Leituras: Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf reflectem sobre a escrita da poesia, a vida e tudo o mais

Cartas-a-Jovens-Poetas

Depois de responder ao desafio da Catarina Duarte ou CD do blogue Insensatez, fiquei com vontade de ler o livro citado por ela: Cartas a um jovem poeta de Rainer Maria Rilke. Tive a sorte de encontrar na biblioteca uma edição espectacular deste livro, que contém também um texto de Virginia Woolf com o mesmo título.

Um cheirinho das biografias

Rainer_Maria_Rilke,_1900Rainer Maria Rilke (1875-1936) nasceu em Praga, que fazia Império Austro-Húngaro e morreu na Suiça. Escreveu poemas em francês mas a sua língua foi sobretudo o alemão. Virginia Woolf (1882-1941) sempre viveu no Reino Unido e escreveu em inglês.

Rainer Maria Rilke era um plebeu que sonhava viver no mundo da aristocracia. Virginia Woolf nasceu em berço de ouro mas sonhava ser uma pessoa anónima.

Rainer Maria Rilke era um simples poeta existencialista. Virginia Woolf era uma escritora modernista que tinha uma empresa editorial, juntamente com o seu marido Leonard Woolf (1880-1969): a Hogarth Press (fundada em 1917 e que agora faz parte do grupo Random House).

Virginia_Woolf_1927Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf eram duas pessoas diferentes mas que viveram no mesmo período: fim do século XIX e início do século XX. O que é que essas duas pessoas teriam em comum?

 

O livro

Rainer Maria Rilke e Virginia Woolf escreveram cartas a jovens poetas mas os conselhos são opostos: Rainer Maria Rilke aconselha ao seu correspondente que olhe mais para dentro de si, Virginia Woolf que olhe mais para além do seu umbigo antes de escrever.

Ambos no entanto acabam por dar o mesmo conselho: escrever muito antes de publicar e não ter pressa em publicar. Virginia Woolf aconselha mesmo que se experimente todos os caminhos na escrita antes de se encontrar o nosso e depois sim, publicar-se.

O que lemos de Rainer Maria Rilke neste livro são cartas íntimas, que ele nunca pensou ver publicadas. Quem as publicou, depois da sua morte, foi o destinatário. Não é de admirar por isso que se encontrem aqui conselhos de como viver a vida. Achei engraçado por isso que o tom usado por Rainer Maria Rilke ser muito semelhante aos livros de auto-ajuda (que começaram a ser publicados no século XIX).

A Carta a um jovem poeta de Virginia Woolf foi publicada numa revista, não enviada pelo correio. Mas tanto ela como Rainer Maria Rilke começam a falar sobre poesia e acabam a falar da vida e da morte.

Como se pode ver, estes dois escritores têm muito em comum. Vale a pena ler esta edição!

 

Ver também:

A sabedoria de Rainer Maria Rilke

A sabedoria de Virginia Woolf

Tenho de escrever? A minha resposta!

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Hoje lembrei-me de Mariana Mortágua

«Sinceramente não percebo porque é que é uma polémica. Não podemos dizer à boca-cheia que não somos sexistas, que queremos uma sociedade livre de sexismo e depois ser altamente permissivos com todas as formas de sexismo, nomeadamente a reprodução de papéis de género que estão na base do sexismo, ainda mais em materiais educativos para crianças de quatro a seis anos. Ou somos brutalmente exigentes com a democracia que queremos ter, sobretudo na educação, ou continuamos a permitir a reprodução destes estereótipos e não podemos querer depois que a sociedade mude. Para mim é tão óbvio isto. Para mim não tem nada a ver com a liberdade de expressão, não tem nada a ver com liberdade literária, artística, de produção, nada a ver. Estamos a falar de materiais educativos. Não é liberdade ter material educativo que seja sexista; não, não é. Tal como não é liberdade ter material educativo que seja racista. Porque nós assumimos enquanto sociedade, e inscrevemos isso na Constituição, e em várias leis e convenções internacionais, que a sociedade em que queremos viver não é racista nem sexista.»
Mariana Mortágua

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Fonte: Diário de Notícias, 01/09/2017.

Palavras soltas

Acreditar
«Quando as pessoas não acreditam em ti, tens de acreditar em ti proprio.»

Pierce Brosnan

Amizade
A amizade precisa e de tempo.
E capacidade de ouvir e gostar.

Caminho (1)
Por vezes precisamos de mudar de rota ou experimentar novas abordagens para encontrar o NOSSO caminho…

Caminho (2)

Só há uma forma de percorrer o Caminho da nossa vida: olhando e caminhando em frente, sempre!
(Anónimo)

Capa
É melhor não julgar um livro pela capa.

 

Cidadania

Intervir na “polis” não é só votar ou candidatar-se a um partido político. É sobretudo dar a nossa opinião e às vezes ver o que os outros não vêem.

 

Desafio

Cada dia é um desafio. Vence-o, porque quando deixar de haver desafios é mau sinal.

Dividir

Podemos dividir o mundo entre os fortes e os deprimidos?
A mim parece-me que não. Todos somos frágeis em algum momento.

Errar
Errar é o único caminho até acertarmos.

 

Inteligência

«Eu aprendi que para se crescer como pessoa é preciso me cercar de gente mais inteligente do que eu.»
William Shakespeare

Mudar

Mudar de vida custa. Tem de ser um passo de cada vez!

Rugas
As rugas são uma dádiva da vida.

Leiria, 2014: O alternativo é o novo mainstream?

«E vai daí, parece que a chamada ‘Grande Cultura’ (a dominante, a predominante, a reinante… essa toda!) já não é aquela coisa inquestionável, indiscutível, incontestável. O espectro alargou-se de tal forma que o alternativo é o novo mainstream. Será?

A boa notícia é que quando se vai aos saldos, já não é preciso gramar com o unts unts unts unts… onde somos todos obrigados a ser jovens e modernos, e a saltar ao som de frases soltas sobre amor. Népias… para além das T-shirts dos Ramones da Pull, o ambiente sonoro mudou.

Não há fome que não dê em fartura – e não, não falo dos lucros fabulosos que a lojas independentes de discos fazem, precisamente porque não são nada fabulosos. Basicamente disseminou-se a estética, mas os discos ficam na prateleira. Todos conhecemos lojas que, a certa altura, começaram a vender roupa, não é?

A identidade anda de mão dada com a diversidade, e apesar de a Beyoncé continuar a incendiar plateias, o mainstream continua a ser o mainstream. O seu público é que consome um look mais apunkalhado.

Por outro lado, há todo um movimento contemporâneo, válido e marcante, que tem deixado a sua impressão digital nas cidades, e apesar de ser olhado com alguma condescendência – ou como se de uma actividade menor, ou menos nobre, se tratasse -, o facto é que ele existe, existiu e existirá, e incontornavelmente a história das cidades também passa por aqui.

Em Leiria, como em outros sítios, já é tempo de não se olhar para certas manifestações artísticas como um sub-género marginal, alternativo ou – como alguém romanticamente lhe chamou – Contracultura.

Terá certamente toda a pertinência de catalogação em áreas como a Sociologia ou Antropologia, mas era interessante notar que marginal é quem se coloca à margem ou quem funciona em circuito fechado onde o direito de admissão é reservado.

A cultura que a Preguiça Magazine promove, por exemplo, saiu à rua há muito tempo, e entranhou-se na cidade. Merece, por isso, todo o respeito e consideração, e não é de todo válido que se veja numa óptica de ser do contra, antes pelo contrário. É do mais democrático que há.

Assim, não se perde muito tempo em distinções sobre a Alta ou Baixa Cultura, o que é popular e o que é erudito, o que é contracultura e o que é normativo. Parte-se com a perfeita noção do meio em que se insere, dos conhecimentos que se tem, das suas capacidade de mobilização, sem, no entanto, perder a percepção de que há espaço para todos, e diversas variáveis sócio-económicas.

Ainda hoje, alguma cultura menos imediata é olhada com desconfiança. A herança cinzenta e salazarenta ainda faz com que se sinta a necessidade de haver alguém acima de nós, e que, mesmo que involuntariamente, se eleja uma elite, sem que ela necessariamente o seja.

Este provincianismo latente e adoração a uma suposta elite atávica, faz com que se olhe para algo menos normativo ou fora desse circuito premium, como fracturante e outsider.

Não é. Apenas é inventivo, e isso está muitos anos-luz de ser banal ou menor. É válido, é pertinente, tem uma função social benéfica e contribui para o desenvolvimento. Capisce?»

Pedro Miguel (03/04/2014) (1)

Comentarium: O alternativo é o novo mainstream… dependendo quem são os nossos amigos.

(1) Texto publicado no Preguiça Magazine.