A sabedoria de Vasco Santos

«Na esteira de Paul Ricoer, o que me interessa mais na leitura deste mito é a ideia de que Édipo é a tragédia da verdade. Ilustra que o sujeito não sabe toda a verdade sobre si próprio. Eu nunca me vou olhar de frente. Nunca saberei tudo sobre mim mesmo, e é isto que me torna um ser trágico. O inconsciente é o outro de mim mesmo. Ora, hoje estamos num tempo em que este homem trágico perdeu valor, e isto é o pilar da psicanálise e, de alguma maneira, da cultura ocidental. Nós temos uma versão deste mito em Hamlet. Aliás, o Harold Bloom chega a dizer que a psicanálise não é mais do que o Shakespeare aplicado. E é verdade que o Freud nutria pelo Shakespeare uma admiração e até inveja brutais. Hamlet é o Édipo moderno. Há três Édipos: o de Sófocles, o Hamlet, e depois temos os irmãos Karamazov. Hoje em dia, esta concepção dos nossos conflitos está muito debilitada. A ideia de pulsão foi substituída pela ideia do ‘Eu’. A palavra desejo está enfraquecido e passou a falar-se é de prazer. E o prazer é o prazer imediato. De resto, o conceito de pós-verdade mostra-nos que para a forma como hoje se encara o mundo os factos interessam cada vez menos. Édipo cede terreno para dar lugar a Narciso. É evidente que para vivermos temos de ter uma certa dose de narcisismo, mas nesta época o narcisismo extravasou o impulso vital, é um narcisismo maligno. Isto tem implicações no nosso modo de estar, na disponibilidade para os outros.»

«Chegados a este momento, em que há este fetichismo da imagem, uma instagramação da vida… Às vezes vou almoçar e fico espantado com a quantidade de pessoas a fotografarem a comida. Hoje, estava um casal a almoçar que passou cerca de hora e meia ali, os dois agarrados ao telemóvel. Isto depois tem repercussões, como é evidente, também ao nível de uma psico-sexualidade. Freud aprofundou essa noção lembrando que a sexualidade não é uma coisa natural. Há um lado psíquico, e demonstrou que a sexualidade humana é bi-fásica. Hoje tendemos para uma naturalização da sexualidade, que se tornou uma espécie de aeróbica. O lado físico sobrepõe-se. Estou no Tinder, procuro alguém disponível num raio de não sei quantos quilómetros, e vamos a isso. Isto, evidentemente, leva ao afrouxar do lado pulsional da sexualidade. Neste quadro não é o desejo que prevalece mas o instinto, ou seja, voltamos à natureza.»

«O capitalismo conseguiu esta coisa magnífica: que a mercantilização chegasse ao amor. Tenho uma aplicação que me diz que a três quilómetros há um homem ou uma mulher a fim de ter relações sexuais comigo. Isto não é uma psico-sexualidade, porque isso implicaria desejo, uma construção… Agora, as pessoas chegam lá e até mudam de ideias: “Não, não gosto. Não me apetece. Afinal, a tipa é mais gorda do que eu esperava, tem óculos. Não quero.” É como se você chegasse a uma loja e se pusesse a escalpelizar o produto em busca de defeitos. Há, portanto, um capitalismo triunfante que vive de duas coisas: da mercantilização de tudo e da catástrofe.»

«Para o nosso próprio projecto de identidade contamos com uma expectativa de continuidade e esperança, ou ilusão. Quando perdemos a ilusão adoecemos. A doença mental é a perda da ilusão. Donald Winnicott estudou a fundo esta questão: ilusão, perda da ilusão, re-ilusão… Se lhe dizem que para o ano tudo só vai piorar, você não está preparado para isso. E esta precariedade vai até à reputação. Hoje, posso ser um tipo famoso, mas se um dia vou à televisão e toco no joelho de uma senhora, dando origem a um mal-entendido qualquer, fico sujeito ao rolo compressor deste fascismo moral, que manda a minha reputação por água abaixo. E um processo destes é quase incontestável, porque estamos num tempo de pensamento quase único.»

«Acho graça aos poucos críticos literários que ainda saem da linha porque imediatamente parecem seres de outro planeta. Esta uberização da crítica, com as estrelinhas, sempre as mesmas editoras, e um tipo de sanitização em que se tenta prevenir a todo o custo qualquer polémica. Não há réplica, nem tréplica… Porra, pá! Mas como assim? Isto agora vai ser tudo com paninhos quentes? Há quem não se dê conta de que isto já nem faz parte da história cultural do Ocidente. O que é que seria da Literatura se este fosse o modelo há séculos.»

«Acho muito interessante que não tenha havido um movimento contra o que fizeram à Bertrand no Chiado. Destruíram o conceito de livraria e adoptou-se um modelo em que, em vez da diversidade, em vez de se consultar os livros pela lombada, eles estão de frente para nós. Prescinde-se de ter acervo, optando pelo modelo publicitário. Na montra estão quatro livros. Tudo é montra! Tudo é instagramação. E não vi ninguém protestar contra isso.»

«Mas vamos sempre dar à moeda. Não creio que a coisa se passe assim nos países escandinavos, onde os livros são comprados pelo Estado para as bibliotecas. Não é que não haja livrarias, mas há uma política cultural diversificada. Aqui, sentimos que o modelo americano penetrou com toda a sua ferocidade, seja na tecnologia, seja no entretenimento, seja na cultura, e impôs esse modelo dos show-rooms. O escritor já não precisa só de escrever bem, de ter imaginação, tem de ter uma certa figura, uma certa postura, fazer equilíbrios de salão. »

Vasco Santos (1)

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(1) Entrevista ao jornal I, 21/05/2018.

Vasco Santos é psicanalista. Foi editor da Fenda, que faliu há alguns anos atrás. Criou recentemente a editora VS.

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