Notas (de uma portuguesa) de visita em Lisboa (Setembro de 2017)

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1. Lisboa está melhor em termos urbanos. Mais passeios!
2. O executivo camarário de Fernando Medina (PS) pensou a cidade para os turistas, não para os residentes. Por isso aquilo que me causa alegria quando passeio por Lisboa causa problemas a quem cá vive.
3. Se os residentes não foram tidos em consideração, muito menos terão sido as pessoas que vivem noutros municípios mas trabalham em Lisboa. Aparentemente não há politico que pense nestas pessoas. Para que servem as comunidades intermunicipais?
4. Parece que Fernando Medina pediu às famílias para tentarem ter apenas um carro. A ideia é muito boa, mas parece-me que foi planeada fechado num gabinete, com pouco contacto com a vida real. Que motivações as pessoas têm para deixarem de usar carro? Os transportes públicos são caros. As pessoas precisam de fazer compras e as lojas são longe. Isso entre outros aspectos que não foram tidos em consideração.
5. Gostei da nova face da Biblioteca Municipal das Galveias.
6. Lisboa está-se a tornar cada vez mais cara para os portugueses. As três coisas mais caras:
a) Alojamento
b) Transportes
c) Comida: Comer em restaurantes ou pastelarias é muito caro. Mas também fica caro ir ao supermercado.
7. De acordo com os cartazes expostos, todos se candidatam ao governo de Portugal. Ou isso ou descentralizar muitas responsabilidades do governo para os municípios não é boa ideia.
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Desode à pobreza em Nova Iorque

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Lê-se no jornal a notícia

Mais de 100 mil alunos das

Escolas públicas de Nova Iorque

Não têm casa”.

Nova Iorque, cidade que nunca dorme!

Nova Iorque, terra de sonhos!

Glamour, moda e muito sexo!

Dinheiro, acções, dinheiro!

Estados Unidos, terra de oportunidade,

Para ricos.

Estados Unidos, terra de desespero,

Para pobres.

Se tens dinheiro vai até Nova Iorque,

Vai ser tratado como um rei!

Se és pobre,

Não vás!

Nova Iorque, terra em que a marginalidade,

Começa na primária,

E a pobreza também!

Nova Iorque, terra dos nossos sonhos,

Românticos e irreais!

Sim, sou feminista!

Um pouco de história…

O feminismo nasceu, em finais do século XIX e inícios do século XX, quando algumas mulheres mais informadas e activas decidiram lutar pela promoção da igualdade nos direitos contratuais e de propriedade para homens e mulheres, e na oposição de casamentos arranjados e da propriedade de mulheres casadas (e seus filhos) por seus maridos e, também, pelo direito de voto.
Estas causas perderam sentido? Não me parece! Desde finais do século XIX até hoje (inícios do século XXI) muitas batalhas foram ganhas, mas também existiram muitos retrocessos no percurso.
Por isso quando leio este texto de Bela Barbosa percebo que o feminismo ainda faz sentido hoje e que Sim, sou Feminista!

Mas que feminismo?

Com o tempo as mulheres que compunham o movimento trilharam caminhos opostos, desuniram-se entre si. E foram aparecendo tantos feminismos como pastas de dentes, que levaram a guerras de ideias entre mulheres feministas. Uma vergonha para o movimento e para as próprias mulheres!

Neste texto não vou falar do feminismo das outras mulheres e dos outros homens mas do meu… Defendo que (lista adaptada daqui):

– Mulheres são pessoas. Portanto, merecem direitos iguais;

– Mulheres devem ganhar salários iguais aos dos homens no desempenho da mesma função;

– Mulheres não devem ser discriminadas no mercado de trabalho;

– Nenhuma mulher é uma propriedade. Nenhum homem tem o direito de agredir fisicamente ou verbalmente uma mulher, ou ainda determinar o que ela pode ou não fazer;

– Qualquer ato sexual sem consentimento é violação;

– A representação da mulher nos media não se pode nos reduzir a estereótipos;

– Mulheres não são produtos. Não podem ser tratadas como mercadoria, isca para atrair homens, moeda de troca ou prémio;

– A representação das mulheres deve contemplar toda a sua diversidade: somos negras, brancas, negras, magras, gordas, heterossexuais, lésbicas, bi, com ou sem deficiências;

– Amar o próprio corpo e se sentir bem com a própria aparência não deve depender dos padrões da sociedade: merecemos ser aceites pelo que somos, independentemente do nosso aspecto.

Para mim o feminismo só faz sentido como um subcaminho dos direitos humanos: lutar pelos direitos das mulheres é lutar pela humanidade!

Também só faz sentido com homens…

Como se pode ver pela lista, a luta das mulheres não terminou no inicio da década de 1980, altura em que apareceu a ideia de pós-feminismo. Se terminou foi que muitas mulheres abandonaram a luta; outras sequer se preocuparam (preocupam) em entrar nela.

Por outro lado a luta tem tomado caminhos com os quais não me identifico, e dos quais vou falar um pouco neste texto.

Polémicas Inúteis

O feminismo é uma coisa MUITO BOA que se tem perdido em polémicas inúteis. Um desses casos é precisamente a polémica das mamas da Emma Watson.

Veja-se esse caso: a actriz Emma Watson, que sempre se bateu pelos direitos das mulheres, mas foi acusada de ser hipócrita por ter posado para a Vanity Fair e revelado um pouco dos seios. Olá?! O que é que isso tem a ver com o feminismo?

Micro-agressões: criticadas por se queixarem

A prova que a luta pelo feminismo ainda é válida são as microagressões quotidianas. Mas penso que o “policiamento” contínuo dessas agressões acaba por ter efeitos perversos: acaba por dar pretexto aos agressores para se verem como  “vitimas”. Resultado final: nem os agressores mudam nem a vitima muda.

O feminismo é uma bandeira útil e necessária ainda. Mas as mulheres têm de juntá-la a uma análise cuidada da situação politica, económica e social actual: sem essa análise muita luta serão palavras vãs.

O que nao e feminismo

Portugal, Portugal…

Em Portugal a revolução de Abril trouxe finalmente o direito de ser pessoa às mulheres. O feminismo é algo incipiente e mal-visto. Pior: muitas vezes são as mulheres o maior obstáculo à evolução umas das outras.

Tal como em todos os assuntos, as feministas portuguesas refugiam-se em espaços (virtuais ou físicos) fechados e não comunicantes. Cada “associação” é uma “capelinha”, que pouco comunica realmente com as mulheres portuguesas. Muitas vezes nem há real interesse nisso. Vive-se do que as celebridades dizem e fazem e, claro, comenta-se mais as noticias dos Estados Unidos que as noticias portuguesas.

Prova disso: não consegui encontrar em sites e blogues portugueses imagens EM PORTUGUÊS para ilustrar este texto.

Quotas?!

Num mundo ideal não seriam necessárias quotas especiais para mulheres nas empresas e na politica. Durante muitos anos eu fui contra isso. As mulheres têm mérito suficiente para não precisarem delas! Mas como mérito não é tudo… No Portugal de 2017, depois de assistir a tantos retrocessos no país acabei por me render e concordar com quotas de género.

Portanto, não há dúvidas: sou feminista…

E termino com uma citação de Chimamanda Ngozi Adichie retirada de uma revista brasileira online:

«A questão de género é importante em qualquer canto do mundo. É importante que se comece a planejar e a sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos com si próprios. É assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de um outro modo. O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo. Nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos, enclausuramo-los numa jaula pequena e resistente. Ensinamos que eles não podem ter medo, não podem ser fracos ou se mostrar vulneráveis, precisam esconder quem realmente são – porque têm de ser, como se diz na Nigéria, homens duros.»

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Nota: Agradeço aos / às membr@s do Clube de Leitura Conversas Livrásticas a inspiração para escrever este texto.

Leituras Complementares: Feminismo na Wikipédia; 11 mentiras batidas sobre feminismo que precisam de ser deletadas (em português do Brasil);  Aprovada lei das quotas de género nas empresas.

Última Actualização: 18/08/2017

 

 

 

Redes Sociais e Jornalismo: É assim que o seu medo e indignação estão a ser vendidos com lucro

«A história de como uma métrica mudou a maneira como você vê o mundo

Uma noite, no final de outubro de 2014, um médico verificou seu próprio pulso e entrou em um metro na cidade de Nova York. Ele tinha acabado de voltar para casa de um breve período como voluntário no estrangeiro, e estava indo para Brooklyn para encontrar alguns amigos numa pista de bowling. Ele estava ansioso por esta pausa – no início daquele dia ele tinha ido correr por a cidade, bebeu um café na High Line e almoçou numa loja local da marca Meatball. Quando ele acordou no dia seguinte, esgotado com uma leve febre, ele chamou seu empregador.

Dentro de 24 horas, ele se tornaria o homem mais temido em Nova York. Seu caminho exacto através da cidade seria examinado por centenas de pessoas, os estabelecimentos que ele visitava seriam fechados, e seus amigos e noivas seriam colocados em quarentena.

Isso não parou uma explosão dos media que declarando um apocalipse iminente. Um frenesim de clickbaits e narrativas aterrorizantes emergiram à medida que todas as empresas noticiosas importantes correram para capitalizar o pânico colectivo com o ébola.

O dano físico causado pela própria doença era pequeno. A histeria, no entanto – viajando instantaneamente pela internet – fechou escolas, fez aterrar aviões e aterrorizou a nação.

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(…) O terror era muito mais contagioso do que o próprio vírus e tinha a rede perfeita para se propagar – um ecossistema digital construído para espalhar o medo emocional por toda parte.

Eu vou te contar algumas coisas que você provavelmente já sabe

Toda vez que você abre o seu telefone ou o seu computador, seu cérebro está caminhando para um campo de batalha. Os agressores são os arquitectos do seu mundo digital e suas armas são aplicativos, feeds de notícias e notificações em seu campo de visão toda vez que você olha para uma tela.
Todos estão tentando capturar seu recurso mais escasso – sua atenção – e levá-lo como refém em dinheiro. Sua atenção cativa vale bilhões para eles em receita de publicidade e assinatura.

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Para fazer isso, eles precisam mapear as linhas defensivas do seu cérebro – sua força de vontade e desejo concentrar-se em outras tarefas – e descobrir como passar por elas.
Você perderá essa batalha. Você já a perdeu. A pessoa média perde-a dezenas de vezes por dia.
Isso pode parecer familiar: em um instante ocioso, você abrirá seu telefone para verificar a hora. 19 minutos depois, você recupera a consciência em um canto completamente aleatório do seu mundo digital: o fluxo de fotos de um estranho, um artigo de notícias surpreendente, um divertido clipe do YouTube. Você não quis fazer isso. O que acabou de acontecer?
Não é culpa sua – é por causa do design.
O buraco de coelho digital em que você acabou de cair é financiado por publicidade, voltada para você. Quase todos os aplicativos ou aplicativos “gratuitos” que você usa dependem desse processo sub-reptício de transformar os seus globos oculares inconscientemente em dólares e eles criaram métodos sofisticados para fazê-lo de forma confiável. Você não paga dinheiro por usar essas plataformas, mas não se engane, você está pagando por elas – com seu tempo, sua atenção e sua perspectiva.
Esta não é uma pequena mudança técnica nos tipos de informações que você consome, nos anúncios que você vê ou nos aplicativos que você baixar.
Isso realmente mudou como você vê o mundo.

A guerra pela sua atenção

Antes de ir mais longe, deixe-me assegurar-lhe que esta não é uma lista de queixas sobre os males da tecnologia. Eu não sou um Luddita [pessoa que se opõe à tecnologia]. Como a maior parte da humanidade, aprecio profundamente meus aparelhos tecnológicos como uma prótese útil para a minha memória, a minha produtividade e a minha capacidade de me conectar às pessoas que me interessam.

Esta é uma avaliação sóbria de como as estratégias de captura digital nossa atenção nos alteraram – nossas vidas, os nossos media e nossa visão de mundo. Essas mudanças levaram a mudanças enormes na política que temos hoje, nossa visão global e nossa capacidade de nos ver como seres humanos.

Muitos dos maiores problemas que enfrentamos neste momento na sociedade são o resultado das decisões dos criadores escondidos do nosso mundo digital – designers, programadores e editores que criam e curam os media que consumimos.

Essas decisões não são feitas com malícia. Eles são feitos atrás de painéis analíticos, painéis de teste dividido e paredes de código que o transformaram em um bem previsível – um usuário que pode ser minado por atenção.

Eles fazem isso concentrando-se em uma métrica simplificada, que suporte a publicidade como sua principal fonte de receita. Esta métrica é chamada de engajamento, e enfatizando – acima de tudo – modificou sutilmente e de forma constante a maneira pela qual olhamos as notícias, nossa política e entre nós.

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(…) A história da notícia

“Os media”, como os conhecemos, não assim tão antigos. Durante a maior parte da nossa história, a Notícia era, literalmente, o plural das pessoas “novas” que ouviram e compartilhavam, e estava limitada pela proximidade física e pelo boca a boca. Desde a invenção da imprensa, a notícia consistiu em notas postadas em locais públicos e panfletos distribuídos ao pequeno número de pessoas que realmente podiam lê-las.
Entre os séculos XVIII e XIX, os jornais tornaram-se bastante comuns, mas foram na maior parte dos trapos de opinião contendo ensaios políticos, histórias sensacionalistas e, eventualmente, jornalismo sensacionalista. Estes jornais eram megafones para que as pessoas exercessem influência política, e muitas notícias deles tinham pouca relação com os factos.
(…) Em resposta a essa manipulação sistemática da verdade, houve um esforço concertado para criar uma instituição de jornalismo orientada por factos a partir da década de 1920. Este processo foi anunciado pelo advento das primeiras redes de comunicação de media de massa: jornais nacionais e rádio nacional. Estes lentamente deram lugar à televisão, e entre essas três novas plataformas, um sistema de media global se apoderou – impulsionado pelos princípios do jornalismo.

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(…) O surgimento do engajamento algorítmico

Hoje as notícias precisam de competir com tudo o mais em nossa vida digital – milhares de aplicativos e milhões de sites. Mais do que tudo, agora têm de competir com as redes sociais – uma das máquinas de captura de atenção mais bem sucedidas já criadas.
As redes sociais são uma das principais razões pelas quais houve uma queda de dois dígitos nas receitas dos jornais e por que o jornalismo como indústria está em declínio acentuado. É agora como a maioria dos americanos recebe notícias.
O maior jogador das redes sociais é o Facebook, e a maior parte do Facebook é o News Feed.
O algoritmo por trás do News Feed é regularmente modificado e historicamente opaco – é uma das mais peças de código importantes e influentes já escritas. Você pode pensar no algoritmo como o News Feed Editor. (Twitter, Snapchat e Youtube têm seus próprios algoritmos editoriais, mas estamos nos concentrando no Facebook por causa de seu puro domínio).
O News Feed Editor é um editor de robôs, e é muito melhor a capturar a atenção do que os editores humanos normais. Pode prever o que você clicará melhor do que qualquer um que você conheça. É o que o professor Pablo Boczkowski da Northwestern University chamou de “o maior editor da história da humanidade”.

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Tobias Rose-Stockwell

Nota: Excertos de um artigo publicado no sítio The Mission, em 15-07-2017 traduzidos por mim. Vá até lá ler TODO o artigo: vale a pena!