Leituras: A Criação do Mundo e Bichos, de Miguel Torga

Torga-conjunto (1)

Porquê Ler Miguel Torga
Depois de refazer a Rota de Miguel Torga em Leiria, durante o II Encontro de Booktubers, senti muita urgência em lê-lo. E foi importante para mim começar pel’A Criação do Mundo, obra que testemunha a sua passagem por Leiria.
À Parte Biográfico: Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha) nasceu em São Martinho de Anta em 1907 e morreu em Coimbra. Foi médico e escritor. Casado com a belga Andrée Crabbé desde 1940. A filha dele, Clara Crabbé Rocha, é especialista em literatura portuguesa e professora universitária.

A Criação do Mundo: muita autobiografia e alguma ficção
Existem várias versões d’A Criação do Mundo: primeiro saíram em livros separados, em edição do autor. Total: 6 volumes. O primeiro publicado em 1937, o ultimo em 1981. Mais tarde uma editora fundiu todos os volumes num só livro.
Eu li a versão original da obra. Comecei no primeiro volume e já não consegui parar, de tal maneira a leitura me entusiasmou. Trata-se de uma ficção autobiográfica: o protagonista é o médico Mário de Araújo, muitos nomes de lugares e pessoas são mudados, algumas situações são adaptadas. Mas, no essencial, quase tudo escrito aqui foi vivido por Miguel Torga. Este universo ficcional teve como vantagens a fuga à censura do Estado Novo. Mesmo assim o terceiro volume da obra foi apreendido pouco de depois de editado, em 1939.
N’A Criação do Mundo assistimos ao crescimento de um homem é à evolução do pensamento, desde a infância até à maturidade. Mário de Araújo (ou Miguel Torga) é simultaneamente um homem da terra provinciano (tinha orgulho nas suas raízes) e um cosmopolita militante. Nunca aceitou o Estado Novo e procura mostrar nesta obra o quanto esse regime fez mal a Portugal.
Nesta obra fala-nos tanto de temas universais como íntimos. Achei muito interessante que ele, ao falar das razões para se ter casado, referisse que desejava que a sua esposa o visse como mais que um pai de família, mas também como um poeta e pensador. Penso que poucos homens diriam isso naquela época. (1)
Mário de Araújo (ou Miguel Torga) não se apresenta nem como o “herói” nem como o ”vilão” da sua história. Descreve os seus defeitos e qualidades, mas não aprofunda muito essa parte. E também não se faz de vítima: a dignidade herdada do seu pai manifesta-se ao longo do relato.
Tal como me aconteceu a mim, penso que é fácil os leitores se identificarem com Mário de Araújo (ou Miguel Torga): as situações que ele descreve fazem parte do dia-a-dia. A Criação do Mundo pode ser lida por gente dos 15 aos 100 anos (ou mais): quem pensar bem, vai encontrar alguma ligação com a sua própria vida.

O olhar de Miguel Torga sobre Leiria
Mário de Araújo (ou Miguel Torga) viveu e trabalhou entre 1939 e 1940-1941. Isso coincidiu com a apreensão do 3º volume d’A Criação do Mundo e a sua prisão. Depois de liberto, voltou para Leiria, casou, e aqui viveu mais algum tempo até se fixar em Coimbra. A passagem por Leiria teve por isso um sabor agridoce. Foi também uma espécie de derradeiro amadurecimento.
Depois de se fixar em Coimbra, Miguel Torga voltará a Leiria várias vezes. Miguel Torga tinha plena consciência das dificuldades de ver mais longe dos leirienses (lá está, não por acaso ele foi preso em Leiria) mas ao mesmo tempo sabia que havia coisas boas em Leiria. Miguel Torga é optimista em relação a Leiria.

Os Bichos
Os Bichos são contos… sobre bichos! E bichos são os animais selvagens, os animais domésticos e os seres humanos.
E Miguel Torga inventa histórias de bichos com mestria. Apresenta-nos pessoas e animais em comunhão com a natureza.
Este livro foi publicado em 1940 e nota-se nele a ligação do autor à sua terra natal.

Concluindo
Tal como Nelson Zagalo, sinto-me agradecida por ter lido A Criação do Mundo e Bichos, de Miguel Torga neste magnífico e péssimo ano de 2019.

Para Saber Mais:
Espaço Miguel Torga
Miguel Torga na Biblioteca Nacional de Portugal
A Criação do Mundo de Torga no blogue Virtual Illusion

(1) Seria exagero da minha parte dizer que Miguel Torga era feminista.