trabalhando directamente no campo”, brinca.

Perguntamos-lhe se algum dia o Algarve, tal como o conhecemos hoje, fará uma mudança de rumo? Uma inversão de marcha? “Acho que vai acontecer uma remodelação disto tudo. O Algarve não aguenta uma situação de monocultura, muito menos uma monocultura de turismo de baixa qualidade, baseada nos resorts e nos campos de golfe”.

Em sua opinião, esta é uma monocultura mercenária. “A maioria dessas grandes empresas têm a sede em Lisboa ou são grandes multinacionais. Estão-se marimbando para o Algarve. No dia em que isto já não for rentável, vão-se embora para outro lugar. Não têm qualquer interesse nisto”, garante.

“Infelizmente, não tendo o Algarve lobbies que o defenda, é arrasado a qualquer momento. Vou recordar aquilo que aconteceu há 4/5 anos, na altura do campeonato do mundo de golf (Ryder Cup). O ex-ministro da economia Manuel Pinho, que antes de entrar para o governo de José Socrates era um funcionário do Banco Espírito Santo, fez o seguinte: candidatou não o Algarve à Ryder Cup, como seria natural, mas sim a Herdade da Comporta, pertencente ao Dr. Ricardo Salgado – que na altura nem campo de golfe tinha, era apenas um projecto. Isto mostra bem o estado actual do Algarve: em vias de destruição e sem ninguém que o defenda”, exemplifica.

E pode-se contar com o poder local? “Não, de modo nenhum. Cada vez estão mais segmentados, porque fazem concorrência uns com os outros e exercem uma espécie de feudalismo municipal”.

Palma é o autor de um livro Algarve revisitado há muito esgotado, apesar de ter tido uma edição de 2000 exemplares. Saiu numa altura em que Portugal era recém-chegado à União Europeia.

“A entrada para a União Europeia, tornou as instituições em distribuidores de subsídios. E a partir da década de 1990, deixou de haver debate cultural e debate político na sociedade portuguesa. Antes ainda havia, porque o dinheiro disponível era só nosso, e as pessoas discutiam a aplicabilidade dos nossos meios. Quando isso deixou de ser feito, criou-se uma mentalidade que não é preciso produzir”, recorda.

“Nos primeiros governos de Cavaco Silva tudo mudou. Os lobbies dominantes estiveram-se marimbando completamente para discutir as melhores soluções para os problemas. E a população portuguesa deixou de ter acesso, não só à questionação do destino para os quais eram transferidas essas verbas, como também a cultura deixou de interessar”.

“O Algarve de repende deixou de interessar porque realçava tudo aquilo que a partir desse momento não interessava nada: as particularidades do Algarve, a sua história muito diferente da história de Portugal, e a sua genuinidade”, diz o autor.

Tudo coisas que “não interessavam absolutamente nada para a nova geração de políticos que gostavam era de semear betão por todo o lado. Foi o que aconteceu.”

A nível regional, a Europa até trouxe coisas boas. “Inicialmente, até houve algumas opções importantes, como as barragens, o fornecimento de água em quantidade e qualidade, e a Via do Infante. No entanto, tudo foi pervertido. Tal como a A22 hoje é paga, também a água vai na maioria para os campos de golfe”, lamenta.

Outra obra deste autor é A metáfora da água e da luz que trata do património imaterial da região.

“Por exemplo, falo muito de São Vicente, uma entidade mítica muito importante até ao século XVI, a Santa Iria, que ainda hoje dá nome à feira da cidade de Faro. São todas entidades moçárabes, anteriores à chegada dos cruzados” ao Algarve.

“Quando os árabes cá chegaram, já toda a costa litoral algarvia estava semeada de grandes centros populacionais cristianizados. Falam um português arcaico, uma associação do romano com vestígios de línguas indígenas. O sul teve importância na língua portuguesa, senão ainda hoje falaríamos galaico”, dado que o país nasceu a partir do Condado Portucalense.

“A língua portuguesa expressa a vitória de uma linguagem do Sul que interveio e se manifestou numa vitória linguística. Venceu culturalmente através da linguística”, defende Jacinto Dias.

Em A metáfora da água e da luz, “faço uma leitura das lendas das mouras, são lendas arcaicas que sempre existiram, são códigos normativos para as pessoas poderem estar, poderem viver.” (…)»

Bruno Filipe Pires (17/01/2013) (1)

(1) Jornal Algarve 123, nº 767.

O regresso de José Sócrates, os comentadores, o situacionismo

Miguel Relvas, José da Ponte e Luís Marinho têm o prazer de apresentar o odiado José Sócrates, agora elevado a político brilhante e com direito a tribuna sem contraditório… Para que a populaça faça muito barulho à volta dele e a televisão pública tenha alguma audiência. E para que haja confusões e ódios a vir ao de cima. Ou para se descobrir que José Sócrates é apenas um anjo que merece o nosso voto…

Também para que o governo tenha “paz” para fazer mais cortes para criar mais desemprego, mais pobreza, mais deficit e mais dívida…

Desse ponto de vista, o “ministro da ética descartável”, o ex-gestor de fábrica de cervejas e o “jornalista promovido” merecem todo o mérito…

Ouvir José Sócrates é de facto pedagógico (e melhor que a programação por eles inventada para tornar o canal público inviável economicamente, e assim ter de ser fechado ou privatizado mais depressa).

Para além disso, ter José Sócrates implicará pagar-lhe (coisa que também contribuirá para a falência do canal público: estamos portanto no paraíso graças a Miguel Relvas & companhia).

Ter José Sócrates implicará que os poucos portugueses interessados poderão brincar às democracias (dado que a União Europeia não parece estar interessada em democracia a sério lançou à muito o seu sucedâneo: a democracia sem democracia).

Vive-se, portanto, no melhor dos mundos em Portugal…

Quanto ao personagem José Sócrates… Este blogue ajustou todas as contas com José Sócrates na altura certa (na data do anúncio da negociação com a troika). Se houver mais contas a ajustar no futuro (coisa que acontece habitualmente com os gurus portugueses) essas serão ajustadas quando for de conveniência.

Para já este blogue não comunga do ódio nem do amor generalizado que polua nesta doce nação portuguesa…

Afinal, já se sabe (quem quer saber) que é sempre possível fazer pior que José Sócrates.

Para fazer melhor implica mudar muita coisa e o português normal (tipo José Sócrates) não gosta de resolver problemas: gostam que lhe soprem ao ouvido soluções ou tirá-las do manual do guru mais citado internacionalmente. Ora, qual tem sido a principal função da Alemanha na União Europeia? Soprar aos ouvidos dos vários países soluções que beneficiem a Alemanha. Isso para o português normal  (tipo José Sócrates) costuma ser o suficiente, até porque seguir por outros caminhos implicaria riscos… e em Portugal a única coisa que se ambiciona é ser-se o “aluno favorito do(a) professor(a)” (para Passos Coelho nem isso é suficiente).

Por fim apenas se cita Luis Bernardo (25/03/2013):

«(…) Afinal, o “pai de todos os males” terá, a partir de agora, uma tribuna mediática e alimentará a máquina de ‘spin’ do PSD. Uma máquina que não terá pejo em colar Sócrates ao PS e atribuir-lhe uma importância que, podendo ser pouco significativa no início, rapidamente passará a existir e a pesar nas decisões das cúpulas de um partido esvaziado, enfraquecido e esmagado entre o compromisso memorandista e a tentação eleitoralista.

Este é, se quisermos, o ângulo morto dos partidos pós-ideológicos: centrados na política personalista e no marketing político, desprovidos de um programa sólido e consistente, ficam à mercê de flutuações como o regresso do filho pródigo ao seu ambiente favorito: a tribuna. O exemplo que estará na mente de todos: Marcelo Rebelo de Sousa, o auto-ungido tribuno da plebe que, todos os domingos, inventa alguma da opinião pública e publicada na semana seguinte. Seja como for, as cúpulas do PS devem estar preocupadas. E têm razão para isso.»

Ver Também:

Coisas Giras de Portugal em 2012 (27)

Há necessidade de um vilão ausente para o “mau de serviço” para que não se vejam os outros

Última Actualização: 29/03/2013