Citações para Memória Presente (e Futura) (25)

Dois lados da mesma moeda:

«Até ao momento os processos judiciais envolvendo José Sócrates e Manuel Pinho parecem ter produzido um resultado: quem se sinta livre para apreciar de forma crítica qualquer actuação processual, desde logo do Ministério Público, ou qualquer aberração da imprensa, corre o risco sério de ser imediatamente considerado um apologista da corrupção, um vendido aos donos disto tudo, um defensor encarniçado e, logo, provavelmente também corrompido por aqueles que caíram agora em desgraça.

Parece que só duas posições extremas são possíveis. Ou se está em absoluto pela “limpeza”, essa solução final que permite justificar tudo, ou se está contra essa impoluta e virtuosa posição, do outro lado da trincheira, ombro com ombro, camarada das sombras e chafurdando em maços de notas que se espalham displicentemente aos nossos pés.

(…) Claro que são conhecidos hoje alguns factos e várias dúvidas que não aconselhariam José Sócrates para o exercício de cargos públicos. E isto não é – já imagino os comentários – o maior understatement do dia… É apenas o que existe até ao momento. Mas a “alternativa digna” será, portanto, aceitar tudo o que nos é posto à frente desde que seja alegadamente em nome da “luta contra a corrupção”? É isso que também o PS afinal quer, como espécie de libertação moral desse agora descoberto jugo – democrático – que foi o período 2005-2011? Espero bem que não, porque a história ensina à saciedade que em nome da moral pública e da luta contra as corrupções se construíram, no meio dos festejos e da alegria popular, máquinas de barbárie e de opressão em quase todos os séculos. Dizer isto é ser “socrático”, um defensor das sombras na governação? Bem, se for, estamos pior do que julgamos.»

Miguel Romão (1)

«O que assistimos em matéria de alegados crimes cometidos por Sócrates, Salgado, Pinho, Dias Loureiro e tantos e tantos é moralmente intolerável, é talvez uma das maiores crises que o Estado viveu nestes anos – a pouco e pouco vão saindo notícias que dão conta, a se provar, de um assalto ao Estado da classe política associada ao Bloco Central. O mesmo Bloco Central que se faz agora de morto, e sem passado, dizendo “que cabe à justiça julgar”, como se este não fosse um caso de regime e apenas “mais um como tantos processos”. Não é mais um – é o processo. É verdade que cabe à justiça julgar. Mas a justiça não é só a aplicação da lei. Há uma ética que convoca os partidos a pedirem desculpas ao país pela – alegada – quadrilha que o colocaram a gerir. Não descansem na opinião publicada. A opinião pública está furiosa – não saio à rua sem que várias vezes por dia, idosos, trabalhadores de vários sectores e pequenos empresários me abordem dizendo “isto é uma vergonha”, “que roubalheira”, “já não acredito em nada”. O Correio da Manhã vende crime, e sexo, mas também espelha os sentimentos populares que não têm expressão na imprensa mainstream porque o popular em Portugal é tido como ignorante. Muitas vezes é, o nível cultural médio do país é baixo, do CM é mais baixo. Mas uma pessoa pode ouvir Quim Barreiros e isso não a impede de saber o que custa trabalhar e por isso em quando foi roubada. A população em larga escala sente-se, com razão, despeitada.»

Raquel Varela (2)

Comentarium: Aproveitando a sugestão de Fernando Negrão, investigue-se TODOS os ministros, secretários de estado – de PS, PSD e CDS. É mais justo. E ainda os deputados de todos os partidos!

(1) Artigo de opinião no jornal Público, 09/05/2018.

(2) No seu blogue pessoal em 30/04/2018.

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