Leituras: Mergulhar nos aos 60 com José Cardoso Pires!

«Então como hoje ele sabia que na sua tragédia individual existiu uma parte maior de erro colectivo; que as sociedades de terror se servem dos crimes avulsos para justificarem o crime social que elas representam por si mesmas e que em todos esses crimes a sua mão está presente, em todos.»

José Cardoso Pires

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Há autores que não são fáceis de ler. Talvez façam mesmo questão disso. Mas isso não os torna melhores nem piores: apenas diferentes. Assim acontece com José Cardoso Pires.

(Nota lateral: demorei cerca de 20 anos a terminar este livro mas valeu a pena!)

José Cardoso Pires conviveu com neo-realistas e surrealistas. Parece-me ter sido influenciado por todos, e pelo noveau roman francês. E ainda por toda a literatura mundial (sobretudo ingleses, franceses e russos). E ainda por tudo o que viveu.

Este romance mistura história de Portugal e investigação policial. Somos convidados a mergulhar na atmosfera do Estado Novo dos anos 60 do século XX.

A base da história é um acontecimento real: Revolta da Sé de 1959, a prisão dos implicados, a sua fuga e por fim a morte do capitão Almeida Santos. José Cardoso Pires cria uma ficção para esta realidade e dá um novo nome ao assassinado (major Dantas Castro).

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Duas personagens para não esquecer:

Elias é o personagem central da história, à volta do qual gira toda a acção. A sua solidão e o seu conformismo (com o regime e com os clichés da sociedade), mas também a sua ironia e perversão são acompanhadas do início ao fim do livro. É o único personagem que realmente ficamos a conhecer bem. Os outros são sombras que passam…

Mena é uma personagem de importância secundária mas ainda assim fundamental: amante do morto, presa na judiciária e objecto de fantasia de Elias. Vitima sempre.

Este romance tem objectivos claramente políticos: lembrar como era a vida antes do 25 de Abril!

Um livro para ler devagar.

Nota: Existe um filme, feito a partir do livro, de José Fonseca e Costa, que me parece ser bom.

Para Saber Mais:

Revolta da Sé na Politipédia

Michele Dull Sampaio Beraldo Matter, “Uma existência em redoma: A Balada da Praia Dos Cães e a documentação de Portugal”. In Convergência Lusíada, nº 28, (Julho – Dezembro de 2012).

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