Introdução: Ler Umberto Eco 22 anos depois
Li pela primeira vez um livro de Umberto Eco há cerca de 22 anos, quando estava a tirar o meu curso profissional de biblioteca. Desde então Umberto Eco sempre fez parte da minha vida; li alguns dos seus romances, voltei a encontra-lo quando me licenciei em Comunicação Social e li algumas das muitas entrevistas que deu em vida.
Por isso decidi aproveitar 2019 para aprofundar este autor, para perceber se houve ou não evolução no seu pensamento. A primeira conclusão é que há muito ainda para ler dele. Mais conclusões virão depois (ou não).
Umberto Eco, breve resumo biográfico
Umberto Eco (1932-2016) foi um semiólogo, filósofo, escritor, tradutor, académico, bibliófilo e especialista na Idade Média italiano. Escreveu numerosos ensaios e romances de sucesso.
Em 1971 ele foi um dos inspiradores do primeiro curso da DAMS (uma disciplina dedicada à análise da arte, da música e do espectáculo) na Universidade de Bolonha. Nesta universidade, na década de 80 do século XX, Umberto Eco promoveu a criação do curso de licenciatura em Ciências da Comunicação, já existente em outras localidades. Em 1988 fundou o Departamento de Comunicação da Universidade de San Marino. Desde 2008 ele era professor emérito e presidente da Escola de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha. A partir de 12 de Novembro de 2010, Umberto Eco foi membro da Accademia dei Lincei, para a classe de Ciências Morais, Históricas e Filosóficas.
Filho de um empregado das ferrovias, na sua juventude pertenceu ao GIAC (o então ramo juvenil da Acção Católica) e no início dos anos 50 ele foi chamado a ser um dos líderes nacionais do movimento estudantil da Acção Católica. Em 1954, ele deixou o cargo em polémica com Luigi Gedda.
De acordo com Umberto Eco, foi durante os seus estudos universitários sobre Tomás de Aquino que ele deixou de acreditar em Deus, tornando-se ateu.
Depois da licenciatura em filosofia em 1954, com uma tese sobre Tomás de Aquino começou a interessar-se pela filosofia e cultura medievais, um campo de investigação nunca abandonado. A esse campo juntaram-se mais tarde outros dois: o estudo semiótico da cultura popular contemporânea e a investigação crítica da experimentação literária e artística.
Em 1956 Umberto Eco publicou o seu primeiro livro: a sua tese de licenciatura, revista e aumentada.
Apocalípticos e Integrados
Apocalípticos e Integrados foi publicada a primeira vez em 1964 e revista em 1977.
O livro é composto maioritariamente por análises de banda desenhada, canções populares (que o autor chama “canção de consumo”) e das obras televisivas.
O autor diz nas primeiras páginas que quando editou o livro não estava preparado para a polémica que ele desencadeou: pensava que apenas estava a fazer o ponto de situação de um debate ultrapassado. De facto, essa polémica nunca terminou, até hoje: O cânone ocidental, de Harold Bloom (publicado originalmente em 1994) insere-se nela.
De que polémica se trata? Entre três grupos:
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- Os que dizem que o mundo está perdido porque existe cultura de massas e existem pessoas (nomeadamente os semiólogos) interessadas em analisá-la criticamente. A esses é que Umberto Eco chama, provocatoriamente, de Apocalípticos.
«No fundo o apocalíptico consola o leitor, porque lhe deixa entrever, sob o pano de fundo da catástrofe, a existência de uma comunidade de “super-homens” capazes de se elevarem, quanto mais não fosse através da recusa, por sobre a banalidade média. Em último caso, a comunidade reduzidíssima – e eleita – de quem escreve e de quem lê, “nós dois, tu e eu – os únicos que percebemos, e que estamos salvos: os únicos a não serem massas”. Dissemos “super-homens” pensando na origem nietzschiana (ou pseudo- nietzschiana) de muitas destas atitudes. Mas foi dito com malícia, pensando na malicia com que Gramsci insinuava que o modelo do super-homem nietzschiano devesse ser procurado entre os heróis da narrativa oitocentista em folhetim, no Conde Monte Cristo, em Athos, em Rodolfo de Gerolstein ou (concessão generosa) em Vautrin.» (Umberto Eco)
- Os Integrados, que dizem que o facto de existir cultura de massas é um bem em si mesmo e recusam-se a tecer criticas sobre aos produtos da cultura de massas que vendem bem (a sua atitude: se alguma coisa tem sucesso no mercado, está acima de qualquer critica).
- Um terceiro grupo, de que Umberto Eco faz parte. São os tais que analisam criticamente a cultura de massas sem a vilipendiarem (e que Harold Bloom chama de Escola do Ressentimento).
Neste livro, Umberto Eco dedica um capítulo à defesa da cultura de massas. E na sua análise da televisão considera que todo o espectador é um consumidor-cidadão. Todo o livro tem propostas de investigação que hoje estão desactualizadas (já foram feitas e refeitas decerto) mas foram inovadoras na época.
Leitura de: Umberto Eco, Apocalípticos e integrados (Lisboa, Difel, 1991).
Fonte do Resumo Biográfico: Umberto Eco na Wikipédia em Italiano.
Última Actualização: 20/01/2019