Feminismo Quotidiano: #MeToo, a Carta das Francesas e o Feminismo

(O título desta série de textos poderia ser “Quando lês as noticias e parece que o mundo endoideceu” ou “O Meu Feminismo” mas optei por um titulo mais “neutral”: Feminismo Quotidiano.)

E o título deste post poderia ser: a verdade é muito complexa…

MetooTenho acompanhado a polémica à volta do #MeToo com muita preocupação e cepticismo: porque eu, para além de ser feminista sou céptica. Por isso decidi escrever este texto para explicar como vejo as situações.

Em primeiro lugar quero esclarecer que para mim existem vários níveis numa relação. Um esquema básico:

1º Sedução ou assédio sexual. A sedução torna-se assédio sexual quando uma das partes não deseja.

O Código do Trabalho português no seu  artigo 29º define assédio:

«1 – Entende-se por assédio o comportamento indesejado, nomeadamente o baseado em factor de discriminação, praticado aquando do acesso ao emprego ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afectar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.

2 – Constitui assédio sexual o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não-verbal ou física, com o objectivo ou o efeito referido no número anterior.»

Notar que cito a legislação portuguesa e não a norte-americana, que é diferente.

Notar também que a palavra-chave a reter aqui é “indesejado”: é isso que transforma uma legítima e não criminosa sedução num crime que deve ser denunciado.

2º O abuso sexual se dá quando alguém em uma posição de poder ou de autoridade se aproveita da confiança e do respeito de uma pessoa para envolvê-la em actividades sexuais não consentidas. É crime!

3º Violação. É crime!

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Penso que as norte-americanas do movimento #MeToo não fazem a separação entre sedução e assédio sexual. Não fazem porque são puritanas mas também porque a própria cultura norte-americana onde elas vivem é puritana. Desse ponto de vista concordo com as ideias da actriz Catherine Deneuve e de centena de mulheres em França. No entanto as francesas erram na carta ao dar entender que o único tipo de relação não consentida é a violação. De facto, antes de se chegar até aí existem inúmeras modalidades de situações sexuais não consentidas!

O assédio sexual e o abuso sexual – e às vezes até a violação – no meio cinematográfico em geral e em especial no meio cinematográfico norte-americano sempre existiram: muitas vezes o único “teste” que é necessário fazer é o “teste do sofá”. Sempre se soube isso nos corredores das galas e das produções norte-americanas. Muitas actrizes – e actores – beneficiam-se deste “teste” para ascenderem profissionalmente. Talvez agora as coisas mudem ou então tudo mude para que tudo fique igual.

Porquê só agora as denúncias? O facto de Donald Trump ser presidente e dele e dos seus apoiantes conhecerem minimamente e terem contacto com @s abusadores e @s abusad@s terá alguma coisa a ver? Penso que sim.

O escândalo só rebentou quando o produtor de sucesso Harvey Weinstein ser acusado por Ronan Farrow, num artigo publicado na revista The New Yorker, em 10 de Outubro de 2017 (Dez dias antes tinha sido publicada uma noticia sobre o facto no The New York Times que não teve grande impacto). É engraçado que a primeira queixa contra Weinstein aconteceu em 1998, no programa Late Show with David Letterman e foi feita por Gwyneth Paltrow. E entre 1998 e 2017 várias pessoas repetiram a queixa. Portanto Oprah Winfrey (e muitas outras mulheres) sabiam e nunca disseram nada. Foram hipócritas.

Duas coisas há que ter em atenção quando se olha para o movimento #MeToo norte-americano:

  1. Há mulheres que fazem parte do movimento que foram realmente assediadas, ou abusadas e mesmo violadas.
  2. Há homens inocentes: estamos numa fase do movimento em que toda a gente- sobretudo homens – é acusada por tudo e por nada logo é impossível não existirem inocentes. Não me parece que vá durar para sempre. Mas enquanto durar vai prejudicar as carreiras de muitos homens inocentes e de muitos homens culpados.

Num Estado de direito normal seriam os juízes a punir os criminosos. Mas como o Estado de direito já deixou de morar nos Estados Unidos ANTES da eleição de Donald Trump exige-se que sejam as empresas privadas que façam de sua justiça através do despedimento. Weinstein deu o exemplo despedindo-se da empresa que geria e sendo expulso da Academy of Motion Picture Arts and Sciences (que atribui os Óscares). A propósito a actriz Rose McGowan disse em Novembro de 2017: «Está na hora de limpar a casa».

E foi isso que aconteceu com Kevin Spacey, quando também ele foi acusado de assédio sexual: primeiro a Netflix suspendeu as filmagens da série  House of Cards; depois de mais acusações deste género foi despedido da série; e foi substituído por Christopher Plummer no filme Todo o Dinheiro do Mundo, num passo que foi considerado um exemplo para a industria cinematográfica norte-americana.

Outros aspectos ainda do #MeToo de Hollywood:

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Nas galas as mulheres são “convidadas” e “oprimidas para” (embora nenhuma mulher seja coagida a agir assim oficialmente) usarem pouca roupa e serem vistas em formas provocantes por outras mulheres e também por homens. Na minha opinião essas modas são prejudicais para as mulheres: tornam-se mais vulneráveis. (Parágrafo puritano mas cheio de bom senso).

– Independentemente de uma mulher estar mais despida ou mais vestida Ninguém Deve fazer assédio, abuso ou mesmo violação.

Concluindo: A verdade sobre o que se passa nos Estados Unidos não é simples, o assédio sexual, o abuso sexual existem e nem todos os homens são culpados. Também e necessário acrescentar que ser feminista é procurar a verdade e a justiça.

Para Saber Mais:

Escândalos sexuais: Ian McKellen diz que algumas atrizes também trocaram sexo por trabalho

Assédio: 6 poderosos do showbizz que caíram em 2017 após denúncias das vítimas

Você não percebeu, mas 8 ativistas feministas passaram pelo tapete vermelho do Globo de Ouro 2018
Manifesto francês denuncia puritanismo da campanha #MeToo
“Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle” (a Carta das Francesas no original)

Resposta a Catherine Deneuve: “Os porcos e os seus aliados estão inquietos?”
Uma carta polémica (“seduzir alguém de forma persistente não é crime”) e uma resposta dura (“estou chocada”)
Lutamos, lutamos. Mas… E depois?
Globos de Ouro: É Preciso Sair do Truman Show (com amigos)
Assédio sexual ou Sedução?
Sem-noção, distorção e outros nãos ao manifesto de Catherine Deneuve & 99 francesas

Catherine Deneuve: “Aos conservadores, racistas e tradicionalistas, que estrategicamente me vieram apoiar, gostaria de lhes dizer que não me enganam”

Última Actualização: 16/01/2018

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Os Factos Que Marcaram a Nível Nacional em 2017

O maior acontecimento do ano foi o saborearmos todo o ano as consequências da austeridade e do Estado mínimo imposto pelo FMI e pela União Europeia. Este trago amargo vai continuar a ser servido durante 2018 e nas próximas décadas, estejamos descansados. Por isso o Estado não respondeu de maneira satisfatória a quase nenhum problema do País. E isto vai continuar a acontecer!

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Mas avancemos e detalhemos os principais acontecimentos de 2017:

  1. Pedrogão Grande e os incêndios de 15 de Outubro foram maus demais para ser verdade. As mais de 100 mortes são um dado horripilante. Fora os outros incêndios ao longo do Verão!

«Incêndios em Portugal no ano de 2017 fazem 116 vitimas mortais (o ano mais mortal de que há registo) e ainda 500 mil hectares de territórios destruído. Em consequência a ministra da Administração interna Constança Urbano de Sousa pede a demissão a 18 de Outubro (depois do Presidente Marcelo lhe ter aberto a porta de saída) e ficou a conhecer-se as fragilidades do Sistema Integrado de redes de emergência de segurança (SIRESP)» (Fonte).

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2. Nesta conjuntura, é normal os Bombeiros serem eleitos a personalidade do ano por mim:

a) Os bombeiros são heróis que morrem a lutar contra as chamas, para salvar vidas;

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b) A situação dos bombeiros é precária (como todas as outras em Portugal) e eles ganham menos do que deveriam ganhar;

c) Os bombeiros também são corruptos. Um exemplo: Uma teia de interesses entre bombeiros.

3. A seca extrema em Portugal (e Espanha)!

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97% do País encontra-se em seca extrema ou severa depois de um ano com mínimos históricos de precipitação.

4. O governo António Costa “Geringonça”:

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a) Ao longo do ano foram aparecendo as incongruências, erros e possível corrupção do governo PS de António Costa…

«O caso das armas de Tancos (e as tolas afirmações do ministro da Defesa e do presidente da Assembleia da República); a mudança repentina do Infarmed para o Porto (alguém tomou Kompensan a mais, só pode…); o prometer de mundos e fundos aos professores, com as outras corporações à espreita; a traição ao Bloco por causa da taxa das renováveis; e até o não assunto sobre o jantar da Web Summit, no Panteão; servem de exemplos da inépcia de António Costa e dos seus comandados.» (Fonte).

b) Os acertos do governo de António Costa: reposição de direitos e rendimentos dos trabalhadores, reformados e pensionistas. E ainda a saída do procedimento europeu por défice excessivo.

5. Os Bancos marcam sempre o ano em Portugal…

a) A venda do Novo Banco;

b) Mais de 300 agências bancárias fecharam portas este ano, ficando 1300 trabalhadores sem emprego.

6. Os novos F portugueses: Futebol, Fátima, Facebook e Festivais de Música! (Fonte)

a) O Papa Francisco visitou pela primeira vez Portugal e canoniza os beatos Francisco e Jacinta.

b) O Benfica sagrou-se pela primeira vez tetra-campeão nacional de futebol.

E Bruno de Carvalho venceu por 86,13% as eleições no Sporting. Em alguns balanços figurará como personalidade do ano, mas aqui serve para destacar o amor dos portugueses pelos maus líderes e (claro) pelo futebol.

c) O tempo excessivo que passámos nas redes sociais, sobretudo no Facebook, durante 2017!

d) Festivais de Música: a partir de Maio até ao final de Verão, não há Festival que falte no calendário de Norte a Sul do País!

8. Portugal corrupto: Operação Marquês, no caso EDP, no caso Vistos Gold, na Operação, viagens da GALP, caso da correspondência electrónica do Benfica, etc.

9. A luta pelo aumento do Salário Mínimo: ficou-se pelos 580 Euros!

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10. Mário Centeno como presidente do Eurogrupo é uma óptima ou péssima notícia? Em breve saberemos!

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11. O Portugal retrógrado e hipócrita está bom e recomenda-se:

a) «O juiz Neto de Moura atenua a pena de dois agressores (homens) por causa do adultério da vítima (mulher), num acórdão escrito no século XXI, como se estivesse no século XIX. Se calhar, a toga só lhe cabe na “cabeça de baixo”.» (Fonte).

b) Duas alunas beijam-se na Escola Secundária em Vagos e são chamadas pela direcção do estabelecimento.

12. Cristiano Ronaldo um fenómeno…

a) Graças ao Sporting Clube de Portugal, Manchester United e Real Madrid, Cristiano Ronaldo é o melhor jogador português de sempre (e um dos maiores da história do futebol). O ano foi novamente repleto de troféus individuais e colectivos – com destaque para a vitória na Champions.

b) Tal como todos os milionários mundiais, Cristiano Ronaldo sonhou fugir aos impostos. Mas em Espanha não lhe querem fazer vida fácil. O jornal espanhol El Mundo publicou recentemente declarações de Caridad Gómez Mourelo, responsável da unidade central de coordenação do Tesouro espanhol e especialista em crime fiscal. Caridad Gómez Mourelo destacou que a evasão fiscal do jogador do Real Madrid, que terá cometido quatro delitos fiscais, defraudou o estado espanhol em 14,7 milhões de euros e que terá sido voluntária. Para esta especialista Cristiano Ronaldo devia ser preso. (Fonte).

13. Violência e racismo continuam na moda…

«Os alegados actos de violência e racismo na esquadra da Cova da Moura, a par da selvajaria dos seguranças do Urban Beach e de uma discoteca em Cinfães, demonstram que afinal há quem só tenha testosterona e malvadez no cérebro.» (Fonte).

14. Salvador Sobral outro fenómeno, mas mais relutante…

Finalmente Portugal venceu o Festival da Eurovisão, com uma música de que não gosto muito, cantada por Salvador Sobral e composta pela sua irmã, a cantora de jazz Luísa Sobral. Salvador Sobral tornou-se para os portugueses um fenómeno:

a) Os seus fãs comportaram-se de forma tão acéfala que o próprio os criticou (e bem): “sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que acontece” (Fonte).

b) “Amar pelos Dois” tornou-se genérico da novela brasileira Tempo de Amar.

c) O problema de coração de Salvador Sobral e a sua necessidade de um transplante tornou-se notícia, tanto nas revistas cor-de-rosa como na imprensa internacional.

d) A vitória portuguesa na Eurovisão foi contada em minissérie da RTP: Sem Fazer Planos Do Que Virá Depois

15. O sobressalto da Altice e a embaraçosa agonia da ERC…

16. A novela Manuel Maria Carrilho (ex-ministro da Cultura) e Bárbara Guimarães (apresentadora da SIC) teve muitos capítulos. Coitados dos filhos: eis o único comentário possível!!

17. Boom do turismo ou a herança da austeridade…

a) É bom Portugal ter muitos turistas e ser o vencedor dos World Travel Awards 2017? É! Mas existe um lado M de Mau disso…

Entre as heranças da austeridade, a abertura de monumentos nacionais para tudo quanto é eventos! O patrão do Web Summit quer um jantar no Panteão? ‘Bora lá! É legal e tudo!! (estou a ser irónica).

b) Alojamento local: um problema com muitas soluções, mas parco em consensos (Fonte).

18. Aprovação do projecto lei do BE e PAN em que é permitida a entrada de cães e outros animais de companhia nos restaurantes. A sério??

19. Os imitadores das técnicas de Trump e da Alt-Right em Portugal…

André Ventura usa a bandeira anti-ciganos para obter votos, em Loures, e procura chamar a atenção nas autárquicas. Esse é o exemplo mais conhecido. Mas há gente mais descreta, que quase passa desapercebida…

20. Cristina Ferreira ou o fenómeno continua…

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Cristina Ferreira continua a ser um génio do marketing, sobretudo ajudada pelos fãs dos seus (secantes e horríveis) programas de televisão. Fechou a sua revista para depois voltar a abri-la. Cristina Ferreira e a sua equipa (é preciso não esquecer que há uma equipa) criaram capas propositadamente polémicas para vender. Pelo meio, satisfizeram alguns egos e fizeram campanhas por boas causas…

  1. “E Se Fosse Consigo? “ com Conceição Lino…

«O programa de Conceição Lino na SIC vai numa nova temporada seguindo a mesma fórmula: confrontar os portugueses com os seus preconceitos. Continua a ser um sucesso de audiência, com um milhão de portugueses a verem o programa, o que significa que é mais eficaz que muitas campanhas anti-discriminação. Assédio sexual, transexualidade e homoparentalidade foram alguns dos temas abordados nesta temporada.» (Fonte).

  1. Hóquei e Atletismo:

a) A Selecção Portuguesa de Hóquei em Patins consegue um honroso 2º lugar no Mundial do Japão.

b) Inês Henriques conquistou em Agosto a medalha de ouro nos 50 quilómetros marcha dos Mundiais de atletismo.

c) Luís Gonçalves, nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, conquistou o bronze na final dos 400 metros T12 (deficiência visual), com o tempo de 49,54 segundos.

  1. Surtos de Legionela, Sarampo e hepatite A voltam a matar!images
  2. Não esquecer Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente dos afectos ou o presidente “com a escola toda”….

Marcelo afirmou-se como a personalidade com mais credibilidade para consumo interno à base de beijinhos e abraços, conforme prometeu em campanha eleitoral. E conforme herança familiar… Óptimo para quem gosta do estilo, o que não é o meu caso.

Que ele tem a “escola toda”, expressão popular, não há duvidas e os próximos tempos confirmarão isso.

Leituras: A pilhagem de África!!

A-Pilhagem-de-AfricaEste livro é o resultado das viagens de Tom Burgis por África, ele que é jornalista do Finantial Times. Embora muitas informações do livro estejam desactualizadas, o princípio que levou à sua escrita mantêm-se, a chamada “maldição dos recursos”: os Estados exploram as riquezas até ao tutano e em consequência disso não há qualquer vínculo entre governantes e governados.

«Onde outrora os tratados eram assinados à força expropriavam os habitantes de África da sua terra, ouro e diamantes, hoje as falanges de advogados que representam as empresas petrolíferas e empresas mineiras com receitas anuais de centenas de milhares de milhões de dólares impõe condições de miséria aos governos africanos e utilizam esquemas de evasão fiscal para retirar receita às nações pobres. Em vez dos antigos impérios, ocultam-se agora redes de multinacionais, agentes e potentados africanos. Estas redes fundem o poder dos estados e das empresas. Não estão alinhados com nenhuma nação e pertencem, antes, a elites transnacionais que florescem na era da globalização. Servem, acima de tudo o seu próprio enriquecimento.»

Na prática a maioria dos países africanos tem o pior de dois mundos: Estado forte e autoritário para aquilo que prejudica os seus cidadãos; Estado fraco para proteger os seus cidadãos.

Leitura de: Tom Burgis, A pilhagem de África (Amadora, Vogais, 2016)  ff

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Redes Sociais e Jornalismo: É assim que o seu medo e indignação estão a ser vendidos com lucro

«A história de como uma métrica mudou a maneira como você vê o mundo

Uma noite, no final de outubro de 2014, um médico verificou seu próprio pulso e entrou em um metro na cidade de Nova York. Ele tinha acabado de voltar para casa de um breve período como voluntário no estrangeiro, e estava indo para Brooklyn para encontrar alguns amigos numa pista de bowling. Ele estava ansioso por esta pausa – no início daquele dia ele tinha ido correr por a cidade, bebeu um café na High Line e almoçou numa loja local da marca Meatball. Quando ele acordou no dia seguinte, esgotado com uma leve febre, ele chamou seu empregador.

Dentro de 24 horas, ele se tornaria o homem mais temido em Nova York. Seu caminho exacto através da cidade seria examinado por centenas de pessoas, os estabelecimentos que ele visitava seriam fechados, e seus amigos e noivas seriam colocados em quarentena.

Isso não parou uma explosão dos media que declarando um apocalipse iminente. Um frenesim de clickbaits e narrativas aterrorizantes emergiram à medida que todas as empresas noticiosas importantes correram para capitalizar o pânico colectivo com o ébola.

O dano físico causado pela própria doença era pequeno. A histeria, no entanto – viajando instantaneamente pela internet – fechou escolas, fez aterrar aviões e aterrorizou a nação.

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(…) O terror era muito mais contagioso do que o próprio vírus e tinha a rede perfeita para se propagar – um ecossistema digital construído para espalhar o medo emocional por toda parte.

Eu vou te contar algumas coisas que você provavelmente já sabe

Toda vez que você abre o seu telefone ou o seu computador, seu cérebro está caminhando para um campo de batalha. Os agressores são os arquitectos do seu mundo digital e suas armas são aplicativos, feeds de notícias e notificações em seu campo de visão toda vez que você olha para uma tela.
Todos estão tentando capturar seu recurso mais escasso – sua atenção – e levá-lo como refém em dinheiro. Sua atenção cativa vale bilhões para eles em receita de publicidade e assinatura.

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Para fazer isso, eles precisam mapear as linhas defensivas do seu cérebro – sua força de vontade e desejo concentrar-se em outras tarefas – e descobrir como passar por elas.
Você perderá essa batalha. Você já a perdeu. A pessoa média perde-a dezenas de vezes por dia.
Isso pode parecer familiar: em um instante ocioso, você abrirá seu telefone para verificar a hora. 19 minutos depois, você recupera a consciência em um canto completamente aleatório do seu mundo digital: o fluxo de fotos de um estranho, um artigo de notícias surpreendente, um divertido clipe do YouTube. Você não quis fazer isso. O que acabou de acontecer?
Não é culpa sua – é por causa do design.
O buraco de coelho digital em que você acabou de cair é financiado por publicidade, voltada para você. Quase todos os aplicativos ou aplicativos “gratuitos” que você usa dependem desse processo sub-reptício de transformar os seus globos oculares inconscientemente em dólares e eles criaram métodos sofisticados para fazê-lo de forma confiável. Você não paga dinheiro por usar essas plataformas, mas não se engane, você está pagando por elas – com seu tempo, sua atenção e sua perspectiva.
Esta não é uma pequena mudança técnica nos tipos de informações que você consome, nos anúncios que você vê ou nos aplicativos que você baixar.
Isso realmente mudou como você vê o mundo.

A guerra pela sua atenção

Antes de ir mais longe, deixe-me assegurar-lhe que esta não é uma lista de queixas sobre os males da tecnologia. Eu não sou um Luddita [pessoa que se opõe à tecnologia]. Como a maior parte da humanidade, aprecio profundamente meus aparelhos tecnológicos como uma prótese útil para a minha memória, a minha produtividade e a minha capacidade de me conectar às pessoas que me interessam.

Esta é uma avaliação sóbria de como as estratégias de captura digital nossa atenção nos alteraram – nossas vidas, os nossos media e nossa visão de mundo. Essas mudanças levaram a mudanças enormes na política que temos hoje, nossa visão global e nossa capacidade de nos ver como seres humanos.

Muitos dos maiores problemas que enfrentamos neste momento na sociedade são o resultado das decisões dos criadores escondidos do nosso mundo digital – designers, programadores e editores que criam e curam os media que consumimos.

Essas decisões não são feitas com malícia. Eles são feitos atrás de painéis analíticos, painéis de teste dividido e paredes de código que o transformaram em um bem previsível – um usuário que pode ser minado por atenção.

Eles fazem isso concentrando-se em uma métrica simplificada, que suporte a publicidade como sua principal fonte de receita. Esta métrica é chamada de engajamento, e enfatizando – acima de tudo – modificou sutilmente e de forma constante a maneira pela qual olhamos as notícias, nossa política e entre nós.

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(…) A história da notícia

“Os media”, como os conhecemos, não assim tão antigos. Durante a maior parte da nossa história, a Notícia era, literalmente, o plural das pessoas “novas” que ouviram e compartilhavam, e estava limitada pela proximidade física e pelo boca a boca. Desde a invenção da imprensa, a notícia consistiu em notas postadas em locais públicos e panfletos distribuídos ao pequeno número de pessoas que realmente podiam lê-las.
Entre os séculos XVIII e XIX, os jornais tornaram-se bastante comuns, mas foram na maior parte dos trapos de opinião contendo ensaios políticos, histórias sensacionalistas e, eventualmente, jornalismo sensacionalista. Estes jornais eram megafones para que as pessoas exercessem influência política, e muitas notícias deles tinham pouca relação com os factos.
(…) Em resposta a essa manipulação sistemática da verdade, houve um esforço concertado para criar uma instituição de jornalismo orientada por factos a partir da década de 1920. Este processo foi anunciado pelo advento das primeiras redes de comunicação de media de massa: jornais nacionais e rádio nacional. Estes lentamente deram lugar à televisão, e entre essas três novas plataformas, um sistema de media global se apoderou – impulsionado pelos princípios do jornalismo.

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(…) O surgimento do engajamento algorítmico

Hoje as notícias precisam de competir com tudo o mais em nossa vida digital – milhares de aplicativos e milhões de sites. Mais do que tudo, agora têm de competir com as redes sociais – uma das máquinas de captura de atenção mais bem sucedidas já criadas.
As redes sociais são uma das principais razões pelas quais houve uma queda de dois dígitos nas receitas dos jornais e por que o jornalismo como indústria está em declínio acentuado. É agora como a maioria dos americanos recebe notícias.
O maior jogador das redes sociais é o Facebook, e a maior parte do Facebook é o News Feed.
O algoritmo por trás do News Feed é regularmente modificado e historicamente opaco – é uma das mais peças de código importantes e influentes já escritas. Você pode pensar no algoritmo como o News Feed Editor. (Twitter, Snapchat e Youtube têm seus próprios algoritmos editoriais, mas estamos nos concentrando no Facebook por causa de seu puro domínio).
O News Feed Editor é um editor de robôs, e é muito melhor a capturar a atenção do que os editores humanos normais. Pode prever o que você clicará melhor do que qualquer um que você conheça. É o que o professor Pablo Boczkowski da Northwestern University chamou de “o maior editor da história da humanidade”.

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Tobias Rose-Stockwell

Nota: Excertos de um artigo publicado no sítio The Mission, em 15-07-2017 traduzidos por mim. Vá até lá ler TODO o artigo: vale a pena!