Promoção da leitura e leitura literária em 2017

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«Outro aspecto que importa considerar neste balanço prende-se com o Plano Nacional de Leitura (PNL) relançado em 2017 e envolvendo a substituição do anterior comissário.

Até ao momento, no entanto, pouco se conhece sobre esse processo de relançamento. Em conferência realizada em Novembro na Gulbenkian, tomaram a palavra ou estiveram presentes pelos menos dois ministros, não sei quantos secretários de estado e ex-ministros, além dos costumeiros moderadores vindos da esfera televisiva (ninguém começa a cansar-se disto?) e de uns especialistas em leitura. Por muito que nos custe a constatação, pouco passou de uma operação mediática de sala cheia mas de escasso impacto. Certo é que, até ao momento, nada se sabe sobre o financiamento do PNL em 2018 e sobre as linhas de trabalho e iniciativas concretas a desenvolver para acudir a problemas detectados, como, entre outros, a diminuição dos utilizadores das bibliotecas públicas, a actualização dos fundos das bibliotecas escolares, a crescente necessidade de formação dos professores e educadores no campo da Educação Literária. (Como se vê, não aludo aqui, propositadamente, nem à questão das novas tecnologias nem à da leitura em outros suportes.)

Uma coisa já se percebeu: numa época em que o «literário» se encontra em perda, na sociedade e nas próprias instituições educativas e culturais (não obstante a febre autárquica de festivais literários que nenhum problema de fundo ataca); num tempo em que os jovens evidenciam crescente dificuldade em compreender e interpretar um texto literário ou outros discursos da ordem da complexidade (filosóficos, científicos…), a leitura literária não parece constituir uma prioridade. Neste século XXI, para muitas cabeças pensantes, todas as leituras parecem valer o mesmo (os textos na Internet e noutros suportes electrónicos; as mensagens pessoais; a publicidade; os textos de natureza mais pragmática, não-literários; as obras de literatura…). Ora isto não é verdade, como a investigação comprova.

Detecta-se, por outro lado, em governantes e ex-governantes da área da educação, uma ansiedade não escondida relativamente à necessária – na opinião deles – eliminação das Metas Curriculares do Português e, consequentemente, daquilo que nelas se chama (e a meu ver bem) Educação Literária. Recordo que a este domínio surge associada uma listagem de obras recomendadas (sim, estão lá autores como Sidónio Muralha, Redol, Ilse Losa, Papiniano Carlos, Eugénio de Andrade, Saramago, Pina e vários textos clássicos… – para apenas mencionarmos listas para o ensino básico). A crítica mencionada é feita em nome de uma pretensa falta de liberdade na escolha de obras a ler pelos alunos – como se as Metas não remetessem constantemente para a gigantesca listagem de obras do PNL (e deixo duas perguntas: as Metas têm sido lidas com atenção?; a quem incomoda a existência de uma listagem de obras para a Educação Literária?).

Entretanto, o fim do ano traria uma estranha notícia: o inquérito à fuga de informação no exame nacional de Português de 12.º ano determinou a abertura de um processo disciplinar a uma professora «para apuramento de responsabilidade nesta esfera», afirma o Ministério da Educação – docente que teria sido, antes, presidente da Associação de Professores de Português. Esta é uma das duas associações ligadas a esta disciplina e tem-se manifestado contra as Metas Curriculares de Português e o domínio da Educação Literária, parecendo privilegiar uma abordagem comunicativista e pragmática do ensino da língua que habitualmente tende à desvalorização dos clássicos e do próprio discurso literário.

Mantenho sobre este tema a seguinte posição geral: a escolaridade obrigatória deve permitir a todos (incluindo os filhos da classe operária e dos trabalhadores) o acesso democrático àquilo que é da ordem da complexidade discursiva: literatura, filosofia, obras científicas, historiografia política e económica… Como tal, impõe-se que o ensino obrigatório e as suas práticas de leitura não prescindam dos clássicos e das obras literárias de reconhecida qualidade estética. Impõe-se que seja dada a todos a oportunidade de aprender a ler e desmontar criticamente estes textos mais complexos – caso contrário, favorecer-se-á uma posição elitista, paradoxalmente em nome de uma abordagem alegadamente mais facilitadora e democratizante.»

José António Gomes (1)

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(1) Fonte: Abril Abril.

José António Gomes é escritor, especialista em literatura portuguesa e professor universitário. É mais conhecido pelo pseudónimo João Pedro Mésseder.

Última Actualização: 02/01/2018

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Byung-Chul Han faz uma observação interessante sobre a sociedade digital

«Hoje a percepção não é capaz do silogismo, porque faz incessantemente zapping através de uma rede digital infinita. O que totalmente a dispersa. Só uma demora contemplativa é capaz do silogismo. O fechar os olhos é um símbolo do silogismo. A transformação acelerada de imagens e de informação torna impossível que se fechem os olhos, torna impossível o silogismo. Se todo o racional é um silogismo, então a era do Big Data é uma época sem razão

Byung-Chul Han

O paradoxo da tolerância

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«Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes.»
Karl Popper

Byung-Chul Han explica a alienação de hoje

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«O poder de estabilização do sistema não é repressivo mas sedutor

O poder de estabilização da sociedade industrial e disciplinar era repressivo. Os operários eram brutalmente explorados pelos proprietários, o que originava actos de protesto e de resistência. Nesse momento, foi possível que uma revolução derrubasse as relações de produção existentes. Nesse sistema de repressão tanto os opressores como os oprimidos eram visíveis. Havia um adversário concreto – um inimigo visível – ao qual se oferecia resistência.

O sistema de dominação neoliberal tem uma estrutura completamente distinta. Hoje, o poder que estabiliza o sistema já não funciona através da repressão, mas através da sedução – isto é, cativando. Já não é visível, como no caso do regime disciplinar. Hoje, não há um adversário concreto, um inimigo, que nos retire a liberdade e ao qual se possa resistir.

O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido num empresário livre, um empreendedor de si mesmo. Hoje, cada um de nós é um trabalhador que se explora a si próprio na sua própria empresa. Cada um de nós é mestre e escravo na sua mesma pessoa. E também a luta de classes se transforma em luta interna de cada um consigo próprio. Hoje, aqueles que não conseguem atingir o sucesso culpam-se a si próprios e sentem-se envergonhados. As pessoas vêem-se a si próprias como o problema e não a sociedade.

O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão

Um poder disciplinar que procura colocar o ser humano debaixo de um colete-de-forças de ordens e proibições é totalmente ineficiente. Pelo contrário, é significativamente mais eficiente assegurar que as pessoas se submetam de espontânea vontade à dominação. A eficácia que define o actual sistema advém do facto de operar não tanto através da proibição e da privação, mas procurando agradar e satisfazer. Em vez de gerar homens obedientes, esforça-se por torná-los dependentes. Esta lógica da eficiência neoliberal aplica-se igualmente à vigilância. Nos anos 80, para citar um exemplo, houve protestos veementes contra o censo demográfico alemão. Até os estudantes saíram à rua.

Do ponto de vista actual, a informação solicitada no censo – profissão, níveis de educação, distância de casa ao trabalho – parece quase ridícula. Mas naquela altura o Estado era visto como uma instância de dominação que retirava informação aos cidadãos contra a sua vontade. Essa época há muito que ficou para trás. Hoje expomo-nos de livre vontade. É precisamente este sentido de liberdade que torna qualquer protesto impossível. Ao contrário daquilo que acontecia nos dias do censo, hoje dificilmente alguém protesta contra a vigilância. O livre desnudamento e a auto-exposição seguem a mesma lógica da eficiência como livre auto-exploração. Protesta-se contra quê? Contra si próprio? A artista conceptual Jenny Holzer formulou o paradoxo da actual situação: “Protect me from what I want” [“Protege-me daquilo que quero”].

É importante distinguir entre um poder que impõe e um poder que estabiliza. Hoje, o poder que estabiliza o sistema assume um disfarce amigável e smart, tornando-se invisível e inatacável. O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão. O sujeito pensa-se livre. Esta técnica de dominação neutraliza a resistência de modo eficaz. A dominação que reprime e ataca a liberdade não é estável. Por isso o regime neoliberal é tão estável, ele imuniza-se contra toda a resistência porque faz uso da liberdade em vez de a reprimir. Suprimir a liberdade provoca imediatamente resistências, explorar a liberdade não.

Depois da crise financeira asiática, a Coreia do Sul estava paralisada e em choque. O FMI interveio e disponibilizou crédito. Em troca, o governo teve que impor uma agenda neoliberal. Isto foi iminentemente repressivo, poder impositivo – o tipo de poder que frequentemente é acompanhado de violência e que se distingue do poder de estabilização do sistema que procura sempre passar como liberdade.

De acordo com Naomi Klein, o estado de choque social que se segue a catástrofes como a crise financeira na Coreia do Sul – ou a actual crise na Grécia – oferece a oportunidade de reprogramar radicalmente a sociedade pela força. Hoje, quase não há qualquer resistência na Coreia do Sul. Bem pelo contrário: um consenso generalizado prevalece – assim como a depressão e o esgotamento. A Coreia do Sul tem hoje a mais alta taxa de suicídio do mundo. As pessoas agem violentamente sobre si próprias em vez de procurarem mudar a sociedade. A agressão dirigida para fora, que implicaria a revolução, foi substituída pela auto-agressão dirigida contra si próprio.

(…) O neoliberalismo não pode ser explicado em termos marxistas. No neoliberalismo não tem sequer lugar a “alienação” do trabalho. Hoje, mergulhamos euforicamente no trabalho – até ao esgotamento. O primeiro nível da síndrome de Burnout [esgotamento] é a euforia. Esgotamento e revolução excluem-se mutuamente. Assim, é um erro pensar que a Multitude poderá derrubar o “Império parasitário” e construir uma ordem social comunista.

A economia de partilha leva à total mercantilização da vida

Qual é o estado actual do comunismo? Há hoje uma invocação constante da noção de “partilha” [sharing] e de “comunidade”. A economia de partilha parece substituir a economia da propriedade e da posse. Sharing is Caring [partilhar é cuidar] é a máxima da empresa “Circler”, no mais recente romance de Dave Egger: partilhar é curar, por assim dizer. Os passeios que levam até à sede da empresa estão cheios de máximas como “Comunidade Primeiro” e “Humanos trabalham aqui”. Mas o verdadeiro mote deveria ser: “cuidar é matar”

Centros de boleias digitais, que nos transformam a todos em taxistas, são igualmente divulgados com apelos à comunidade. Mas é um erro afirmar – como faz Jeremy Rifkin no seu mais recente livro, The Zero Marginal Cost Society – que a economia de partilha anuncia o fim do capitalismo inaugurando uma ordem social orientada para o comum, onde partilhar tem mais valor que possuir. O que acontece é precisamente o oposto: a economia de partilha leva, em último caso, à total mercantilização da vida. (…)»

Byung-Chul Han

Nota: Texto publicado originalmente no Süddeutsche Zeitung, a 3 de Setembro de 2014. Traduzide e publicado na revista online Punkto.