Escritores portugueses esquecidos (ou não…) e critica literária portuguesa

f_pega_foto_bib.class

«Crescendo em Portugal, no meio disto, cheguei mesmo a pensar que isto era comportamento normal, que era assim que a crítica literária se fazia; até eu a fiz assim em tempos. Hoje em dia, vejo-a como um desperdício de energia no irrelevante. Alguém devia dizer aos adidos que podem exaltar o seu favorito sem massacrar os outros à sua volta só para ele ficar melhor na fotografia. Os escritores merecem pelo menos ser julgados pelo que escreveram. Não há escritores intocáveis, muito menos os actuais; nem estou a proscrever resenhas negativas aos críticos de jornal. Penso aliás que foi a falta de uma tradição de resenhas negativas feitas honestamente que exacerbou este problema: o medo de emitir uma opinião, o medo de julgar, o medo de avaliar, o medo de ofender, levou à falta de um cânone sólido e aceite de forma generalizada. Penso ainda que foi a falta de rigor na avaliação dos escritores dos últimos vinte anos, os quais foram deificados depressa e sem resistência, que leva muitos adidos a iras tremendas. Anos atrás José Riço Direitinho escreveu a respeito de um livro de Valter Hugo Mãe uma resenha bastante inócua, mas atreveu-se a umas observações menos elogiosas, e caiu-lhe logo em cima a acusação de inveja. Quem é que quer lidar com isso? É muito mais fácil elogiar a tempo inteiro. Adivinho raciocínio dos adidos: os novos estão a ocupar sem provas dadas do seu talento a visibilidade que pertence aos que vieram antes deles. Não os posso culpar por pensarem assim; a crítica em Portugal não tem feito o seu trabalho.

Mas se os novos escritores têm imperfeições, alguém as exponha de forma coerente, rigorosa e com recurso aos textos, num espaço dedicado a esse fim. Nenhum escritor merece ser atacado em duas linhas rápidas de um artigo, sobretudo quando esse ataque serve apenas o engrandecimento do favorito do crítico. O efeito que isso tende a ter sobre mim é questionar a parcialidade do adido. Isto é uma coisa, entre tantas outras, em que o modelo anglo-americano da crítica literária nos poderia ensinar algo sobre foco e acentuação do positivo. Eles sabem separar a comemoração da aniquilação. Quando um crítico anglo-americano quer festejar um escritor morto há décadas, não desperdiça cinco parágrafos a lamentar o quão maus todos os escritores são hoje em dia; explica da primeira linha para a frente os méritos do seu favorito. Ter de pôr isto por escrito é tanto mais estranho quanto mais sabido é que os jornalistas portugueses não têm o luxo das milhares e milhares de palavras das Reviews. Parcimónia é essencial. O teu favorito não tem a atenção que merece? Não chores, não te queixes, não embirres! Cita, revela, partilha, explica, encanta! Estou-me a marimbar para a tua bílis; a intimidação não funciona comigo; o teu azedume só me repele. Só leio por causa daquilo que está na página: mostra-me um verso sublime, uma frase original; mostra-me o humor, a inteligência, o sentimento, a tensão do enredo; mostra-me a criatividade, e talvez me convenças. Mas guarda a bílis para ti, asfixia-te nela.

Uma das maiores conquistas do século XX foi a liberdade para nos danarmos a nós próprios. Há quem escolha essa danação através da amnésia. É uma prerrogativa pessoal, e tenho sempre pudor em dizer aos outros como devem viver as suas vidas. Por mim, acredito na importância do conhecimento do passado. Conhecê-lo é ter raízes e ser sólido como uma árvore. Hoje em dia há quem julgue o passado uma prisão e clame por liberdade. Mas essa liberdade nunca será mais do que a liberdade da poeira, que voeja no ar para aqui e para à revelia de ventos que não controla, e que por fim cairá no chão para ser pisada por cães. Antigamente, dois tempos importavam: o passado e o futuro. O passado através do culto dos parentes, dos pais, dos reis mortos; e o futuro porque a vida era uma preparação para habitar um Além. Estes dois pólos condicionavam a vida. Hoje, só importa o persistente presente; a sociedade evoluiu nesta direcção: não há muito a fazer para levar alguém a se interessar pelo passado. Portanto congratulo os que não desistem dessa demanda. Pessoas cientes do passado estão mais aptas a tomar o controlo das próprias vidas e a interagir com o mundo sem medo nem amargura. O passado faz bem à alma pelo quanto nos ensina que o que nos parece bárbaro, ridículo, injusto e insondável hoje em dia também pareceu bárbaro, ridículo, injusto e insondável a mentes mais sábias do que as nossas. Dos clássicos não aprendemos que o passado foi mais simples, mais apetecível; aprendemos que o mundo sempre foi tão horrível quanto suspeitamos que é. Isso sempre me consolou, e para nunca me esquecer dessa simples sabedoria, porque o mundo me está sempre a tentar enganar com o oposto, para me revitalizar nela, vale a pena nunca deixar de voltar aos clássicos.»

Luís Miguel Rosa (1)

Comentário: A propósito de Aquilino Ribeiro, mas não só dele.

(1) No blogue Homem-de-Livro.

Anúncios

Uma resposta para “Escritores portugueses esquecidos (ou não…) e critica literária portuguesa”

Os comentários estão fechados.