Leituras: Ciência da treta e medicina baseada na evidência

Ciencia-tretaBen Goldacre é um médico, professor universitário e divulgador de ciência. É investigador no Centro de Medicina Baseada na Evidência da Universidade de Oxford e fundou o AllTrials, um projecto que defende que todas as investigações médicas devam estar acessíveis a todos os investigadores, em modo de acesso aberto (open acess). Para além disso tem um blogue, o Bad Science.

Este livro pretende divulgar o que é a ciência e a analisar a forma como a ciência é vivida e percebida, o que nos induz em erros de análise e más escolhas posteriores.

Começa por nos tentar explicar como se faz uma experiência e o que é o método científico, mostrando aquilo que considera ser pseudociência. Como exemplo de pseudociência fala da moda dos detoxs.

Explica também como deve ser um ensaio clínico e randomizado. O autor é um defensor acérrimo destes ensaios. Pensa que a única solução possível é os grupos de controlo tomarem placebo, apesar de aparentar as questões éticas à volta desse assunto (ver livro de Sonia Shah, Cobaias humanas).

Ensaio clínico randomizado: desenho

Ben Goldacre elogia a imenso a Cochrane, uma organização sem fins lucrativos independente baseada no voluntariado de profissionais de saúde, que leva a cabo revisões sistemáticas de ensaios controlados aleatórios de intervenções médicas e procura divulgar os resultados e conclusões que deles derivam.

Ao longo do livro também há criticas à industria farmacêutica – há um capitulo dedicado a elas.

E mostra como os media contribuem para a incompreensão da ciência por parte do público.

O autor chama a atenção que a época gloriosa da medicina ocorreu entre 1935 e 1975, no entanto essa época terminou. Hoje em dia são dados apenas pequenos passos para a melhoria da saúde das pessoas (Certamente Sonia Shah tem razão quando fala das muitas investigações inúteis feitas actualmente).

Para além disso, grande parte do livro analisa aquilo a que o autor chama pseudociência: a homeopatia (o autor considera que não tem credibilidade enquanto medicina e explica porquê); explica o que é o efeito placebo e como isso interfere na relação médico-paciente; a indústria cosmética (como vive do marketing cheio de hipérboles e ilusões); o nutricionismo, quando ele procura isolar apenas um nutriente (aqui o autor faz criticas muito semelhantes a Michael Pollan); critica a mentalidade segundo a qual todos os problemas de saúde e/ou sociais se resolvem com um comprimido; fala de polémicas antivacinação (que no Reino Unido começaram em 1998,  durante o governo de Tony Blair que, aliás, também contribuiu para a polémica).

Este é um livro que deve ser lido por todos NÓS, desde doentes e futuros doentes. E também por  médic@s, enfermeir@s, políticos e todos os que praticam medicinas alternativas. Coloca muitas questões importantes sobre o que fazer com a nossa saúde e em quem acreditar. Levanta questões importantíssimas!

Não saí deste livro com vontade de tabelar tudo o que não é medicina convencional de pseudociência. Continuo a defender que as medicinas alternativas e complementares devem ser consideradas legitimas mas também exijo mais e melhor regulação (desejo que não tem sido atendido em Portugal ultimamente, pelo que me apercebo).

Leitura de: Ben Goldacre, Ciência da treta (Lisboa, Bizâncio, 2009)

Ver Também:

O que é a Medicina baseada na Evidência?

Medicina convencional sim, medicinas alternativas sim! (Abril 2017)

Última Actualização: 24/01/2018

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