Foi um debate mas também foi outra(s) coisa(s)

Fui assistir a um debate sobre um tema muito interessante e muito actual: inteligência artificial!

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Sobre o debate:

Os convidados / oradores pareceram-me ser pessoas conhecedoras do assunto e bem formadas.
O moderador esteve extremamente bem no seu papel!
Mas… quem assistia ao debate era convidado constantemente a votar através de uma app, respondendo assim a perguntas que eram feitas ao longo da sessão.

De repente senti-me nas eleições norte-americanas, onde no final de cada debate as intenções de voto são medidas. Não gostei dessa parte. Isso fez-me lembrar Richard Thaler, Daniel Kahneman e outros.

Será que as associações agora também fazem experiências sociais? A resposta é sim. Portanto sorria, está no século XXI!

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Leituras: Como pensamos depressa e como pensamos devagar?

Pensar-Deprea-e-DevagarDaniel Kahneman é um psicólogo norte-americano. Nasceu em Tel Aviv (Palestina). Passou a infância em França (na altura sob ocupação nazi) e voltou à Palestina em 1948, pouco tempo antes da independência de Israel. Graduou-se na Universidade Hebraica de Jerusalém em 1954. Ai começou a dar aulas até ser convidado a dar aulas nos Estados Unidos. Hoje dá aulas na Universidade de Princeton, no Woodrow Wilson School of Public and International Affairs, na Universidade Hebraica para além de desenvolver pesquisas para o Gallup.

Daniel Kahneman venceu o Prémio Nobel da Economia (que se chama realmente Prémio do Banco da Suécia para as Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel) em 2002, «por introduzir os insights da pesquisa psicológica na ciência económica, especialmente no que diz respeito às avaliações e tomada de decisão sob incerteza». É sabido que alguns familiares de Alfred Nobel consideram este prémio como uma espécie de «campeonato de relações públicas para economistas» (1), pelo que podemos concluir que as ideias de Kahneman já se tornaram a tendência do momento.

Cada capítulo tem no final algumas ideias de como podemos aplicar os seus conceitos no dia-a-dia: Daniel Kahneman propõe que usemos as suas ideias quando conversamos na máquina de café (ou seja, nos intervalos para almoçar ou para lanchar). Engraçado porque na parte detrás da capa – espaço para as habituais citações elogiosas – encontramos uma citação do New York Times que diz tudo:

«As implicações da obra de Kahneman são vastas, estendendo-se aos âmbitos da educação, do negócio, do marketing, da política… e até ao da investigação sobre a felicidade. Poderíamos chamar a este domínio “psiconomics”, o raciocínio que se esconde por detrás das nossas escolhas.»

Este livro é a síntese de todas as pesquisas: as suas e a de outros psicólogos, economistas e outros cientistas sociais. Daniel Kahneman cita as investigações de Mihaly Csikszentmihalyi, Richard Thaler, Paul Slovic, Martin Seligman, Nassim Nicholas Taleb, de ex-alunos seus e de ex-alunos de Amos Tversky.

O livro inicia com o resumo das investigações que desenvolveu em colaboração com Amos Tversky (esta amizade foi tema de um livro de Michael Lewis) sobre heurísticas e enviesamentos dos juízos que as pessoas fazem. Grande parte do livro é uma explicação de como funciona o nosso Sistema 1 (a intuição) e o Sistema 2 (consciência e racionalização).

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Outros objectos de pesquisa:

Economia comportamental ou Econos e Humanos – A economia habitualmente parte do princípio de que todas as decisões que os sujeitos tomam são racionais. Daniel Kahneman e colaboradores demonstram que todas as decisões têm um fundo emocional por detrás: arriscamos mais quando sentimos que vale a pena.

Psicologia do hedonismo (também chamada de economia da felicidade) ou o Eu da experiência e o Eu da memória – Trata-se do estudo quantitativo e teórico da felicidade, emoções positivas e negativas, bem-estar, qualidade de vida, satisfação da vida e conceitos relacionados, combinando, geralmente, economia com outros campos, como psicologia, saúde e sociologia.

(1) Nobel descendant slams Economics prize.

Leitura de: Daniel Kahneman, Pensar, depressa e devagar (Lisboa, Temas e Debates, 2017)
Para Saber Mais:

Daniel Kahneman no blogue Correntes
Economia evolucionista
O enigma da experiência versus memória (TED Talk)
Daniel Kahneman changed the way we think about thinking. But what do other thinkers think of him?

Quem é Daniel Kahneman e por que todo administrador deve conhecê-lo

Feminismo Quotidiano: Dia da Mulher é apenas dia de vender?

Como nasceu o Dia da Mulher…
«Se fosse possível fazer uma linha do tempo dos primeiros “dias das mulheres” que surgiram no mundo, ela começaria possivelmente com a grande passeata das mulheres em 26 de fevereiro de 1909, em Nova York.
Naquele dia, cerca de 15 mil mulheres marcharam nas ruas da cidade por melhores condições de trabalho – na época, as jornadas para elas poderiam chegar a 16h por dia, seis dias por semana e, não raro, incluíam também os domingos. Ali teria sido celebrado pela primeira vez o “Dia Nacional da Mulher”.

Enquanto isso, na Europa também crescia o movimento nas fábricas. Em agosto de 1910, a alemã Clara Zetkin propôs em reunião da Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas a criação de uma jornada de manifestações.
“Não era uma questão de data específica. Ela fez declarações na Internacional Socialista com uma proposta para que houvesse um momento do movimento sindical e socialista dedicado à questão das mulheres”, explicou à BBC Brasil a socióloga Eva Blay, uma das pioneiras nos estudos sobre os direitos das mulheres no país.
“A situação da mulher era muito diferente e pior do que a dos homens nas questões trabalhistas daquela época”, disse ela, que é coordenadora da USP Mulheres.
A proposta de Zetkin, segundo os registros que se têm hoje, propunha uma jornada anual de manifestações das mulheres pela igualdade de direitos, sem exatamente determinar uma data. O primeiro dia oficial da mulher seria celebrado, então, em 19 de março de 1911.
Em 1917, houve um marco ainda mais forte daquele que viria a ser o 8 de Março. Naquele dia, um grupo de operárias saiu às ruas para se manifestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial, movimento que seria o pontapé inicial da Revolução Russa.
O protesto aconteceu em 23 de fevereiro pelo antigo calendário russo – 8 de março no calendário gregoriano, que os soviéticos adotariam em 1918 e é utilizado pela maioria dos países do mundo hoje.
(…) O chamado “Dia Internacional da Mulher” só foi oficializado em 1975, ano que a ONU intitulou de “Ano Internacional da Mulher” para lembrar suas conquistas políticas e sociais.
(…) O dia 8 de março é considerado feriado nacional em vários países, como a própria Rússia, onde as vendas nas floriculturas se multiplicam nos dias que antecedem a data, já que homens costumam presentear as mulheres com flores na ocasião.» (BBC Brasil)

A situação em Portugal, 2018…

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As datas tornam-se vazias com o tempo, meros fenómenos de marketing… Acontece com o dia 8 de Março, acontece com o 25 de Abril, acontece com muitos dias do ano em que se comemoram coisas importantes.
Cada vez menos pessoas sabem ou querem saber o porquê de qualquer data!
Vivemos numa recessão económica provocada por anos de austeridade, aliás que ainda não terminou. Por isso todos precisamos de objectos gratuitos. E gostamos – sempre gostámos – que nos oferecerem coisas.
Mas as mulheres não precisam de flores no dia da mulher. (Adoro flores mas dispenso que mas ofereçam no Dia da Mulher. A menos que saibam porque as oferecem…)
Muitas mulheres gostam de ler, mas não precisam que lhe ofereçam livros no Dia da Mulher.
Quase todas as mulheres usam cremes, mas não precisam que lhe ofereçam cremes no Dia da Mulher.
Muitas mulheres gostam de chocolates, mas ninguém precisa que lhe ofereçam chocolates no Dia da Mulher. (Adoro chocolates mas dispenso que mas ofereçam no Dia da Mulher.)
Dar um desconto especial por ser Dia da Mulher é ridículo.
Arranjar campanhas de marketing de propósito para o Dia da Mulher é perverter a data.
Nós mulheres, devemos usar o Dia da Mulher para Lutas Mais Importantes!

Adoramos ler o que muitos homens escrevem no Dia da Mulher nas Redes Sociais (grandes louvores)! Também gostamos de saber o que eles fazem – e não fazem – nos restantes dias do ano…
E devemos fazê-lo Com os Homens.
Lutas Mais Políticas! E Mais Humanas!

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 Ler Também: Achas que o Dia da Mulher não faz sentido? Este texto é para ti.

O Partido Socialista Europeu, a experiência portuguesa e o futuro

«O Partido Socialista Europeu está em colapso e vai ser preciso mais do que uma retórica de preocupações sociais para resgatar a social-democracia
Os recentes estudos de opinião apontam para uma quebra do Partido Socialista Europeu (PSE) nas próximas eleições europeias e indiciam até o risco de os socialistas não chegarem sequer a ser o terceiro grupo político mais votado. Este é o debate sobre o definhamento e as ressurreições da social-democracia, um debate europeu por natureza. Bem a propósito, Pedro Nuno Santos (PNS) escreveu um artigo sobre os “desafios da Social-Democracia”, que identificou com a defesa do papel do Estado na redistribuição de rendimento e na proteção do trabalho.

Argumenta PNS, em tom de desafio ao próprio partido, que a atual experiência portuguesa não pode ficar-se por um curto parênteses na história do PS. E que história tem sido essa. Desde que Mário Soares meteu o socialismo na gaveta, passando pela viragem de Tony Blair ao neoliberalismo, até à submissão de Hollande à austeridade de Merkel. Ao longo das últimas décadas, o caminho da social-democracia tem sido sempre percorrido pela faixa da direita.

O parênteses é tão curto que ficam de fora todos os governos do PSE que, em Portugal e na Europa, durante décadas encabeçaram o movimento privatizador dos setores públicos e participaram na porta giratória entre negócios e cargos políticos. O programa eleitoral com que o PS concorreu às eleições legislativas de 2015 não é contrário a esta análise, antes a confirma. Foi o programa mais liberal que os socialistas portugueses alguma vez apresentaram.

É por isso que este não é um debate sobre os resultados positivos da solução portuguesa que, como se sabe, resulta de condições excepcionais. Se queremos discutir o país, só o podemos fazer olhando além do desfalecimento da social-democracia. Porque, se o tema é mesmo a social-democracia, o debate correto é sobre as razões profundas das suas limitações. Esses limites são a razão do colapso deste campo político, fundamentais e estratégicos nas suas escolhas, impossíveis de ultrapassar com apelos sobre preocupações sociais.

Aliás, uma lição retirada da história recente da esquerda europeia é a dos partidos que fizeram do seu programa a espera pela viragem à esquerda da social-democracia e acabaram por tornar-se irrelevantes ou foram absorvidos para a gestão da austeridade. Claro que experiência não é determinismo, mas revela que não é tudo uma questão de “boa vontade”. Ao contrário do que afirma PNS, o PS nunca esteve “obrigado” a governar com a direita, fê-lo porque quis governar como a direita. A sua conceção histórica de alternância tem sido a da gestão de turno das mesmas políticas e nunca a de contraponto de visões de sociedade.

Sim, foram os tratados e as regras europeias, às quais o PS não só não quer escapar como escolheu liderar através do Eurogrupo. Claro, é a pressão alemã, a recusa de reestruturar a dívida pública, a obsessão com o défice e a submissão aos mercados financeiros. Mas é mais do que isso.

A social-democracia, rendida política e ideologicamente à economia de mercado, não apresenta alternativa ao modelo conservador da austeridade. A fidelidade de alguns protagonistas ao modelo tradicional de redistribuição da riqueza para corrigir as desigualdades sociais esbarra na desregulamentação económica e financeira que eles próprios promoveram.

Num mundo globalizado de offshores e patrões internacionalizados, as ameaças de deslocalização da produção e de fuga de capitais são sempre quem ganha o braço-de-ferro entre privado e público. A política de redistribuição da social- -democracia assenta na capacidade do Estado de recolher impostos suficientes para financiar serviços públicos universais. Mas como praticar uma política redistributiva eficaz quando as grandes empresas fogem para a Holanda em busca de borlas fiscais?

Até agora, a resposta da social-democracia a este dilema tem passado por pouco mais do que embustes, da flexissegurança aos padrões sociais prometidos pela estratégia de Lisboa. Mas, quando foram confrontados com a crise dos mercados, esses mesmos governos acabaram sempre por hipotecar as contas públicas e ceder na legislação laboral.

Estes desafios agora lançados ao PS para resgatar a social-democracia não respondem à pergunta principal: como se protege o Estado social do saque permanente dos mercados financeiros numa economia de casino global. A resposta está na robustez do setor público, e o contraste pode ser feito com Jeremy Corbyn, que não tem saudades das regras europeias e dá sinais de querer um setor público significativo. Talvez por isso o Partido Trabalhista esteja em contramão também no apoio eleitoral.

Só o controlo público dos bens e setores estratégicos permite ao Estado intervir na economia e garantir serviços públicos fortes. Porque territorializa uma boa parte do investimento e do capital que as privatizações ofereceram aos mercados. Porque garante que empresas importantes não são desmanteladas, como aconteceu com a PT, nem saqueadas, como está a acontecer com os CTT. Porque dá ao Estado poder para impor outros fatores de competitividade que não a desvalorização salarial e a competição fiscal. E porque o setor público não foge para a Holanda para não pagar impostos.

A questão não é menor. A relação entre a degradação dos direitos sociais e o crescimento da extrema-direita está identificada. A incapacidade do centrão para lhe dar combate, também. A escolha entre a natureza pública ou privada dos setores estratégicos é determinante para a defesa da democracia.

Este é um desafio que a social-democracia não desconhece, apenas escolheu ignorar. Não sabemos se será sempre assim, mas uma coisa é certa. No vazio estratégico do centrismo lê-se o colapso da social-democracia europeia. Ideológico, porque abdicou de discutir o capitalismo. Político, porque aderiu ao programa económico e social que escolheu a desvalorização do trabalho e a desregulação como fator de competitividade na globalização financeira. O Partido Socialista Europeu está em colapso e vai ser preciso mais do que uma retórica de preocupações sociais para resgatar a social-democracia.»

Joana Mortágua (1)

Comentarium: Torna-se imperativo citar Joana Mortágua a esta altura do campeonato…

 

(1) Crónica no jornal I, 21/02/2018.