Leituras: Aquilino Ribeiro, escritor da Beira e da ruralidade

aquilinoAquilino e a Beira
«A Beira foi uma das seis divisões – comarcas, depois províncias – em que se dividia, Portugal, até ao século XIX. Enquanto região de Portugal (NUTS 2), é a área que corresponde, aproximadamente, aos distritos de Castelo Branco, Viseu, Guarda, Coimbra e Aveiro. Está integrada atualmente na região do Centro (Região das Beiras).» (Wikipédia).
Aquilino Ribeiro nasceu em Sernancelhe, que fazia parte do distrito de Viseu. O escritor viveu uma infância plenamente inserida no meio rural: brincava na rua com as outras crianças da sua idade, admirava os pássaros e, no limiar da adolescência, gostava de montar a cavalo e de caça. Para além disso era bom garfo, adorando a gastronomia da sua terra e das terras circundantes. (José Gomes Ferreira conta no prefácio de Um Escritor Confessa-se que Aquilino Ribeiro depois de abandonar o Seminário passou um tempo em casa dos pais onde se deleitou com «leite de cabra, a água da mina, as chouriças de fumeiro, o grunhir dos cevados, o “milhinho a saltar na eira” – levaram-no a prolongar a estadia» antes de se decidir ir para Lisboa.)
Beira_Séc.XIXAquilino fez também pesquisas da etnografia local, que foram a base de alguns livros. Barrelas, terra onde viveu esse tempo inicial (que a partir de 1895 passou a sede de concelho com o nome Vila Nova de Paiva) foi um dos espaços que mais o influenciaram.
A Beira descrita por Aquilino Ribeiro é um local mítico, baseado nas experiências que teve na infância e juventude. Depois da ida para Lisboa (em 1906) e do seu primeiro exílio em Paris (em 1908), o escritor passou a viver na ambiguidade de ser um homem da cidade (onde ganhou a vida e completou a educação) e ter o coração nostálgico neste espaço mítico da sua infância e juventude (a inspiração de muitas das suas histórias e mesmo de alguns livros de não-ficção. (José Gomes Ferreira chama-lhe o último cronista da vida rústica portuguesa.)

O Malhadinhas (primeira versão em 1922; versão definitiva em 1958)

Novela cómica em forma de monólogo. António Malhadas conta como foi a sua vida como almocreve. Muito bom.

Romance-da-RaposaO romance da raposa (1924)

Este livro conta a história da vida de Salta-Pocinhas, uma raposa. Começa o livro a preguiçar em casa dos pais mas a mãe expulsa-a com um conselho:

«Sim, ralé, como quem diz: génio e paciência. Já rezava um tio meu, que acabou velho com dez ano no pêlo e fama de sabedoria, que a ralé, na nossa raça, é a mãe de todas as virtudes. Sejas tu diligente, prudente, persistente, e verás como a vida te corre direita. Vai, e que a minha bênção te cubra!»

A raposa aplicará este conselho o resto da vida, tornando-se «matreira, faceira e lambisqueira sem rival».

Um livro extraordinário.

 

A Casa Grande de Romarigães (1957)

Este livro, misto de romance e monografia local, descreve a relação de uma família de fidalgos com a sua propriedade: a Casa Grande de Romarigães ou Quinta do Amparo (freguesia de Romarigães, concelho de Paredes de Coura, ex-distrito de Viana do Castelo, Região do Norte). Cada um é pior que o outro: mais ignorante e mais gastador. O romance centra-se mais na casa e menos na vida dos fidalgos, embora haja excepções.

Este romance deixa-nos a pensar no que foi a nobreza até à implantação da República. E no que são hoje ainda as elites.

 

Mina de Diamantes (1958)

Também uma novela cómica. Conta-se as aventuras de Diamantino Dores, que tem como alcunha de Dedê. Ele é empregado corrupto de uma prefeitura no Brasil. Ameaçado de morte, tem de fugir para Portugal. Para ser bem recebido, os amigos brasileiros colocam uma notícia no jornal em que se faz acreditar que ele é um grande empresário. Por isso acaba por ser coberto de honrarias e depenado de dinheiro em Portugal. Aquilino Ribeiro inspirou-se na figura do brasileiro retratado por Camilo Castelo Branco e actualizou o seu perfil para as realidades dos anos 50 do século XX. Muito bom.

Ver Também:

Leituras: Aquilino Ribeiro, ficção e memória do regicídio

Para Saber Mais:

Henrique Almeida, Aquilino Ribeiro: o fascínio e a escrita da terra (Coimbra, CCRC, 2003)

Aquilino Ribeiro: percursos de vida (Viseu, AVIS, 1998)

 

Última Actualização: 27/01/2018

 

 

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