Leituras: Desmascarando o mito do colonizador filantropo

250x22Adam Hochschild é um escritor, jornalista e professor universitário norte-americano, tornado famoso por ter escrito este livro.
Este livro centra-se em duas pessoas que fizeram a história do que somos hoje: o rei Leopoldo II da Bélgica e Edmund Dene Morel.
Graças à pesquisa feita pelo autor compreende-se como o rei Leopoldo II da Bélgica decidiu transformar-se em proprietário colonial (propriedade privada, só no final da sua vida foi vendida ao Estado belga) enquanto tentava passar à Europa a imagem de filantropo e “civilizador” europeu.
Leopoldo II da Bélgica ambicionava uma colonia para si. O Congo estava subexplorado pelos franceses na altura e ele viu ai uma oportunidade. Contratou Henry Morton Stanley, jornalista e explorador, que durante cinco anos preparar aquele que seria o Estado Livre do Congo.
A nível colonial o seu projecto era simples: tirar toda a riqueza existente da terra, até não sobrar mais nada. Uma filosofia muito parecida com a dos colonizadores portugueses e a dos colonizadores em geral, diga-se. Primeiro tirou o marfim. Depois, como a borracha passou a ser a riqueza mais precisa…
leopMas ao contrário do mito, nenhum “selvagem” era “bom” (“bom” no sentido de obediente só porque os exploradores o desejavam). Por isso tiveram de existir formas de pressão: a ameaça de morte constante sobre as aldeias e recompensas para quem matasse mais congoleses desobedientes. Ninguém o planeou, muito menos o rei Leopoldo II da Bélgica mas o resultado da sua colonização “civilizadora” foi um genocídio, comparável ao nazismo de Hitler ou ao GULAG de Estaline… Mas só podia ser desta forma, com as leis criadas pelo rei para explorar as riquezas até ao máximo!!
(Porque ali, no Congo, local que todos pensavam inexplorado (havia lá populações a viver, mas não contavam para nada) os Dez Mandamentos, que implicam o mínimo de respeito pelos outros seres humanos, não existiam!
Notar que depois da morte de Leopoldo II da Bélgica o seu sistema foi “adaptado” e continuou a ser usado, desta vez por belgas, por alemães e por franceses… Fez escola!
Notar ainda que Leopoldo II da Bélgica não foi o único a criar um sistema que colocava negros a maltratar e matar outros negros, ou colocar crianças desde pequenas a receber formação militar para matar pessoas (e tanto nos preocupa hoje, e ainda bem, o facto de haver ditadores africanos que usam crianças nos seus exércitos)…
Edmund Dene Morel foi o principal denunciador da forma de actuar dos colonizadores às ordens do rei Leopoldo II. Era uma pessoa prática, sem idealismos. Foi trabalhar nas docas da Antuérpia, numa empresa britânica que fazia exportações e importações do Congo para a Bélgica. Vendo que só iam armas e objectos sem valor, mas eram trazidos na volta o valioso marfim e a borracha ficou intrigado. Questionou os superiores mas tentaram corrompê-lo. Contra todas as expectativas, decidiu despedir-se e tornar-se jornalista. Até 1913 liderou uma campanha contra a exploração que estava a ser feita no Congo.
Apresentam-se também outras personalidades importantes para essa causa (vale a pena saber mais sobre elas): Roger Casement, George Washington Williams, Mary Kingsley, William Henry Sheppard, John Hobbis Harris, Booker T. Washington. (É aqui que descobrimos que a segregação não desapareceu do Sul dos Estados Unidos depois da guerra civil e que havia um projecto de pastores da igreja prosbiterana para levar todos os negros norte-americanos de volta a África no século XIX.)
Este livro também tem um capítulo dedicado ao Sr. Kurtz, que me fez pensar que a minha leitura de O Coração das Trevas foi extremamente ingénua. O Sr. Kurtz é uma personagem que é a junção de vários colonizadores brancos presentes no Congo durante o reinado de Leopoldo II: ele é de facto a face do Mal, mas do Mal como é sentido por quem é colonizado, não pelos colonizadores. Adam Hochschild reparou em pormenores que eu na minha análise não tive em conta, porque o tema e a forma como é abordado eram novos para mim.

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Este é um livro extraordinário. É aconselhável a quem queira saber a verdade sobre a colonização europeia, a quem goste de história, aos estudantes de sociologia e economia, bem como aos de ciências da comunicação.

Leitura de: Adam Hochschild, O fantasma do rei Leopoldo (Lisboa, Caminho, 2002)

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Portugal, 2014: Despedir sem justa causa é ilegal mas não faz mal

«Ainda não é o vale tudo no mercado de trabalho. Mas para lá caminhamos. Primeiro, o Governo tentou acabar com a necessidade de haver uma “justa causa” para despedir. A Constituição impediu-o. O Executivo não desarmou. Se o despedimento sem justa causa tem de ser ilegal, então atenue-se a sua penalização.

A notícia surgiu ontem pela mão da TSF, que citou documentos oficiais relativos à 11ª avaliação da troika, que o Governo não desmentiu. Na sua senda de reduzir os custos das empresas com os seus trabalhadores, foi proposto à troika uma redução das indemnizações por despedimentos ilegais, ou seja, despedimentos feitos sem que haja um motivo previsto na lei. Em causa está uma indemnização que, em geral, varia entre 15 e os 45 dias de salário por cada ano trabalhado, com um valor mínimo equivalente a três salários, e que é devida sempre que fique provado em tribunal que o despedimento foi ilegal.
Para o Governo e troika trata-se de uma consequência lógica da redução das indemnizações por despedimentos legais que foi feita anteriormente. Acontece que uma coisa é uma compensação económica que é devida ao trabalhador por um acto legal. Outra é a indemnização a que este tem direito por ter sido vítima de uma ilegalidade que lhe custou o seu ganha-pão.
Num país onde já é tão incomum um cidadão recorrer a um tribunal para fazer valer os seus direitos, o Governo toma a iniciativa de reduzir a compensação a que tem direito caso lhe seja dada razão.
A intenção do Governo é de tal forma desajustada que os próprios representantes das empresas, que beneficiariam da redução da indemnização, a consideram inoportuna. As confederações patronais sabem que para manter a coesão social é preciso ter uma política mais equilibrada entre trabalhadores e patrões. E que se não houver moral, comem todos.
Mas para o Governo esta é uma ideia perfeita. Além de cumprir o desiderato maior da Nação de reduzir os custos das empresas, consegue ainda a proeza de simultaneamente desincentivar os trabalhadores a reclamarem o cumprimento da lei e desresponsabilizar as empresas por práticas ilegais.»

Manuel Esteves (06/03/2014) (1)

(1) Artigo de opinião no Jornal de Negócios.

 

A seguir em 2014…

«(…) Janeiro/Fevereiro – CDS e PSD reunem os seus congressos electivos. E se deles não sairão novos líderes, as moções e discursos balizarão o terreno político que cada um quer trilhar no futuro. Ao mesmo tempo, no Governo, estarão juntos a negociar o pós-troika entre si e com os credores.

Março – Na Primavera deverá ser conhecida a decisão do Tribunal Constitucional sobre as normas do Orçamento do Estado que venham a constar dos pedidos de fiscalização sucessiva, feitos pelos partidos e/ou pelo Presidente.

25 de Abril – O 40º aniversário da Revolução dos Cravos será um ponto alto dos discursos dos agentes políticos. Mas também uma oportunidade de aferir a cidadania e a paz social. A forma como a sociedade civil se manifestar será também ouvida nas negociações internacionais.

17 de Maio – Termina o programa de assistência financeira a Portugal. O que se seguirá tanto pode ser um programa cautelar, um pleno regresso aos mercados ou um segundo resgate. A cada cenário poderá corresponder uma diferente situação política. A hipótese de crise política não pode ser afastada se a solução for a última.

25 de Maio – As eleições europeias serão o termómetro político para aferir a consistência das lideranças dos partido, a um ano de legislativas. Depois de ter ganho as autárquicas, o PS precisa de outra vitória para ficar incontestável. Para o BE, uma segunda derrota nas urnas poderá ser a sentença de morte da liderança bicéfala.»

Margarida Gomes (31/12/2013) (1)

Comentarium: Não vale a pena fazer balanços de um ano em permanente “crise” criada artificialmente pela troika e por um governo que fez questão de ir para além dela. Em Portugal, seguindo a tradição iniciada em 2011, foi um ano cheio de coisas giras. E mais e melhores coisas giras nos esperam em 2014. De qualquer forma, podemos agradecer ao Público o podermos marcar na agenda, antecipadamente, os dramas de 2014.

Este artigo apenas peca por omitir a possível promoção do “grande” Vítor Gaspar.

(1) Reprodução de parte de notícia publicada no Público Online.

Coisas Giras de Portugal em 2013 (15)

PP

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Fonte da Imagem: Ultimas Curiosidades (cartune de Zédameida).