Grandes eventos desportivos espalham estádios-fantasma pelo mundo fora

«Os recintos de Aveiro, Leiria e Algarve são dos maiores exemplos de desperdício de dinheiros públicos na construção de equipamentos desportivos. O Mundial 2006, pelo contrário, é um exemplo a seguir.

Ainda não são conhecidos os números oficiais finais do investimento britânico nos Jogos de Londres, mas dificilmente se aproximarão dos 32 mil milhões de euros de Pequim 2008. Uma soma astronómica para um evento que dura pouco mais de duas semanas. Neste oceano financeiro, surgem mitigados os 381 milhões de euros despendidos no “Ninho de Pássaro”, o Estádio Olímpico que se transformou na bandeira do evento. Hoje é uma atracção turística, mas com os seus 90 mil lugares desertos grande parte do ano, apesar dos nove milhões de euros de custos de manutenção. É um dos “elefantes brancos” que os mega-eventos desportivos espalharam pelo mundo, com Portugal a ter um lugar de destaque.

São projectos muitas vezes efémeros, quase sempre megalómanos, ávidos sorvedouros das receitas dos contribuintes. São estas as conclusões de um relatório do Instituto Dinamarquês de Estudos Desportivos (IDED), publicado recentemente, que alerta para o peso dos legados das grandes organizações desportivas, construídos sem racionalidade ou planos de sustentabilidade. O Euro 2004 e parte da sua herança material, fardos atrofiantes para algumas autarquias, é visto como caso exemplar de desperdício de fundos.

O estudo estima que a organização nacional da prova da UEFA tenha implicado um investimento público na ordem dos mil milhões de euros, entre os valores assumidos por autarquias e Governo. O dobro da verba despendida, em conjunto, pela Áustria e Suíça, no Euro 2008. “Vários dos estádios construídos ou renovados constituíram uma herança problemática”, refere o documento, apontando os casos dos estádios de Aveiro, Leiria (Dr. Magalhães Pessoa) e Faro-Loulé (Algarve), que registam baixos índices de ocupação anual.

Um cenário desolador, mas perfeitamente previsível para este centro independente de investigação. A falta de um plano racional e sustentável dos equipamentos a prazo, que poderia ter passado por uma diminuição da lotação, após o fim do Euro 2004, para reduzir os custos de manutenção e adaptar os recintos às realidades futebolísticas locais, explica as dificuldades actuais.

Os três estádios custaram aproximadamente 218 milhões de euros (e juntos disponibilizam 84 mil lugares), segundo números divulgados por uma auditoria do Tribunal de Contas, em 2005. Montante sem IVA e que inclui o estacionamento e as acessibilidades. A factura mais pesada do trio foi paga pela Câmara de Leiria: 83,2 milhões de euros. Seguiram-se a de Aveiro, com 68,1 milhões, e as de Faro e Loulé, com 66,4.

(…) Apesar do cenário global negativo, o estudo do IDED também apresenta casos de sucesso. O maior deles é à organização alemã do Mundial de 2006. Aqui, a maioria dos estádios envolvidos na prova, construídos de raiz ou remodelados, registou um crescimento considerável da afluência de público, após o evento. A explicação é simples: “A forte tradição que o futebol tem por estas paragens, associada à competitividade da Bundesliga, traduz-se num dos maiores índices médios de espectadores nos estádios a nível mundial.” Um oásis num deserto de desperdícios.

“Este estudo pretende ser uma espécie de memorando com um elenco dos erros que ciclicamente são cometidos. Em particular algo que raramente é feito, como perspectivar o futuro dos equipamentos construídos e promover a criação de um plano de actividades, pelo menos para a década seguinte”, sintetizou ao PÚBLICO Francisco Pinheiro. “Acredito que, nas próximas décadas, os países que optarem por uma racionalidade do ponto de vista financeiro, dificilmente irão candidatar-se a receber mega-organizações destas”, prevê.

Apesar de tudo, não têm faltado candidatos endinheirados à organização dos grandes eventos. A 2 de Dezembro de 2010, a FIFA atribuiu à Rússia a organização do Mundial de 2018 e ao Qatar a de 2022. Para vencer a corrida, os dois países comprometeram-se a construir mais de 20 novos estádios. “Nem a Rússia nem o Qatar têm uma infra-estrutura de equipamentos desportivos para uma prática satisfatória de futebol, conforme é exigido pela FIFA, nomeadamente no que se refere à capacidade dos estádios”, aponta o estudo. Para obedecer aos regulamentos, os russos fixaram um orçamento oficial de três mil milhões de euros para a construção de estádios. Já o Qatar (país com 1,8 milhões de habitantes) vai investir 2,4 mil milhões de euros.»
Paulo Curado (16/08/2012) (1)

(1) Do Público.

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Angela Merkel, a guru da terapia de choque e do neo-colonialismo na União Europeia desde 2005

Angela Merkel, declarações de 2012…

«Merkel quer uma maior consolidação da união política e fiscal na União Europeia. Numa emissão televisiva do canal público alemão, ARD, a chanceler deixou o seu apelo, no sentido que no próximo encontro dos chefes de estado europeus, a realizar no dia 28 e 29 deste mês, em Bruxelas, se possa estabelecer um plano assente nestes critérios.

Durante a emissão televisiva do canal público alemão, ARD, a chanceler alemã fez ecoar os seus desejos, quanto à União Europeia, “Necessitamos não só de uma união monetária, mas também de uma união fiscal, de uma política orçamental comum”, no sentido que sejam dados avanços, já na próxima cimeira europeia no final deste mês, a 28 e 29, em Bruxelas.

Relativamente à crise das dívidas soberanas da Zona Euro, Merkel pensa que a “consolidação e o crescimento são duas faces da mesma moeda”. Neste sentido, a chefe do governo alemão defende que o pacto fiscal seja sustentado por medidas com vista ao crescimento e criação de emprego nos países em crise.

Angela Merkel pretende a criação de um plano de crescimento para os países mais afetados da Zona Euro, seguindo o modelo alemão, sendo um deles Portugal.»

Ana Carreira (07/05/2012) (1)

«A chanceler Angela Merkel defendeu esta quinta-feira “mais Europa”, reforçando “a união monetária, mas também a união orçamental e de uma política económica comum”. “Mais Europa, não menos”, sublinhou em entrevista à ARD, a televisão pública alemã.

Merkel admitiu ainda que maior integração em algumas regiões, como nos países do euro, leva a uma Europa a duas velocidades.

“Já temos essa realidade em algumas zonas da Europa – como na área do Euro e nos países que aderiram ao acordo de Schengen”. Essa Europa a duas velocidades, que já é um facto, admitiu, não impede, contudo, que todos os membros possam querer integrar a união, no que respeita, por exemplo, ao pacto orçamental, do qual ficaram excluídos Reino Unido e Dinamarca. (…)»

Agência Financeira (07/06/2012)

«Diga lá senhora Merkel de que União Política está a falar? De uma União em que o poder executivo emana de um “consenso” intergovernamental condicionado pelo peso do Governo de um só país (o seu naturalmente), ou de uma União em que o governo resulta do confronto político de projetos para a Europa e do sufrágio universal dos europeus? É que a democracia faz toda a diferença, embora eu não lhe tenha ouvido uma única palavra sobre o assunto.

Alguns dizem que a União Política será o produto de uma situação de extrema necessidade, de um caos eminente que obrigaria os governos europeus a dar o salto para a união política por muito que isso lhes custasse. Será? Será que a cimeira do fim do mês se prepara para saltos que podem ser mortais, sem que os governos deem cavaco a ninguém, sem que se discutam as instituições democráticas em que a legitimidade de uma União teria de se fundar? Onde está o mandato do Governo português para se envolver nestas cavalarias? »

José M. Castro Caldas (07/05/2012) (2)

«(…) Quando Merkel reclama mais união política e fiscal no fundo o que está a dizer é que as regras ditadas pela Alemanha devem aplicar-se a todos os países que fazem parte da zona euro. Ela não tem uma única palavra nem apresenta qualquer proposta no sentido de assegurar maior democraticidade às decisões da União Europeia. Merkel sempre se sentiu confortável com o pseudo-directório que constituiu com Sarkozy no qual ela gizava as grandes diretrizes de política económica e financeira, deixando a Sarkozy o encargo de as defender e explicar. Por outro lado, a ameaça que decorre das suas palavras também só pode ser entendida numa perspectiva anti-democrática. Quem não quiser mais integração, deverá abandonar a zona euro, contanto que se mantenha no mercado único. Por outras palavras, quem não aceitar mais integração pode sair da União Monetária desde que mantenha as fronteiras abertas para a entrada dos produtos alemães. (…)»

J. M. Correia Pinto (08/06/2012) (3)

(1) PT Jornal.

(2) Blogue Ladrões de Bicicletas.

(3) Blogue Politeia.

Fonte da Imagem: Toonpool (cartune de Tónio).