Leituras: Gorbachev, Determinismos e o Pós-comunismo – última parte

Último texto dedicado à Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais, de Jacques Lesourne e Bernard Lecomte (Venda Nova, Bertrand, imp. 1991).

Jacques Lesourne e Bernard Lecomte analisam seguidamente a Alemanha depois de 1945 para falarem da reunificação alemã. Seguindo mais uma vez Emmanuel Todd, os autores caracterizam a família alemã. «Se a sociedade russa foi modelada pela família comunitária exógama, a sociedade alemã é, como muitas outras no Mundo, um produto da família “primitiva”, essa família que transmite integralmente o património a um dos seus filhos, lança os outros nas trevas exteriores e faz ainda coabitar com os seus oais o herdeiro já casado».
Segundo esta análise, coexistem nestas famílias a autoridade (e a disciplina) e a anarquia. Cria simultaneamente pessoas sofucadas pela tradição e homens livres ousados. Promove simultaneamente a desigualdade e «o aparecimento de sociedades rurais igualitárias na prática». Embora favoreça uma linhagem masculina, as mulheres têm um grande papel.
«Este conjunto de traços faz da família tradicional um elemento cultural particularmente dinâmico, combinando a integração vertical da sociedade com a afirmação individualista…
O problema principal posto por estes sistemas sociais – se se põe de lado a sua reticência em comungar com os outros no culto do homem universal – é o seu carácter psicologicamente patológico. Exaltando disciplina e individualismo, rejeitando todos os filhos excepto um deles, incapaz de definir claramente o estatuto da mulher, a família tradicional é uma máquina de fabricar neuroses…» (citação retirada pelos autores de La Troisième Planète de Emmanuel Todd). Emmanuel Todd, considera, aliás, que as forças ideológicas alemãs do século XIX sempre foram anti-individualistas, não liberais ou não igualitárias.
O nazismo foi possível pelas frustrações de 1918 e pela crise económica mundial. Em 1945 os alemães foram confrontados com: o horror da guerra e dos crimes do nazismo e o terror provocado pelo exercito soviético e pela sua sede de vingança. Pouco depois, parte do estado alemão foi praticamente anexado pelos soviéticos, a República Democrática Alemã (RDA).
Depois da divisão da Alemanha, na opinião dos autores, o alemão da República Federal Alemã (RFA) tornou-se «fervoroso adepto do american way of life, fiel aliado dos Estados Unidos, membro convicto da Comunidade Europeia». Esses alemães conseguiram voltar a dar dignidade ao seu país e recuperar a economia, muito graças ao Plano Marshall. Assim, nasceu o modelo da economia social de mercado (a Sozialmarktwirtschaft). Para os autores situa-se na tradição da República de Weimar (1919-1933). A RFA também terá manifestações em 1968, de jovens desiludidos com o capitalismo e com o american way of life. Deste movimento surgirá a vontade da unificação, um nacionalismo que recusa a violência. François-Georges Dreyfus chamou-lhe “nacional-neutralismo”.
Willy Brandt e os dirigentes da RFA que se lhe seguiram promoveram uma política de aproximação à RDA (Ostpolitik), que foi apoiada pelos verdes e pela igreja luterana. A partir de então os políticos da RFA começaram a tratar os Estados Unidos e a URSS quase da mesma maneira. E durante este tempo foram cada vez mais os alemães da RDA que, descontentes com a vida que levavam, emigraram para a RFA. (Entretanto, o entendimento entre a RFA e a França crescia, tanto através da Comunidade Europeia como de uma politica de aproximação que começou com o Tratado do Eliseu, em 1963. Este começava a ser um contraponto à influência das duas potências em conflito).
Depois da queda do muro de Berlim, Mikhail Gorbatchev foi apanhado de surpresa pelo processo de reunificação em curso. Gorbatchev acabou por aceitar a reunificação, exigindo como contrapartida a não existência de armas nucleares na Alemanha. O governo de Helmut Kohl elaborou em 1989 um plano para que esta fosse possível, causando o mínimo de constrangimento entre a RFA e a RDA. (Os autores notam que a Alemanha reunificada dificilmente voltará ao nazismo, no que até agora estiveram certos).
Nota-se depois uma extrema desconfiança dos autores perante a política externa seguida por Mikhail Gorbatchev (não sem razões, como vimos nas partes anteriores) e perante a nova Rússia, nascida dos estilhaços do comunismo. Falam das negociações de armamento entre os Estados Unidos e a URSS, que se foram arrastando de 1986 a 1990, sempre com novas propostas de ambos os lados.
Seguidamente Jacques Lesourne e Bernard Lecomte fazem as suas previsões para o futuro, sendo que para alguns países esboçaram vários cenários. Não me vou debruçar sobre isso, pois muitos estão fora de prazo. Devo acrescentar que em muitos casos as suas previsões confirmam-se em 2008, o que nem sempre é positivo. Também se dedicaram a fazer futurologia acerca do “proletariado exterior” (conceito de Arnold Toynbee) da Europa, falando sobretudo dos muçulmanos, que poderá conduzir à assimilação, ao choque ou à diversidade. Para a Comunidade Europeia, as previsões não têm surpresas: alargamento e globalização neo-liberal são as receitas.
Nota Final: Achei o livro muito interessante. Os autores baseiam-se muito, nas suas análises, na economia e nos trabalhos de Emmanuel Todd. São bons pontos de análise, mas insuficientes para explicar tudo.

Fonte da Imagem: Portal São Francisco – Alemanha
Leitura Complementar, sobre a Alemanha em 2005: Mídia européia destaca nova cisão da Alemanha reunificada.

Fim da Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais
Parte 1
Parte 2
Parte 3

Última Actualização: 02/10/2008

Anúncios

Leituras: Gorbachev, Determinismos e o Pós-comunismo – parte 3

Continuação da Leitura de O Pós-comunismo: do Atlântico aos Urais, de Jacques Lesourne e Bernard Lecomte (Venda Nova, Bertrand, imp. 1991).

Jacques Lesoune e Bernard Lecomte, debruçam-se seguidamente sobre a situação dos países da Europa de Leste e, em especial da Alemanha. Este foi um processo mais fácil, pois mesmo durante o comunismo havia muita gente que simpatizava com as democracias europeias e via o comunismo como um regime importado e opressor. No entanto, também aqui Mikhail Gorbatchev e os reformistas de Moscovo tiveram, de 1985 a 1990, uma acção dúbia. E em cada país tomou um caminho diferente.
– A Polónia foi, de todos, o país menos permeável ao comunismo. Mais uma vez, para analisar o país, os autores recorrem a Emmanuel Todd:
«O sistema de parentesco polaco revela da família nuclear igualitária, como no norte da França e em certas regiões da Itália, Espanha ou Portugal: igualdade dos irmãos, ausência de coabitação dos filhos casados e de seus pais, recusa entre o casamento entre os filhos de dois irmãos, ou seja, entre primos. Este sistema opõe-se tanto na família rude alemã como na família comunitária russa, dando origem a uma cultura igualitária e individualista que muitas vezes comprometeu o destino do Estado polaco, mas que não deixou de corroer o comunismo panificador imposto por Moscovo».
Os autores evocam também a vontade de independência polaca: entre 1795 e 1918 a Polónia foi desmembrada e os seus territórios fizeram parte, do império austríaco (no século XIX designado Império Austro-húngaro), do reino da Prússia e do e do império russo. A independência foi declarada no fim da 1ª Guerra Mundial e a 2ª Guerra Mundial aumentou a coesão nacional. Foi o país que desde o início mostrou mais hostilidade aos russos, sobretudo depois do massacre de Katyn em 1940. Por isso, depois da morte de Estaline os polacos tentaram de todas as formas livrar-se da dominação soviética. No entanto, depois do fracasso da Primavera de Praga os polacos tiveram durante alguns anos sem mostrar hostilidade directamente. Mas a elevação de Karol Wojtyła a Papa João Paulo II e a politica seguida por Mikhail Gorbatchev foram as oportunidades que os polacos esperavam. Este último conduziu negociações que visavam manter o poder russo por mais algum tempo, através de eleições, onde 65% dos lugares pertenceriam ao POUP e os 35% restantes às forças da oposição. Mas o POUP acabou por perder essas eleições, bem como o referendo feito anteriormente. Como consequência o POUP praticamente desaparece do espectro político e “converte-se” à social-democracia.
– A Hungria seguiu um caminho diferente. Em Outubro de 1956 a revolução contra o poder de Moscovo ter foi esmagada pelos soviéticos. János Kádár, líder comunista que por várias vezes chefiou o Conselho de Ministros polaco, conseguiu de Moscovo alguma autonomia em troca do alinhamento da Hungria na política externa soviética. Essa autonomia permitiu os húngaros ter pequenos espaços de liberdade que eles aproveitaram o máximo que poderam. Quando Mikhail Gorbatchev sobe ao poder os húngaros não se sentiram por isso mais livres, até porque tiveram medo que este pusesse em causa a autonomia conquistada. Em Maio de 1988 János Kádár é substituído por Karoly Grosz. Mas nessa altura já havia políticos, como Imre Pozsgay, que consideravam o comunismo irreformável e que desejavam a democracia. Em Fevereiro de 1989 o Magyar Szocialista Munkáspárto (Partido Socialista dos Operários Húngaros, o partido do poder) pronuncia-se a favor do multipartidarismo e em Outubro do mesmo ano transforma-se em partido socialista. E em Março de 1990 o Magyar Demokrata Fórum (Fórum Democrático da Hungria), de centro-direita, chefiados por József Antall, venceu as primeiras eleições livres do pós-comunismo.
De notar que, durante este processo, os húngaros acolheram dentro do seu país emigrantes que fugiam da RDA e deram-lhes abrigo. A Hungria serviu assim de porta de entrada nos países democráticos da Europa e nos Estados Unidos, para muitas pessoas sem esperança.
– Em relação à Republica Democrática Alemã (ou RDA) esta foi uma criação artificial de Estaline para quebrar a força alemã. Foi erguida uma Cortina de Ferro e o muro de Berlim. Estes obstáculos foram deitados abaixo em 1989, pela vontade dos povos húngaro e da RDA. Em Outubro desse ano realizam-se desfiles em Leipzig (território da RDA) para exigir a democracia. Mikhail Gorbatchev, em 6 e 7 de Outubro desse ano, durante uma visita (por ocasião do 40º aniversario da RDA), encoraja os reformadores comunistas e pede paciência aos jovens. Em 18 desse mês Erich Honecker é substituído por Egon Krenz. No entanto as manifestações pela democracia continuam, levando Egon Krenz a abrir o muro e a fronteira com a República Federal Alemã (RFA). Em Novembro de 1989 Hans Mosrow substitui Egon Krenz, mas antes o muro de Berlim já tinha caído e o reformismo comunista de Mikhail Gorbatchev tinha deixado de fazer sentido. A Alemanha começou o caminho para a reunificação.
– Em relação à Bulgária, a situação foi mais complexa. Os autores consideram que a Bulgária tem afinidades demográficas com a Rússia (mais uma vez baseados nos dados de Emmanuel Todd): «Com as suas afinidades eslavas, a sua religião ortodoxa e a sua família comunitária exógama, a Bulgária aceitou sem grande resistência um comunismo directamente importado de Moscovo. E por isso também não deve espantar que, como a URSS, o impulso tenha sido dado de cima».
Em Novembro de 1989, já depois da queda do Muro de Berlim, Todor Jivkov da direcção do conselho de Estado (que governava o país) é demitido pelos seus pares. O pretexto usado foi a sua politica de repressão aos muçulmanos búlgaros, que tinham começado a sair do país. Foi substituído por Petar Mladenov, que tinha sido ministro dos Negócios Estrangeiros até àquela data. Apenas no dia 18 de Novembro de 1989 o búlgaros vieram para a rua exigir democracia. Realizaram-se as primeiras eleições livres para a presidência da República em Julho de 1990 que resultaram na vitória do mesmo Petar Mladenov. No entanto, ele teve de resignar do cargo quando foi acusado de ter sugerido o uso de tanques contra as manifestações anti-governo realizadas no ano anterior. Foi substituído por Jeliou Jelev, que foi eleito por uma Assembleia Constituinte. Em 1992 este foi confirmado no cargo. Em Agosto de 1990 uma multidão provocou um incêndio na sede do Partido do Povo da Bulgária (como era conhecido o partido comunista), como forma de represália por causa dos anos de opressão.
– A Checoslováquia era um país que existiu entre 1918 e 1993. Entre 1948 e 1989 foi dominada pelos comunistas. Hoje são dois países diferentes, a República Checa e a Eslováquia. Mais uma vez, na sua análise, os autores seguem Emmanuel Todd:
«À família “rude” da Boémia, terra de eleição da sócio-democracia de entre as duas guerras, opõe-se a família comunitária exógama, mais autoritária e autoritária, da muito católica Eslováquia. A Boémia manifesta, de resto, desde o desastre da Montanha Branca que provocou o esmagamento dos Habsburgos da nobreza checa (1620), uma certa repugnância pela luta armada, não sem manter uma longa tradição de resistência passiva à dominação cultural que alimentará, em 1968, a “Primavera” histórica».
A Primavera de Praga, em 1968, foi liderada por intelectuais reformistas do Partido Comunista Checo. Esse movimento teve final infeliz, pois em Agosto de 1968 a Checoslováquia foi invadida pela URSS. O fracasso deste movimento levará a que só em 1989 os checoslovacos soltem a sua voz contra o comunismo. Em 17 de Novembro ocorre a primeira manifestação, organizada (segundo Jacques Lesourne e Bernard Lecomte) pela polícia politica. A partir daí, sob impulso de Vaclav Havel, que liderava o Fórum Cívico, ocorreu a “revolução de Veludo”, que mudou a maior parte dos dirigentes do país. Vaclav Havel foi eleito presidente da República da Checoslováquia nas primeiras eleições livres. Depois conduziu o processo de separação das duas repúblicas, apesar de ser favorável à manutenção da federação.
– Na Roménia as coisas ocorreram de forma muito violenta. Os autores comentam que a revolução romena foi praticamente seguida, momento a momento, pelas televisões do Ocidente.
«Mas retomemos os factos tal como hoje eles podem reconstruir-se, num país em que o comunismo se fez caricatura de si mesmo e se distingue dos países vizinhos em dois planos: com a família nuclear igualitária, fortemente marcada por influências comunitárias, a Roménia, ao mesmo tempo tentada pela anarquia e o autoritarismo, não se situa nos limites da democracia nem do comunismo. Revela-se como um pequeno país e o seu nacional-comunismo, afastou-se profundamente do grande irmão soviético, que nunca manifestou uma excessiva simpatia por esta nação latina».
A Roménia tinha perdido parte do seu território para a URSS e para a Hungria antes da 2ª Guerra Mundial. Por isso, os romenos apoiaram Hitler contra os soviéticos no inicio da guerra. Em Agosto de 1944 um golpe de estado conduzido por Miguel de Hohenzollern-Sigmaringen (que foi o último rei do país) com o apoio de políticos de oposição e do exército, depôs a ditadura Antonescu e colocou os exércitos romenos sob o comando do Exército Vermelho. Aproveitando a situação romena, os soviéticos ocuparam o país e tornaram-no um país comunista. Passou a ser chamado de República Popular da Roménia. Entre 1965 e 1989 quem governou o país foi Nicolae Ceauşescu. Este foi genuinamente popular no início do seu governo e manteve relações com o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, bem como com países como Israel, China, República Federal Alemã e Albânia. No entanto o período de aparente liberdade teria vida curta. Desde 1971 havia uma conspiração para depô-lo. Ian Iliescu foi afastado nos anos 70 do século XX e fundou uma organização politico-militar composta por antigos dirigentes comunistas – a Frontul Salvarii Nationale (FSN, Frente de Salvação Nacional). Em 16 de Dezembro de 1989 uma manifestação em favor de László Tőkés, um pastor da Igreja Reformada da Roménia (calvinista) é fortemente reprimida, levando à morte de 100 pessoas. Essa repressão levará a uma revolta violenta, que levará à fuga de Nicolae Ceauşescu. Ian Iliescu conseguiu eleger-se e ao seu partido como novos representantes do país, matando depois, sem demora, os comunistas da Securitate que ainda apoiavam o poder anterior e o próprio Nicolae Ceauşescu (julgado e morto em poucos meses). O Partido Comunista foi declarado ilegal e as medidas mais impopulares de Nicolae Ceauşescu, como a proibição do aborto e da contracepção, foram revogadas.
Em 2005 começaram as investigações que podem levar ao julgamento de Ion Iliescu sob acusações de crimes contra a humanidade. Também se especula acerca das suas ligações ao KGB.
Os autores comentam que a mão de Mikhail Gorbatchev teve sempre na condução destes acontecimentos, nomeando reformadores do partido para tentar condicionar os acontecimentos. Mas em quase todos os casos essa intervenção não adiantou de muito, pois as pessoas estavam fartas do comunismo.
Depois desta avalanche, apenas a Albânia se manteve comunista. Os autores apenas falam da Jugoslávia de passagem, já que o seu comunismo à muito se tinha desligado da URSS.

Fonte da Imagem: Transitions Abroad.com

Fim da 3ª Parte