É natural? Boa pergunta! Uma reflexão…

Introdução

(Este texto não é um comentário ao que aos oradores disseram no TEDxPorto 2018 mas ao tema do mesmo.)

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Quem, como eu, gosta de ouvir e fazer discursos, fica com pena de não ser possível participar no TEDxPorto 2018, que aconteceu na semana passada, dia 14 de Abril. Tema: “É Natural?”.

Apresenta-se o evento, no seu sítio oficial, da seguinte forma:

«Como resultado do desenvolvimento contínuo e exponencial de milhares de anos de evolução, do conhecimento e da tecnologia, vivemos um mundo cada vez mais complexo e artificial – criado por nós, seres humanos. Hoje, desfrutamos, sem pensar, e com esforço mínimo, das inúmeras vantagens destes avanços.

Ainda assim, existe um sentimento generalizado que fomos longe demais e, por isso, procuramos objetos, conceitos e experiências mais simples e naturais, às quais temos maior apreço e reconhecemos maior genuinidade.

Um sentimento, sem dúvida, bem intencionado, mas será que nos levará mais longe e a um mundo melhor? Será que o que é natural é melhor do que o artificial? Em todas as condições e situações?

Na próxima edição do TEDxPorto pretendemos fazer compreender que o que é natural é complexo, e que algo artificial não é necessariamente mau.»

Comentários

  1. Efectivamente, vivemos num tempo em que a tecnologia e a medicina dominam o nosso quotidiano e isso é simultaneamente óptimo e péssimo.

Também vivemos em que tudo é sistematicamente, diariamente, posto em causa: e as culpadas desse progresso contínuo são as mesmas (tecnologia e medicina), endeusadas pelo mercado, abençoadas pela mão dos poderes invisíveis que não conhecemos (e a quem os Estados servem).

  1. Também vivemos na era da pós-modernidade… E esses progressos na tecnologia e a medicina trouxeram-nos até aqui!

A pós-modernidade é a desconfiança em relação à ciência, à razão, ao progresso e às grandes ideologias. Aqui, eu céptica me confesso: sim, sou pós-moderna!

A verdade é esta: a desconfiança na razão e no progresso tem razão de ser. Acaso eles trouxeram sempre benefícios?

3. Nada é assim tão natural…

Cito Yuval Noah Harari:

«Na verdade, os conceitos de “natural” e “não natural” não provêm da biologia mas da teologia cristã. O significado teológico de “natural” é “de acordo com as intenções de Deus, criador da natureza”. Os teólogos cristãos argumentam que Deus criou o corpo humano com a intenção de que cada membro e órgão servisse um propósito. Se usarmos os nossos membros e órgãos para o propósito pretendido por Deus, então trata-se de uma actividade natural. Usá-los de forma diferente da que Deus pretendia não é natural. Contudo, a evolução não tem um propósito. Os órgãos não evoluíram com um propósito e a forma como são usados está em constante alteração. Não existe um único órgão no corpo humano que só faça o que o seu protótipo fez quando surgiu, há centenas de milhões de anos.»

Então, é assim…

Para um biólogo, um químico, um bioquímico, um informático e um médico os processos que os nossos órgãos fazem e não fazem são artificiais, logo não é nada escandaloso que eles sejam regulados exteriormente. Por um comprimido, por exemplo.

Para alguém muito religioso, as coisas não são assim tão simples. Estamos a interferir no espaço de Deus. Veja-se a campanha dos católicos contra a pírula, à uns anos atrás.

Um praticante de medicinas alternativas tem as mesmas ideias que alguém religioso: só o que fazemos e/ou trazemos da natureza tem legitimidade. Tudo o resto não presta, só faz mal.

4. Um exemplo: a medicina chinesa!

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A chamada medicina chinesa surgiu entre 4115 e 4365 a. C. Beneficiou da invenção da escrita e da metalurgia (tudo coisas artificiais, note-se). E do apoio de dinastias de imperadores.

Mao Tsé-Tung inicialmente era contra a medicina chinesa, que considerava apenas uma superstição entre outras. Mas mudou de opinião em 1954, ano em que criou o Departamento de Medicina Chinesa no Ministério da Saúde Pública (Medicina Oriental). Mao planeou, mais tarde, a integração da medicina ocidental na medicina chinesa.

No entanto Mao voltou a mudar de ideias e, no âmbito da Revolução Cultural, Entre os anos 1966 e 1971, a medicina chinesa foi banida. Mas não por muito tempo! Não foi aí que morreu, antes pelo contrário!

É preciso então perceber que a medicina chinesa é uma construção artificial, que pode ter efeitos secundários que podem colocar a saúde em risco (como qualquer medicamento) e por outro pode trazer benefícios nalguns (muitos) casos. Mas nunca em todos os casos. É assim que eu vejo a medicina chinesa e todas as outras medicinas alternativas.

5. A Ética não é Natural?

O calcanhar de aquiles da medicina convencional, de todas as medicinas ditas alternativas ou complementares, da indústria farmacêutica, das outras industrias importantes na dieta e na vida (indústria alimentar, nomeadamente) no século XXI é sempre o mesma: cadê a ética?

Como referi atrás vivemos no tempo do deus mercado, por isso todos podem tomar decisões menos éticas. Não existe a boa medicina convencional versus as más medicinas ditas alternativas. Ou o contrario! Todos podem tomar decisões baseados em critérios que prejudiquem quem é doente. Ou quem precisa de comer.

Conclusão

Como foi possível perceber pelo texto, nada é assim tão natural! É necessário aceitar que para vivermos precisamos de um mínimo de artificialismo que ele é benéfico para nós.

Fomos longe demais no endeusamento do deus mercado: e é isso que torna hoje a ciência e a tecnologia letais. Portanto eu sou pós-moderna por não ter outra opção. Aceitar acriticamente a ciência e o progresso é tão grave como acreditar em certos gurus que advogam o “natural” acima de tudo!…

Para mim a medicina convencional e todas as medicinas ditas alternativas ou complementares deviam ser obrigadas por lei a conviver pacificamente. E todos os charlatães deviam ser punidos com prisão e multas avultadas.

Ver Também:

Leituras: Ciência da treta e medicina baseada na evidência

Leituras: Farmacêuticas, neo-colonialismos e a falta de ética médica
Medicina convencional sim, medicinas alternativas sim!
Cuidado: conselhos de “saúde” das celebridades!…

Para Saber Mais:
Você é pós-moderno?
Biopolítica por Leonor Nazaré (artigo de opinião no jornal Público)
O Pós-Modernismo…um Movimento a Conhecer e Erradicar (opinião no sítio SCIMED)
ANTICONCEPCIONAL: o que ensina a Igreja Católica sobre isso?
Medicina Chinesa PT – História

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Foi um debate mas também foi outra(s) coisa(s)

Fui assistir a um debate sobre um tema muito interessante e muito actual: inteligência artificial!

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Sobre o debate:

Os convidados / oradores pareceram-me ser pessoas conhecedoras do assunto e bem formadas.
O moderador esteve extremamente bem no seu papel!
Mas… quem assistia ao debate era convidado constantemente a votar através de uma app, respondendo assim a perguntas que eram feitas ao longo da sessão.

De repente senti-me nas eleições norte-americanas, onde no final de cada debate as intenções de voto são medidas. Não gostei dessa parte. Isso fez-me lembrar Richard Thaler, Daniel Kahneman e outros.

Será que as associações agora também fazem experiências sociais? A resposta é sim. Portanto sorria, está no século XXI!

Feminismo Quotidiano: Dia da Mulher é apenas dia de vender?

Como nasceu o Dia da Mulher…
«Se fosse possível fazer uma linha do tempo dos primeiros “dias das mulheres” que surgiram no mundo, ela começaria possivelmente com a grande passeata das mulheres em 26 de fevereiro de 1909, em Nova York.
Naquele dia, cerca de 15 mil mulheres marcharam nas ruas da cidade por melhores condições de trabalho – na época, as jornadas para elas poderiam chegar a 16h por dia, seis dias por semana e, não raro, incluíam também os domingos. Ali teria sido celebrado pela primeira vez o “Dia Nacional da Mulher”.

Enquanto isso, na Europa também crescia o movimento nas fábricas. Em agosto de 1910, a alemã Clara Zetkin propôs em reunião da Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas a criação de uma jornada de manifestações.
“Não era uma questão de data específica. Ela fez declarações na Internacional Socialista com uma proposta para que houvesse um momento do movimento sindical e socialista dedicado à questão das mulheres”, explicou à BBC Brasil a socióloga Eva Blay, uma das pioneiras nos estudos sobre os direitos das mulheres no país.
“A situação da mulher era muito diferente e pior do que a dos homens nas questões trabalhistas daquela época”, disse ela, que é coordenadora da USP Mulheres.
A proposta de Zetkin, segundo os registros que se têm hoje, propunha uma jornada anual de manifestações das mulheres pela igualdade de direitos, sem exatamente determinar uma data. O primeiro dia oficial da mulher seria celebrado, então, em 19 de março de 1911.
Em 1917, houve um marco ainda mais forte daquele que viria a ser o 8 de Março. Naquele dia, um grupo de operárias saiu às ruas para se manifestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial, movimento que seria o pontapé inicial da Revolução Russa.
O protesto aconteceu em 23 de fevereiro pelo antigo calendário russo – 8 de março no calendário gregoriano, que os soviéticos adotariam em 1918 e é utilizado pela maioria dos países do mundo hoje.
(…) O chamado “Dia Internacional da Mulher” só foi oficializado em 1975, ano que a ONU intitulou de “Ano Internacional da Mulher” para lembrar suas conquistas políticas e sociais.
(…) O dia 8 de março é considerado feriado nacional em vários países, como a própria Rússia, onde as vendas nas floriculturas se multiplicam nos dias que antecedem a data, já que homens costumam presentear as mulheres com flores na ocasião.» (BBC Brasil)

A situação em Portugal, 2018…

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As datas tornam-se vazias com o tempo, meros fenómenos de marketing… Acontece com o dia 8 de Março, acontece com o 25 de Abril, acontece com muitos dias do ano em que se comemoram coisas importantes.
Cada vez menos pessoas sabem ou querem saber o porquê de qualquer data!
Vivemos numa recessão económica provocada por anos de austeridade, aliás que ainda não terminou. Por isso todos precisamos de objectos gratuitos. E gostamos – sempre gostámos – que nos oferecerem coisas.
Mas as mulheres não precisam de flores no dia da mulher. (Adoro flores mas dispenso que mas ofereçam no Dia da Mulher. A menos que saibam porque as oferecem…)
Muitas mulheres gostam de ler, mas não precisam que lhe ofereçam livros no Dia da Mulher.
Quase todas as mulheres usam cremes, mas não precisam que lhe ofereçam cremes no Dia da Mulher.
Muitas mulheres gostam de chocolates, mas ninguém precisa que lhe ofereçam chocolates no Dia da Mulher. (Adoro chocolates mas dispenso que mas ofereçam no Dia da Mulher.)
Dar um desconto especial por ser Dia da Mulher é ridículo.
Arranjar campanhas de marketing de propósito para o Dia da Mulher é perverter a data.
Nós mulheres, devemos usar o Dia da Mulher para Lutas Mais Importantes!

Adoramos ler o que muitos homens escrevem no Dia da Mulher nas Redes Sociais (grandes louvores)! Também gostamos de saber o que eles fazem – e não fazem – nos restantes dias do ano…
E devemos fazê-lo Com os Homens.
Lutas Mais Políticas! E Mais Humanas!

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 Ler Também: Achas que o Dia da Mulher não faz sentido? Este texto é para ti.

Razões para o sucesso das telenovelas da TVI (e das telenovelas portuguesas em geral)

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Já não há motivo para analisar as telenovelas da televisão portuguesa. O diagnóstico é crítico: enredos sem pés nem cabeça e temporadas infindáveis!
Este post limita-se a tentar perceber porque as pessoas as vêem. Dirige-se de maneira particular às telenovelas da TVI mas a lista seguinte também de aplica às dos outros canais do TDT.
Eis as razões do sucesso:

– As dos outros canais são igualmente más;
– As pessoas estão habituadas às novelas da TVI e não sabem mudar de canal;
– As pessoas apenas gostam de ver “gajas boas”, não estão preocupadas com a verossimilhança da história;
– As pessoas gostam de praticar o escapismo: a fuga à realidade está bem e recomenda-se;
– As pessoas recusam-se a raciocinar.

Inspirado por: Telenovelas portuguesas & Aceita que dói menos: Walcyr Carrasco é o melhor autor de novelas do mercado…

Última Actualização: 27/03/2018