Portugal, 2013: Governo Fomenta Guerra de Gerações

«É provável que o Tribunal Constitucional decrete a inconstitucionalidade da sobretaxa de 3,5% aos reformados, tratados por este governo como cidadãos de segunda – provavelmente fazendo parte desse contingente de “instalados” que trava a ascensão dos jovens de que recentemente falava Miguel Relvas. Se é impossível negar a existência da inversão da pirâmide demográfica (e uma reforma da Segurança Social deveria sempre discutir a existência de tectos máximos, rejeitando reclamações patéticas do estilo do movimentos dos banqueiros reformados e etc.), obrigar um pensionista com mais de 1350 euros mensais a pagar a crise com uma sobretaxa é um atentado social e institui, de facto, uma desigualdade geracional. Tratar os reformados como cidadãos de segunda é tentar fazer recair sobre uma geração que nasceu numa ditadura, que não teve qualquer acesso ao Estado social até à idade adulta, que em alguns casos viveu o racionamento da Segunda Guerra, penou na guerra colonial e teve os seus direitos civis amputados até ao 25 de Abril de 1974, uma “culpa” de se ter transformado, na meia-idade, sabe Deus como, numa geração de “privilegiados”.

Não dispondo de qualquer hipótese de criar emprego – é a própria receita recessiva da troika e as políticas europeias que o impedem – o governo entretém-se na propaganda infeliz de colocar as gerações umas contra as outras, como se a situação fosse definível pela existência de “culpados” e “vítimas”. A utilização política do gap geracional é tanto mais obscena quanto a geração dos reformados fez o que lhe foi possível para entregar às novas gerações um país muito melhor do que aquele que existia quando começou a trabalhar e a pagar impostos. Se o Tribunal Constitucional declarar impossível à luz da Constituição portuguesa a divisão entre velhos e novos presta um bom serviço à coesão nacional.

Afinal, não foi a esmagadora maioria dos agora atingidos que criou os regimes excepcionais de reformados de cargos públicos – que na sua origem foram criados para evitar que um titular de cargo público passasse à situação de desemprego quando o mandato expirasse, mas serviu de pasto para um sistema insustentável moral e financeiramente. A participação maciça de pessoas mais velhas na manifestação “Que se lixe a troika” é um sintoma expressivo de que o combate ao governo tem nos reformados um dos seus principais suportes. Afinal, o governo também se encarrega de os combater.»

Ana Sá Lopes (11/03/2013) (1)

«Tiago regressa cansado a casa dos avós mas com um sorriso no rosto. É o seu primeiro dia de trabalho em muitos meses. Sentado no colchão de praia que lhe serve de cama desde que os pais devolveram a casa ao banco, sonha já em alugar finalmente um quarto. O Tiago não é caso único. Como outros jovens da sua geração, acredita que descobriu a solução para o desemprego crónico: decidiu pagar para trabalhar. E, tal como o seu patrão, agradece a oportunidade.

Os jovens portugueses, dos quais 45% nunca experimentaram as dores e alegrias do trabalho, estão fartos de ouvir a geração dos seus pais queixar-se dos cortes salariais, aumento de impostos, insegurança no emprego, da facilitação dos despedimentos. Os jovens não percebem o que isso é. Querem apenas trabalhar, contribuir para o desenvolvimento do país.

Sentem que está em curso uma guerra surda de gerações. Pouco lhes importam as minudências do 14.º mês, TSU, duodécimos. O facto é: os mais velhos têm emprego e eles não. Para eles, os velhos empregados só vêem interesses mesquinhos à frente do nariz, a árvore e não a floresta. Mais: o futuro é dos jovens, e para estes o tempo dos privilégios do emprego seguro (ainda por cima remunerado) nunca existiu.

Mais que ninguém, eles sabem que não há trabalho para todos. Que um velho empregado está a impedir o emprego de um jovem desempregado. O trabalho tornou-se um valor em si, um objecto de luxo. Por isso mesmo o trabalho deve custar cada vez menos. Portugal não pode ser excepção: estamos perante uma nova tendência internacional. Trabalhar por cada vez menos é o preço a pagar para ter um lugar ao sol. Neste novo paradigma económico, o custo do trabalho deve tender não para o zero relativo mas para o zero absoluto, na proporção inversa da sua escassez. Isto significa que:

1) Não havendo trabalho para toda a gente, a sua falta deve ser repartida equitativamente. Quem trabalha deve estar grato por ter trabalho. O espanto não é, então, que quem trabalhe seja mal pago. O absurdo é que quem ainda tem trabalho queira ser pago.

2) Sendo o trabalho um valor em si e um bem escasso, é o direito a usufruir desse privilégio que deve ser pago, não o contrário.

O custo do trabalho tem de baixar, já o disseram vários especialistas. Mas, como de costume, isso é apenas panaceia temporária, remendo a disfarçar a verdadeira essência do problema. A questão é mais estrutural: é preciso dar ao trabalho o seu verdadeiro e justo valor. É verdade que há já muita gente a trabalhar a título gratuito. Os voluntários em campanhas de solidariedade, as famílias que são porteiras a troco de comida, os estagiários que dão aulas nos liceus em troca de uma melhor qualificação profissional. Mas isso não chega. É preciso coragem política para assumir que não é possível, por muito mais tempo, ter trabalho, pago… ou mesmo gratuito. Não há almoços grátis. Qualquer economista o sabe. Por outras palavras: as pessoas têm de compreender que não podem por muito mais tempo trabalhar sem pagar por isso.

Jovens como o Tiago olham para Belmiro de Azevedo ou Pinto Balsemão e invejam-nos. Por que continuam estes idosos a trabalhar, quando podiam estar a jogar golfe numa ilha paradisíaca, ou mesmo em Tróia? Ora, os jovens desempregados sabem o que a maior parte das pessoas ainda não sabe: que o verdadeiro luxo é trabalhar, não é descansar.

Num futuro cada vez mais tecnológico, no qual a presença física seja cada vez menos necessária, o verdadeiro luxo é ter trabalho. Por isso, portugueses, preparem-se para o que é justo. Preparem-se para um Portugal melhor. Preparem-se para um Portugal onde, a bem do progresso, vão ter de pagar para trabalhar.»
Manuel João Ramos (10/03/2013) (2)

Comentarium: Estes artigos – de três gurus portugueses – apenas colocam a questão de forma soft e irónica qb.

A realidade é que a maioria das pessoas já paga para trabalhar.

A realidade é que os reformados já estão a ser tratados como lixo.

(1) Artigo de opinião no jornal I.

(2) E Rui Zink. Artigo de opinião no jornal Público, reproduzido no blogue Correntes.

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