Hoje lembrei-me de Gilles Lipovetsky

«Anunciou-se precipitadamente o fim da sociedade de consumo quando é claro que o processo de personalização não para de lhe alargar as fronteiras. A recessão presente, a crise energética, a consciência ecológica não são o toque de finados da sociedade de consumo: estamos destinados a consumir, ainda que de outro modo, cada vez mais objectos e informações, desportos e viagens, formação e relações, música e cuidados médicos. É isso a sociedade pós-moderna: não o para além do consumo, mas sua apoteose, a sua extensão à esfera privada, à imagem e ao devir do ego chamado a conhecer a obsolescência acelerada, da mobilidade, da desestabilização. Consumo da sua própria existência através dos media desmultiplicados, dos tempos livres, das técnicas relacionais, o processo de personalização gera o vazio em technicolor, a flutuação existencial na e pela abundância de modelos, mesmo que condimentados de convivialidade, de ecologismo, de psicologismo. Estamos na segunda fase da sociedade de consumo, cool e já não hot, consumo que digeriu a crítica da opulência.»

Gilles Lipovetsky

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Catalunha

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Por mim, por mais que se leia que a nação é uma invenção, as independências têm ainda assim vez e legitimidade!!
Sou apoiante da ideia da Catalunha independente, mas não concordo com tudo o que Carles Puigdemont e o seu partido enquanto poder fizeram. Provavelmente eles têm feito o melhor que podem. Não percebo que ilusões levaram Puigdemont até Bruxelas!!

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Leituras: Desmascarando o mito do colonizador filantropo

250x22Adam Hochschild é um escritor, jornalista e professor universitário norte-americano, tornado famoso por ter escrito este livro.
Este livro centra-se em duas pessoas que fizeram a história do que somos hoje: o rei Leopoldo II da Bélgica e Edmund Dene Morel.
Graças à pesquisa feita pelo autor compreende-se como o rei Leopoldo II da Bélgica decidiu transformar-se em proprietário colonial (propriedade privada, só no final da sua vida foi vendida ao Estado belga) enquanto tentava passar à Europa a imagem de filantropo e “civilizador” europeu.
Leopoldo II da Bélgica ambicionava uma colonia para si. O Congo estava subexplorado pelos franceses na altura e ele viu ai uma oportunidade. Contratou Henry Morton Stanley, jornalista e explorador, que durante cinco anos preparar aquele que seria o Estado Livre do Congo.
A nível colonial o seu projecto era simples: tirar toda a riqueza existente da terra, até não sobrar mais nada. Uma filosofia muito parecida com a dos colonizadores portugueses e a dos colonizadores em geral, diga-se. Primeiro tirou o marfim. Depois, como a borracha passou a ser a riqueza mais precisa…
leopMas ao contrário do mito, nenhum “selvagem” era “bom” (“bom” no sentido de obediente só porque os exploradores o desejavam). Por isso tiveram de existir formas de pressão: a ameaça de morte constante sobre as aldeias e recompensas para quem matasse mais congoleses desobedientes. Ninguém o planeou, muito menos o rei Leopoldo II da Bélgica mas o resultado da sua colonização “civilizadora” foi um genocídio, comparável ao nazismo de Hitler ou ao GULAG de Estaline… Mas só podia ser desta forma, com as leis criadas pelo rei para explorar as riquezas até ao máximo!!
(Porque ali, no Congo, local que todos pensavam inexplorado (havia lá populações a viver, mas não contavam para nada) os Dez Mandamentos, que implicam o mínimo de respeito pelos outros seres humanos, não existiam!
Notar que depois da morte de Leopoldo II da Bélgica o seu sistema foi “adaptado” e continuou a ser usado, desta vez por belgas, por alemães e por franceses… Fez escola!
Notar ainda que Leopoldo II da Bélgica não foi o único a criar um sistema que colocava negros a maltratar e matar outros negros, ou colocar crianças desde pequenas a receber formação militar para matar pessoas (e tanto nos preocupa hoje, e ainda bem, o facto de haver ditadores africanos que usam crianças nos seus exércitos)…
Edmund Dene Morel foi o principal denunciador da forma de actuar dos colonizadores às ordens do rei Leopoldo II. Era uma pessoa prática, sem idealismos. Foi trabalhar nas docas da Antuérpia, numa empresa britânica que fazia exportações e importações do Congo para a Bélgica. Vendo que só iam armas e objectos sem valor, mas eram trazidos na volta o valioso marfim e a borracha ficou intrigado. Questionou os superiores mas tentaram corrompê-lo. Contra todas as expectativas, decidiu despedir-se e tornar-se jornalista. Até 1913 liderou uma campanha contra a exploração que estava a ser feita no Congo.
Apresentam-se também outras personalidades importantes para essa causa (vale a pena saber mais sobre elas): Roger Casement, George Washington Williams, Mary Kingsley, William Henry Sheppard, John Hobbis Harris, Booker T. Washington. (É aqui que descobrimos que a segregação não desapareceu do Sul dos Estados Unidos depois da guerra civil e que havia um projecto de pastores da igreja prosbiterana para levar todos os negros norte-americanos de volta a África no século XIX.)
Este livro também tem um capítulo dedicado ao Sr. Kurtz, que me fez pensar que a minha leitura de O Coração das Trevas foi extremamente ingénua. O Sr. Kurtz é uma personagem que é a junção de vários colonizadores brancos presentes no Congo durante o reinado de Leopoldo II: ele é de facto a face do Mal, mas do Mal como é sentido por quem é colonizado, não pelos colonizadores. Adam Hochschild reparou em pormenores que eu na minha análise não tive em conta, porque o tema e a forma como é abordado eram novos para mim.

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Este é um livro extraordinário. É aconselhável a quem queira saber a verdade sobre a colonização europeia, a quem goste de história, aos estudantes de sociologia e economia, bem como aos de ciências da comunicação.

Leitura de: Adam Hochschild, O fantasma do rei Leopoldo (Lisboa, Caminho, 2002)

Leituras: Um relatório sobre analfabetismo funcional já antigo

250xEste é um relatório sobre a situação do analfabetismo funcional em vários países da OCDE. Trata-se de um estudo realizado por Lauren Benton e Thierry Noyelle, do Eisenhower Center of Conservation of Human Resources, da Universidade de Columbia (Nova Iorque, Estados Unidos).

De acordo com os autores do relatório, o ponto de viragem aconteceu na década de 1970, quando se passou do taylorismo do pós-guerra à internacionalização, com maior concorrência entre países. Nesta situação, passou a ser exigido dos empregados mais e a alfabetização tornou-se uma questão política. Neste contexto começaram as pesquisas nos vários países sobre alfabetização, que se depararam com vários obstáculos.

Os autores apresentam várias definições de alfabetização funcional. Destaco a da UNESCO:

«uma pessoa funcionalmente analfabeta é requerida para uma actuação eficaz em seu grupo e comunidade, e que lhe permitem, também, continuar usando a leitura, a escrita e o cálculo a serviço do seu próprio desenvolvimento e do desenvolvimento de sua comunidade».

Portanto, uma pessoa pode saber ler e escrever e ser analfabeta funcional. Isso é um problema.

Na década de 70 e 80 do século XX vários países fizeram inquéritos ao analfabetismo funcional: Estados Unidos, Canadá e França. Outros optaram por não fazer nenhum inquérito à população, avançando primeiro com programas nacionais para o seu combate.

Para além disso, nos Estados Unidos, Canadá e Suécia alguns governos locais (de municípios e/ou de províncias) e algumas associações locais conceberam programas para a promoção do analfabetismo funcional. A França e a Alemanha (na altura RFA) preferiram esperar por directivas nacionais.

Os autores do relatório apelam a que sejam feitos mais estudos para contabilizar os custos para as empresas do analfabetismo funcional. (Na altura) Contava-se também com a participação dos sindicatos nestes estudos e na promoção da alfabetização funcional.

Em anexo os autores colocaram o Inquerito sobre as Capacidades de Leitura e de Escrita Utilizadas no Quotidiano (ECLEUQ), realizado no Canadá em 1989. Penso que eles o consideram o melhor inquérito sobre o tema até à data (1992, data de edição deste relatório).

Este é portanto um livro útil para quem como eu trabalha numa biblioteca pública, apesar de datado.

Alguém sabe qual é o “estado da arte”, em 2017, do Analfabetismo Funcional?

Leitura de: OCDE, Analfabetismo funcional e rentabilidade económica (Rio Tinto, Asa, 1992)