Leituras: Aquilino Ribeiro, ficção e memória do regicídio

aquilinoAquilino Ribeiro é um autor que:
(1) Nasceu a 13 de Setembro de 1885, em Carregal de Tabosa, no concelho de Sernancelhe. Morreu em Lisboa em 1963.
(2) As suas obras fizeram até à década de 80 parte das leituras escolares de língua portuguesa.
(3) Os seus restos mortais estão desde 2007 sepultados no Panteão Nacional.
(4) A sua obra Romance da Raposa faz parte do Plano Nacional de Leitura Ler+.

(5) Foi segundo bibliotecário na Biblioteca Nacional durante uns anos a partir de 1919, a convite de Raul Proença.

Duas coisas que eu aprendi durante a leitura das suas obras:
a) Aquilino Ribeiro tem um vocabulário invejável, espectacular. Parece que nós, que vivemos no século XXI, somos pessoas que apenas temos 100 palavras de vocabulário, enquanto ele tinha 5000 ou mais (parafraseando Herman José)!
b) Custa sempre ler as primeiras páginas, em que as personagens são apresentadas. Depois de vencer este obstáculo, ler Aquilino Ribeiro é um prazer!

Lápides partidas (publicado em 1945)
Libório Barradas (alter ego de Aquilino Ribeiro) deixa o seminário e vai para a cidade de Lisboa, onde se envolve na oposição republicana. É um livro baseado em factos reais, vividos para o autor. Mas é ficção. Como escreveu Aquilino Ribeiro:
«Enfim, a minha obra sou eu próprio. Mas, as personagens a que procurei dar vida não são desdobramentos de mim mesmo. Frequentemente são apenas remates lógicos das personagens que cada um traz em gérmen na maneira de ser e de pensar, mas somente em gérmen. E estes germéns desenvolvem-se nos romances, com a amplitude que permite a transposição. Houve quem se comprouvesse em me reconhecer no protagonista do romance O Homem que Matou o Diabo, fazendo o trajecto de Castela a Navarra, para ir lançar-se aos pés de uma “star”. Viram-me ainda na pele do herói de A Vida Sinuosa e Lápides Partidas. Não é nada disto. A identificação tem limites.».

Libório forma-se e transforma-se por conviver com as outras personagens. De ex-seminarista passa a adepto republicano e bon vivant. É um anti-herói assim como todos os personagens da história: aquela atitude bem portuguesa de um pé dentro e outro fora das coisas (neste caso do republicanismo mas não só).
Neste livro o autor descreve os regicidas como pessoas que agem no calor do momento, por auto-recreação, sem planeamento.

Um Escritor Confessa-se (escrito em 1962, publicado em 1974)
Autobiografia de Aquilino Ribeiro, limita-se ao tempo do romance Lápides Partidas. Aquilino Ribeiro faz um retracto mais completo dos regicidas, com quem conviveu nessa época, e mostra que era inequivocamente um republicano. Tanto que observa que o gesto dos regicidas poderia ter posto em causa a adesão popular a este movimento.
Mas a autobiografia termina com a partida para o exilio em França, em 1908, pouco depois do regicídio. Sabe a pouco!
A edição que li tem um prefácio do escritor José Gomes Ferreira em que ele faz uma óptima caracterização da evolução do pensamento de Aquilino Ribeiro bem como da maneira como olha o povo e os intelectuais portugueses.

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Mas o que foi afinal o regicídio?
Em 2018 comemoram-se 110 anos sobre o regicídio. O regicídio foi um atentado realizado na Praça do Comércio (na época mais conhecida por Terreiro do Paço) a 1 de Fevereiro de 1908.
Esse atentado aconteceu depois das prisões de Afonso Costa, Francisco Correia de Herédia, o Visconde de Ribeira Brava, António José de Almeida, Luz Almeida, João Chagas, João Pinto dos Santos, Álvaro Poppe, entre muitos outros, devido ao chamado Golpe do Elevador da Biblioteca (28 de Janeiro de 1908).
Como resposta a este golpe o governo de João Franco apresenta ao rei o Decreto de 30 de Janeiro de 1908. Este previa o exílio para o estrangeiro ou a expulsão para as colónias, sem julgamento, de indivíduos que fossem pronunciados em tribunal por atentado á ordem pública. O rei decidiu assiná-lo mas temeu a reacção das pessoas.
Participaram no atentado Manuel Buíça e Alfredo Luís da Costa, fervorosos republicanos.
Deste atentado resultou a morte do rei Carlos I de Portugal e do seu filho e herdeiro do trono Luís Filipe de Bragança. Os regicidas também morreram no local, abatidos por soldados.
Vale a pena ler o que Aquilino Ribeiro, que foi amigo de Alfredo Luís da Costa e conheceu pessoalmente Manuel Buíça escreveu sobre o assunto.

Para Saber Mais:

Regicídio de 1908 na Wikipédia em Português

O Dia do Regicídio (série da RTP de 2008)

O Dia do Regicídio, Por Detrás da História (documentário RTP, com testemunho do filho de Aquilino Ribeiro)

Última Actualização: 22/01/2018

 

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