A sabedoria de José Vitorino Guerra

«Na cultura política portuguesa subsiste um velho hábito, herdado da mentalidade salazarista e mesmo do jacobinismo da 1ªRepública, que inquina, ainda, a vida pública e se traduz na tendência totalitária de ver o mundo a duas cores: preto e branco. Ou seja, ou estás por nós ou contra nós. Não existem tonalidades, nem a possibilidade de alterações cromáticas. Por exemplo, se gostas do actual governo, não o podes criticar nem manifestar discordância, quando achas que ele comete erros. Tens a obrigação de guardar um prudente silêncio, de amarrar a tua consciência e de varrer o lixo para debaixo do tapete. Esta situação agrava-se se fores militante! Podes ter passado a vida, perante o silêncio de demasiados, a criticar o passado governo, mas se criticas este, estás do lado do adversário. Aplica-se a velha máxima do PREC: “aliado objectivo da reacção”. Esta situação pode ser repetida e replicada em diferentes instâncias e níveis de poder, desde a junta de freguesia ao governo, a qualquer tipo de governo. No fundamental, este quadro de pensamento traduz uma visão restritiva da liberdade de pensamento, da liberdade de expressão e do direito à crítica. Em grande parte, por isso, a vida pública é tão pobre e conformista, perante os actos do poder. E se porventura não te calas e continuas a criticar, logo vêm os juízos de valor, as diversas considerações sobre a tua pessoa e o ostracismo, quando não se interrogam: ” mas o que é que o gajo quer?” “Só sabe dizer mal”. “Fala, mas nunca fez nada na vida.” Portanto, caro leitor, se tem ambições políticas, escolha um dos lados, coloque-se debaixo do pálio e, sobretudo, cale-se! Lembre-se: ” o calado é bom homem”! Procure insinuar-se junto de quem tem poder ou frequenta os corredores de acesso, mostre-se sempre reverente e agradecido. Se possível torne-se membro de uma organização filantrópica, dessas que praticam a caridade junto do poder. É bom ter amigos influentes! E olhe que, em termos históricos, a liberdade em Portugal sempre foi um luxo! Há-de ver que rapidamente chega a sua hora.»
José Vitorino Guerra (1)

(1) No Facebook em 15/07/2017.