Conhecer Óbidos em tempos de austeridade (Novembro 2017)

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Pode parecer estranho dizer isto, mas os nossos ordenados não aumentaram, o descongelamento de carreiras é uma miragem. Por isso os orçamentos são cada vez mais limitados para quem quer ser turista no seu próprio país.
Eu, por outro lado, há muito que sonhava conhecer melhor Óbidos. Uma coisa é passar num local, outra é estar lá uns dias, ver as dinâmicas do local e as pessoas que fazem parte dele.

O dilema antes de partir era:
Será possível fazer férias baratas em Óbidos?

Agora já sei responder a essa questão e a outras!
A experiência é amiga das respostas….
Concluindo, depois de uns dias em Óbidos:
Óbidos é um local lindo!! Em qualquer parte da vila se vêem paisagens deslumbrantes!!
Óbidos é um local turístico por excelência!
3º Por isso a maioria dos restaurantes, bares e hotéis tem preços para turistas com dinheiro. O ÚNICO sítio realmente barato é o ÚNICO supermercado existente na vila.
Todos os sítios culturais municipais que visitei são gratuitos! Foi óptimo!
Estão a decorrer os preparativos para Óbidos Vila Natal 2017. E isso muda tudo.
Óbidos Vila Natal abre 30 de Novembro e termina dia 31 de Dezembro. Nessa altura vai ser cobrada um preço para entrar em certas zonas do Centro de Óbidos.
Os preparativos já estão a decorrer a todo o vapor, e suponho que vá ficar tudo esplêndido! Mas por causa disso não me deixaram visitar o Castelo, o que me decepcionou!
Óbidos Vila Literária…
«O Projecto da Vila Literária de Óbidos é uma iniciativa da Ler Devagar que teve a assessoria na programação das Produções Fictícias e o apoio da Câmara Municipal de Óbidos e da empresa municipal de gestão de bens culturais Óbidos Criativa.» (ver sítio oficial)
Este projecto levou à criação de quatro livrarias em Óbidos. Será que está a valer a pena?
A Biblioteca Municipal…
Numa cidade tão dedicada à difusão da cultura, foi triste ver uma biblioteca escondida num edifício da Câmara Municipal, onde as pessoas quase não vão. Falta dinamismo e actualização! E um espaço maior e arejado…

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Óbidos terra abandonada…
Casas lindas tão velhas na vila… Mas fechadas, para venda. Uma dúzia com ar de que vai cair dentro de alguns meses ou alguns anos…. Quem as reconstrói? Faltam pessoas na vila para as reconstruir e viverem nelas. Afinal, a austeridade também passou por Óbidos… Parece haver preocupação com isso…

Óbidos terra de gente simpática… Adorei falar com as pessoas!!

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Sobre a arte, por Oscar Wilde

«O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte e ocultar o artista é o objetivo da arte.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outra maneira ou com material diferente a sua impressão das coisas belas.
A mais alta, assim como a mais baixa, forma de crítica é uma autobiografia.
Aqueles que encontram feias significações nas coisas belas são corruptos sem serem encantadores. É um defeito.
Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança.
São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais.
A antipatia do século XIX pelo Realismo é a raiva de Calibã ao ver seu rosto no espelho.
A antipatia do século XIX pelo Romantismo é a raiva de Calibã por não ver seu rosto no espelho.
A vida moral do homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito dum meio imperfeito. O artista nada deseja provar. Até as coisas verdadeiras podem ser provadas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo.
O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
O pensamento e a linguagem são para o artista instrumento de arte.
O vício e a virtude são para o artista materiais de arte.
Sob o ponto de vista da forma, o modelo de todas as artes é a arte do músico.
Sob o ponto de vista do sentimento, o modelo é a profissão do actor.
Toda a arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Os que buscam sob a superfície fazem-no por seu próprio risco.
Os que procuram decifrar o símbolo correm também seu próprio risco.
É o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte mostra que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.
Pode-se perdoar a um homem o fazer uma coisa útil, contanto que não a admire. A única desculpa de haver feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente.
Toda a arte é absolutamente inútil.»

Oscar Wilde (prefácio de O Retrato de Dorian Gray)

Partilhar leituras: a visão de Zélia Parreira

 

 

tumblr_static_2riufms5t24gk4s88go8so44g«Confesso ter sérias reticências perante um bibliotecário que não gosta de ler, por várias razões que passo a enunciar:

  1. De todas as formas de incutir comportamentos no Outro, a melhor continua a ser o exemplo. Os pais sabem disso quando tentam educar os filhos, os professores sabem disso quando tentam ensinar o aluno, os bibliotecários sabem disso quando tentam formar Leitores. Não é possível convencer alguém a ter interesse em algo que não nos entusiasme, que não nos arrebate, que não consigamos saborear.
  2. É função do bibliotecário orientar Leitores. Aconselhá-los, dar-lhes o que procuram, mas também ajudá-los a elevarem-se, a progredirem enquanto leitores. Abrir portas, caminhos, veredas.
    Preocupa-me que as bibliotecas procurem reproduzir, sem grande espírito crítico, os tops de vendas das livrarias. Sim, devemos dar ao leitor o que lhe interessa, mas sim, temos o dever de o apresentar a novos escritores, novos temas, novas ideias. Ser, de alguma forma, mentores, inspiradores. E nenhum bibliotecário poderá jamais ambicionar ser “inspirador” se ele próprio não for um Leitor informado, diversificado, curioso, crítico.
  3. A nossa matéria-prima é o Livro. Independentemente do seu suporte físico, da forma, do género, da cor… Na verdade, a nossa existência deve-se ao Livro. Ao Livro, sim,  enquanto essência: partilha e transmissão de ideias, ideais, vivências, conhecimento.
    Até que ponto, a “pele” de gestores que vestimos hoje em dia, não nos dá do livro a perspectiva de um objecto que é apenas movimentado daqui para ali, um dígito na coluna das existências contabilísticas, deixando para trás o seu verdadeiro e incomensurável valor? (Declaração de interesses: fala uma bibliotecária viciada nas tarefas técnicas, quase contabilísticas do tratamento documental).
    Quero acreditar que, nesta procura desenfreada em que todos andamos pelo que deve ser um bibliotecário no século XXI, não nos vamos esquecer da nossa primeira razão de existir: ser mediador de leitura, de informação, de conhecimento. Ser a ponte, o elo de um casamento feliz entre o leitor e os seus livros.
  4. Talvez seja presunção minha (e do Gaspar, certamente), mas acredito que a profissão de Bibliotecário tem um perfil intelectual. Não falo do Senhor Intelectual de nariz empertigado que emprega uma linguagem de termos técnicos, mas do Homem que pensa, que usa o intelecto, que reflecte sobre o mundo e que acredita que a pena pode mais do que a espada. E para isso, meus amigos, é preciso ler, ler, ler, ler, ler, ler… Ou melhor, isso decorre do imenso e indescritível privilégio de poder ler, ler, ler, ler, ler, ler…

Finalmente, gostaria de ver o exemplo que o Gaspar inaugurou, seguido por outros bibliotecários. Eu prometo contribuir dentro de alguns meses. Entretanto, vou guardar estas sugestões (e todas as que se seguirem) para a minha lista de “A ler”.»

Zélia Parreira

Texto original…  A propósito do texto do Gaspar Matos