Delete ou vida na internet social do século XXI

«Nessa época de fim de ano em que as famílias reunidas aumentam os casos de internação psiquiátrica, é compreensível o desconforto de muita gente que, acostumada às comodidades das mídias sociais, se enerve com os melindres e delicadezas das pessoas, sonhando com o dia em que possa reconfigurá-las. Reinicializá-las. Ou deletá-las de vez.

À medida em que estamos mais conectados, é cada vez mais comum ver a insatisfação que se tem com as imperfeições dos humanos que, coitados, nasceram incapazes de apagar traumas, voltar no tempo, reviver experiências, pensar com calma em situações de pressão, desfazer encrencas ou, em situações mais graves, abandonar o barco e recomeçar do zero, sem lastro.

Seria lindo viver na ignorância pacífica de personagens do Jim Carrey, seja em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, em que as memórias podiam ser apagadas, ou no “Show de Truman”, em que o ambiente social se curvava à história do protagonista.

Mas isso (ainda) não é possível. Pelo menos para quem vive fora dos mundos do Warcraft, do Club Penguin, do GTA e dos Sims e procura estabelecer vínculos em uma profundidade maior do que aquela oferecida por Lulu ou Tinder.

A personalidade desconectada se torna cada vez mais parecida com a imagem digital que deveria refleti-la. As mídias anti-sociais, ao isolar seus usuários em bolhas de onipotência em que todos os desejos podem ser realizados, atacam os verdadeiros princípios sobre as quais foram desenvolvidas.

Já faz algum tempo que essas praças digitais deixaram de ser ambientes de livre expressão e interação social para se tornarem arenas de imaturidade e impulsos, aspectos primitivos da personalidade que sempre foram restritos por expectativas do grupo, cultura, religião e os protocolos que aprendemos a classificar como parte do contrato social.

Desfocados, sobrecarregados, desorganizados, confusos e incapazes de raciocinar com clareza, muitos se escondem por trás da máscara digital para disfarçar uma ansiedade social sem precedentes. Ao vivo tudo é mais difícil, as coisas podem sair do controle, causando constrangimentos que não podem ser desfeitos ou apagados completamente. A borracha social é imperfeita, demanda grande esforço e sempre deixa resíduos. Por isso é cada vez mais comum ver empregos e relacionamentos acabarem por escrito, em um clique, sem vergonha, culpa nem direito de resposta.

Comportamentos digitais incorporados à personalidade física geram pessoas mais bruscas, duras, insensíveis, mecanizadas. Não se dá bom dia nem se elogia um sorriso: todos querem ir direto ao ponto. E sair dele o mais rápido possível.

A biografia é constantemente revista e modificada, removendo a parte ruim e apresentando para uma grande arena de Silicone e Photoshop uma versão botocada do superego, cada vez mais distante da pessoa “real” que representa. Se o mundo digital é mais divertido, cheiroso e bonito, é natural mover o fardo mortal para a periferia da atenção.

Por esse motivo que os rituais familiares como as ceias de fim de ano podem ser mais importantes do que nunca. São, afinal de contas, belas oportunidades para exercitar o contato social antes que sua fluência seja perdida para sempre.

Boas festas.»

Luli Radfahrer (23/12/2013) (1)

(1) Artigo de opinião publicado na Folha Ilustrada.

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