Conversa fiada… (17-11-2016)

Não precisamos de “conversa fiada” (small talk) quando podemos ter tantas conversas profundas!…

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Partilhar leituras: a visão de Zélia Parreira

 

 

tumblr_static_2riufms5t24gk4s88go8so44g«Confesso ter sérias reticências perante um bibliotecário que não gosta de ler, por várias razões que passo a enunciar:

  1. De todas as formas de incutir comportamentos no Outro, a melhor continua a ser o exemplo. Os pais sabem disso quando tentam educar os filhos, os professores sabem disso quando tentam ensinar o aluno, os bibliotecários sabem disso quando tentam formar Leitores. Não é possível convencer alguém a ter interesse em algo que não nos entusiasme, que não nos arrebate, que não consigamos saborear.
  2. É função do bibliotecário orientar Leitores. Aconselhá-los, dar-lhes o que procuram, mas também ajudá-los a elevarem-se, a progredirem enquanto leitores. Abrir portas, caminhos, veredas.
    Preocupa-me que as bibliotecas procurem reproduzir, sem grande espírito crítico, os tops de vendas das livrarias. Sim, devemos dar ao leitor o que lhe interessa, mas sim, temos o dever de o apresentar a novos escritores, novos temas, novas ideias. Ser, de alguma forma, mentores, inspiradores. E nenhum bibliotecário poderá jamais ambicionar ser “inspirador” se ele próprio não for um Leitor informado, diversificado, curioso, crítico.
  3. A nossa matéria-prima é o Livro. Independentemente do seu suporte físico, da forma, do género, da cor… Na verdade, a nossa existência deve-se ao Livro. Ao Livro, sim,  enquanto essência: partilha e transmissão de ideias, ideais, vivências, conhecimento.
    Até que ponto, a “pele” de gestores que vestimos hoje em dia, não nos dá do livro a perspectiva de um objecto que é apenas movimentado daqui para ali, um dígito na coluna das existências contabilísticas, deixando para trás o seu verdadeiro e incomensurável valor? (Declaração de interesses: fala uma bibliotecária viciada nas tarefas técnicas, quase contabilísticas do tratamento documental).
    Quero acreditar que, nesta procura desenfreada em que todos andamos pelo que deve ser um bibliotecário no século XXI, não nos vamos esquecer da nossa primeira razão de existir: ser mediador de leitura, de informação, de conhecimento. Ser a ponte, o elo de um casamento feliz entre o leitor e os seus livros.
  4. Talvez seja presunção minha (e do Gaspar, certamente), mas acredito que a profissão de Bibliotecário tem um perfil intelectual. Não falo do Senhor Intelectual de nariz empertigado que emprega uma linguagem de termos técnicos, mas do Homem que pensa, que usa o intelecto, que reflecte sobre o mundo e que acredita que a pena pode mais do que a espada. E para isso, meus amigos, é preciso ler, ler, ler, ler, ler, ler… Ou melhor, isso decorre do imenso e indescritível privilégio de poder ler, ler, ler, ler, ler, ler…

Finalmente, gostaria de ver o exemplo que o Gaspar inaugurou, seguido por outros bibliotecários. Eu prometo contribuir dentro de alguns meses. Entretanto, vou guardar estas sugestões (e todas as que se seguirem) para a minha lista de “A ler”.»

Zélia Parreira

Texto original…  A propósito do texto do Gaspar Matos

 

Bibliotecas, Democracia, Conhecimento – parte 1 (09-02-2015)

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Fazer chegar o conhecimento às pessoas parece uma tarefa fácil, até às vezes uma futilidade. Mas para que isso aconteça são necessários muitos passos, muita boa vontade, muito dinheiro. É preciso encontrar pessoas que precisem do conhecimento e que o desejem receber. Uma biblioteca mexe com toda a sociedade! Por isso adoro trabalhar numa biblioteca pública! Desejo, luto e espero que o conhecimento não se volte a fechar em armários com chave, como acontecia há uns anos. Podem até ser armários com chave electrónicos… o tempo trouxe inovações nas tecnologias mas não na maioria das ideias.

Leiria, 2014: O alternativo é o novo mainstream?

«E vai daí, parece que a chamada ‘Grande Cultura’ (a dominante, a predominante, a reinante… essa toda!) já não é aquela coisa inquestionável, indiscutível, incontestável. O espectro alargou-se de tal forma que o alternativo é o novo mainstream. Será?

A boa notícia é que quando se vai aos saldos, já não é preciso gramar com o unts unts unts unts… onde somos todos obrigados a ser jovens e modernos, e a saltar ao som de frases soltas sobre amor. Népias… para além das T-shirts dos Ramones da Pull, o ambiente sonoro mudou.

Não há fome que não dê em fartura – e não, não falo dos lucros fabulosos que a lojas independentes de discos fazem, precisamente porque não são nada fabulosos. Basicamente disseminou-se a estética, mas os discos ficam na prateleira. Todos conhecemos lojas que, a certa altura, começaram a vender roupa, não é?

A identidade anda de mão dada com a diversidade, e apesar de a Beyoncé continuar a incendiar plateias, o mainstream continua a ser o mainstream. O seu público é que consome um look mais apunkalhado.

Por outro lado, há todo um movimento contemporâneo, válido e marcante, que tem deixado a sua impressão digital nas cidades, e apesar de ser olhado com alguma condescendência – ou como se de uma actividade menor, ou menos nobre, se tratasse -, o facto é que ele existe, existiu e existirá, e incontornavelmente a história das cidades também passa por aqui.

Em Leiria, como em outros sítios, já é tempo de não se olhar para certas manifestações artísticas como um sub-género marginal, alternativo ou – como alguém romanticamente lhe chamou – Contracultura.

Terá certamente toda a pertinência de catalogação em áreas como a Sociologia ou Antropologia, mas era interessante notar que marginal é quem se coloca à margem ou quem funciona em circuito fechado onde o direito de admissão é reservado.

A cultura que a Preguiça Magazine promove, por exemplo, saiu à rua há muito tempo, e entranhou-se na cidade. Merece, por isso, todo o respeito e consideração, e não é de todo válido que se veja numa óptica de ser do contra, antes pelo contrário. É do mais democrático que há.

Assim, não se perde muito tempo em distinções sobre a Alta ou Baixa Cultura, o que é popular e o que é erudito, o que é contracultura e o que é normativo. Parte-se com a perfeita noção do meio em que se insere, dos conhecimentos que se tem, das suas capacidade de mobilização, sem, no entanto, perder a percepção de que há espaço para todos, e diversas variáveis sócio-económicas.

Ainda hoje, alguma cultura menos imediata é olhada com desconfiança. A herança cinzenta e salazarenta ainda faz com que se sinta a necessidade de haver alguém acima de nós, e que, mesmo que involuntariamente, se eleja uma elite, sem que ela necessariamente o seja.

Este provincianismo latente e adoração a uma suposta elite atávica, faz com que se olhe para algo menos normativo ou fora desse circuito premium, como fracturante e outsider.

Não é. Apenas é inventivo, e isso está muitos anos-luz de ser banal ou menor. É válido, é pertinente, tem uma função social benéfica e contribui para o desenvolvimento. Capisce?»

Pedro Miguel (03/04/2014) (1)

Comentarium: O alternativo é o novo mainstream… dependendo quem são os nossos amigos.

(1) Texto publicado no Preguiça Magazine.