La Féria, Annarella e a Cultura em Leiria (14-05-2018)

«No passado fim de semana parte da comunidade Leiriense indignou-se com as declarações que Filipe La Féria fez num programa televisivo. Não vi o programa em causa, mas terá dito que Leiria é uma cidade onde não há cultura, e onde a Escola de Dança da Annarella Sánchez veio oferecer-nos finalmente um projecto que nos distingue artística e culturalmente. Vamos por partes.
É inquestionável o empreendedorismo da Annarella, e a sua capacidade de liderar um projecto em pirâmide que se espalha por pequenos polos da cidade e região. Rodeada por um grupo de profissionais dedicados, que também soube captar e fixar em Leiria, tem vindo a consolidar o rastreio de especiais aptidões, e motivar alunos e suas famílias para a área da Dança numa estratégia de forte consistência. É particularmente significativo, como já tive oportunidade de escrever e divulgar, a visão mobilizadora de captar para o seu projecto de ensino um número surpreendente de famílias de fora do país, que trocam cidades europeias por Leiria para a educação dos seus filhos. Temos todos de lhe tirar o chapéu, e agradecer pelo seu exemplo de resiliência, pela sua tenacidade e ambição (que não é demérito). Conheço alguns dos seus mais proeminentes alunos e seus pais das aulas de Berço das Artes que frequentaram na sua primeira infância, e são na verdade talentos invulgares que não se teriam revelado sem o trabalho de Annarella Sánchez. Muito obrigado Annarella.

Mas, importa compreender um pouco mais do que é a indústria televisiva que deu origem ao presente debate. O nível cultural de uma cidade não se mede pelos títulos ganhos no Got Talent. O Got Talent nada tem a ver com talento artístico, tem somente a ver com negócio. O que é de todo legítimo, também importa referir. É feito para vender publicidade, e, como tal, seleciona e promove quem melhor serve para esse fim. Usa (abusa de?) quem procura notoriedade, e não quem tem necessariamente talento. Assim como o nível musical de um país não se mede pela quantidade de títulos do Festival da Eurovisão. Também o Eurofestival é um negócio televisivo (e político) que usa como conteúdos uma montra de produtos atraentes onde a arte musical não entra. Podemos interrogar-nos porque não entra, e porque é atraente o fogo de artifício e não uma orquestra ao vivo, mas os produtores televisivos cedo descobriram que há mais espectadores a ligar e permanecer em frente a um ecrã com um banho de fogo e uma realização psicadélica do que com uma boa voz, uma melodia inovadora, um bom arranjo, e uma orquestra ao vivo que, sendo cara, é muito mais barata do que os meios tecnológicos contratados para o que durante 3 noites foi emitido para todo o mundo. Se de arte e cultura se tratasse não deixavam a decisão nas mãos de televotos. Estes programas, muito bem estudados pelo marketing, escolhem jurados pelas suas qualidades e mais valias de comunicação, muitas vezes pela sua excentricidade e carisma televisivo, e não pelas suas competências artísticas. São vendedores assistentes e não Jurados. O televoto é hoje um negócio controlado por empresas nacionais e internacionais especializadas, com objectivos de mercado, e cada vez mais, também políticos, como se sabe. O senhor Filipe Lá Féria tem todo o direito de promover as suas revistas pelos teatros municipais do país, e de menosprezar aqueles que o não contratam. Mas também aqui, o nível cultural de uma cidade não se mede pelo número de espectáculos e de espectadores dos produtos La Féria. Então em que se mede a cultura de uma cidade e o nível cultural dos seus habitantes?
Mede-se pelo número daqueles para quem a cultura é o meio privilegiado de expressão, de representação da sua identidade. Mede-se pelo número de livros que lêem por ano, pelo número de bibliotecas e dos seus leitores. Importam os projectos profissionais de música, dança e teatro? Sim, mas importa igualmente (mais?!) o número de pessoas que se junta todas as semanas para dançar e tocar nos Ranchos e nas Bandas Filarmónicas, e depois para actuar em festas, feiras e romarias numa relação fecunda e histórica com as gentes, os territórios e as memórias. Importam os coros e os grupos de música tradicional. Importam todas as escolas de dança, de música e de teatro. Importam os museus e os festivais, as bandas de liceu e de garagem. Importa o número de galerias, de realizadores de cinema, de poetas, de arquitectos, mas também de publicações dedicadas à cultura, revistas e jornais, físicos e online. Quantas páginas de futebol têm os nossos jornais e quantas de cultura? Quantos jornalistas especializados em cultura pertencem aos quadros da nossa comunicação social? Importam as conversas de café e os espaços que nos estimulam a imaginação e o pensamento. Importa a gastronomia histórica e criativa. Importam-nos todas as Annarellas e Casalinhos, mas não por terem ganho o Got Talent. Também nos importa o número daqueles que individual ou empresarialmente tiveram a capacidade de se profissionalizar no universo das artes e da cultura, tanto quanto todos os outros que a praticam amadoramente no seu dia a dia. Leiria, como todo o Portugal e boa parte da Europa, tem alguns destes indicadores em baixo. Mas não tem de que se envergonhar, antes pelo contrário. Alguém faz ideia de quantos leirienses de todas as gerações se encontra semanalmente para cantar, tocar, dançar e fazer teatro?»

Paulo Lameiro (1)

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