Leituras: Quando Daniel H. Pink me compeliu a escolher os meus passatempos…

A-Nova-InteligenciaDaniel H. Pink estudou na Northwestern University (uma universidade privada dos Estados Unidos) e conseguiu fazer-se eleger para a Phi Beta Kappa, a mais antiga sociedade de honra nas áreas de ciência e arte liberal dos Estados Unidos da América. Também recebeu uma Bolsa Harry S. Truman. Depois formou-se em jurisprudência na Yale Law School. Decidido a não praticar direito, dedicou-se à acessoria política durante a presidência de Bill Clinton. Fez parte do gabinete de Robert Reich quando ele foi Secretário para o Emprego e foi escritor de discursos de Al Gore, quando este era Vice-presidente. Mas em 1997 desistiu deste trabalho. Em 2001 publicou o seu primeiro livro, sobre a emergência do trabalho independente e em louvor dos empresários por conta própria, baseado em artigos publicados em jornais e revistas desde 1997. Em 2005 publicou o seu segundo livro, este. Hoje é empreendedor e aclamado como guru no mundo da gestão.
Em Portugal este livro foi editado a primeira vez em 2009. Em 2017 foi reeditado e tornou-se no livro da moda.
No primeiro capitulo o autor faz uma pequena reflexão sobre o hemisfério esquerdo (o lugar do raciocínio e da linguagem oral) e o hemisfério direito (hemisfério das emoções e da linguagem visual (imagem, desenho)).
No segundo capitulo o autor analisa de forma ultra-superficial três eras: primeiro a Era da Abundância (ou seja, do hemisfério esquerdo e do consumismo), segue-se a Era da Ásia (ou seja, do outsourcing), a Era da Automação (ou seja da ascensão da Inteligência Artificial).
No capitulo terceiro o autor convida-nos a pensar nos últimos 150 anos como um drama em três actos:
1º A Era Industrial (a partir de 1850)…
2º A Era da Informação (os “trabalhadores do conhecimento”)…
A actualidade – a Era Conceptual. Nesta era o hemisfério direito (ou seja, a criatividade) predomina. Nesta nova Era, a arte, a inteligência emocional e a procura de sentido predominam.
Para o autor o essencial é cada um desenvolver sete habilidades (o autor chamas-lhes “sentidos”):
Design – Descobrir o artista que há em nós.
Capacidade de contar histórias – Essa capacidade é importante para cada um de nós alcançar sucesso.
Sinfonia – Para saber criar ligações entre coisas e assuntos opostos.
• Empatia – Para perceber os outros e liderar melhor. Inclui a Inteligência Emocional.
Diversão – Terminou a compartimentação entre trabalho e diversão. Necessário jogar jogos, divertir-se a trabalhar e ter humor no quotidiano.
Sentido – Partindo das teorias de Viktor Frankl, que descobriu que em situações extremas como um campo de trabalhos forçados ter um sentido para viver e objectivos é meio caminho andado para a resiliência. Aqui entra também a ideia de que o lado espiritual do homem tem de ser levado a sério, assim como a sua procura da felicidade. Aqui o livro começa a parecer um compêndio das ideias da Psicologia Positiva e de conceitos de auto-ajuda da moda.
Para cada um destes temas o autor propõe recursos para a desenvolver. Essa é, aliás, a grande utilidade do livro.
Ao ler este livro sinto-me num campo de trabalhos forçados que explora os meus tempos livres. (Pode escrever-se que as ideias de Byung-Chul Han se opõe às ideias de Daniel H. Pink e que o último faz psicopolitica.)
No entanto tenho grande interesse em ouvir e contar histórias (storytelling) e a minha necessidade de organização levam-me a estabelecer objectivos (a procurar um sentido). Todos os dias pratico a empatia (fazer atendimento ao público é também isso). E a minha curiosidade leva-me escolher como passatempos para este ano, para além de escrever neste blogue e de ler, experimentar desenhar algo, ouvir sinfonias e trazer diversão para o quotidiano.
É claro que desenvolver estas habilidades não livrará ninguém do desemprego, mas isso o autor não diz. Todavia são boas ideias para actividades de lazer e nesse sentido o livro não é inútil.

Leitura de: Daniel H. Pink, A nova inteligência (Alfragide, Texto, 2013)

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Leituras: Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf reflectem sobre a escrita da poesia, a vida e tudo o mais

Cartas-a-Jovens-Poetas

Depois de responder ao desafio da Catarina Duarte ou CD do blogue Insensatez, fiquei com vontade de ler o livro citado por ela: Cartas a um jovem poeta de Rainer Maria Rilke. Tive a sorte de encontrar na biblioteca uma edição espectacular deste livro, que contém também um texto de Virginia Woolf com o mesmo título.

Um cheirinho das biografias

Rainer_Maria_Rilke,_1900Rainer Maria Rilke (1875-1936) nasceu em Praga, que fazia Império Austro-Húngaro e morreu na Suiça. Escreveu poemas em francês mas a sua língua foi sobretudo o alemão. Virginia Woolf (1882-1941) sempre viveu no Reino Unido e escreveu em inglês.

Rainer Maria Rilke era um plebeu que sonhava viver no mundo da aristocracia. Virginia Woolf nasceu em berço de ouro mas sonhava ser uma pessoa anónima.

Rainer Maria Rilke era um simples poeta existencialista. Virginia Woolf era uma escritora modernista que tinha uma empresa editorial, juntamente com o seu marido Leonard Woolf (1880-1969): a Hogarth Press (fundada em 1917 e que agora faz parte do grupo Random House).

Virginia_Woolf_1927Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf eram duas pessoas diferentes mas que viveram no mesmo período: fim do século XIX e início do século XX. O que é que essas duas pessoas teriam em comum?

 

O livro

Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf escreveram cartas a jovens poetas mas os conselhos são opostos: Rainer Maria Rilke aconselha ao seu correspondente que olhe mais para dentro de si, Virginia Woolf que olhe mais para além do seu umbigo antes de escrever.

Ambos no entanto acabam por dar o mesmo conselho: escrever muito antes de publicar e não ter pressa em publicar. Virginia Woolf aconselha mesmo que se experimente todos os caminhos na escrita antes de se encontrar o nosso e depois sim, publicar-se.

O que lemos de Rainer Maria Rilke neste livro são cartas íntimas, que ele nunca pensou ver publicadas. Quem as publicou, depois da sua morte, foi o destinatário. Não é de admirar por isso que se encontrem aqui conselhos de como viver a vida. Achei engraçado por isso que o tom usado por Rainer Maria Rilke ser muito semelhante aos livros de auto-ajuda (que começaram a ser publicados no século XIX).

A Carta a um jovem poeta de Virginia Woolf foi publicada numa revista, não enviada pelo correio. Mas tanto ela como Rainer Maria Rilke começam a falar sobre poesia e acabam a falar da vida e da morte.

Como se pode ver, estes dois escritores têm muito em comum. Vale a pena ler esta edição!

 

Ver também:

A sabedoria de Rainer Maria Rilke

A sabedoria de Virginia Woolf

Tenho de escrever? A minha resposta!

A sabedoria de Virginia Woolf

«O que precisa agora é ficar à janela e deixar que o seu sentido rítmico pulse, pulse, audaciosa e livremente, até que os táxis dancem com os narcisos, até que tudo se forme a partir desses fragmentos separados. (…) Depois, deixe que o seu sentido rítmico circule livremente entre homens e mulheres, autocarros, espargos (tudo o que andar na rua) até conseguir reuni-los num todo harmonioso. Essa é, talvez, a sua tarefa – encontrar a relação entre as coisas que parecem incompatíveis, mas que, no entanto, têm uma afinidade misteriosa.»
Virginia Woolf

Tenho de escrever? A minha resposta!

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(Aviso 1: Nas redes sociais – o que inclui a blogosfera – apenas respondo a desafios, tags e outras inutilidades que para mim façam sentido. Os restantes, ignoro. São os caprichos dos quarenta! Este desafio para mim tem sentido.
Aviso 2: Este texto está cheio de intertextualidade. Apertem os cintos e vamos começar!)
A Catarina Duarte ou CD do blogue Insensatez, inspirada em Rainer Maria Rilke (saber mais), lançou uma pergunta para a blogosfera responder:
Tenho de escrever?
Para mim essa pergunta subdivide-se em duas outras:
1ª Porque escrevo?
2ª Tenho Mesmo de escrever?
Para responder à primeira pergunta apetece-me começar por citar a Filipa Maia do blogue Deixa Ser. Escrevo porque:
«1 – Escrevo para ganhar clareza
2 – Escrevo porque sinto que tenho coisas para partilhar que não consigo guardar dentro de mim
3 – Escrevo porque há histórias dentro da minha cabeça que precisam de ver a luz do dia
4 – E porque as histórias também podem mudar vidas. É esse o poder da narrativa.»
A essa resposta acrescentaria agora reflexões pessoais (misturando a 1ª com a 2ª pergunta):
Escrevo desde criança para fazer listas, organizar ideias, reflectir sobre o mais íntimo de mim ou sobre a situação mais universal.
Desde criança e durante muitos anos tive um diário. Desde 2004 que ando na blogosfera, embora de forma irregular.
Tirei cursos de escrita criativa mas isso não fez de mim uma ficcionista. E este ano tornei-me aprendiz de poeta. Há quem brinque com as palavras melhor do que eu. Mas eu gosto de construir castelos – ou melhor, textos – com elas.
O tempo traz-nos experiências, faz-nos perceber o que queremos. Por isso sei que neste momento da minha vida tenho Mesmo de escrever, porque quero que a minha voz seja ouvida.
O tempo também nos faz perceber Como queremos que os outros nos oiçam.
Escrever é como fazer um discurso: podemos ser percebidos ou não, as pessoas podem detestar-nos ou adorar-nos.
Pode haver problemas com o emissor (quem escreve) ou com o receptor (quem lê).
Escrever é portanto comunicar (verdade básica universal) com alguém, nem que seja com nós mesmos!
Quero cada vez mais escrever textos como se apenas Eu os lesse: escrever conteúdos que façam sentido para mim. Ao mesmo tempo todas as opiniões e criticas (o chamado feedback) são sempre bem-vindas.
Porque para a minha voz se ouvir preciso de um vós: @s leitor@s!

Fátima Cordeiro Oliveira ou sabine