Coisas Giras de Portugal em 2013 (7)

«O abrandamento na queda da procura interna, em especial do investimento, não compensou a queda nas exportações, o que resultou numa recessão superior à esperada pelo Governo em 2012, atingindo os nove trimestres consecutivos de contracção.

Desde o início do Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF) que Portugal acordou com o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia, e da tomada de posse desde Governo que aconteceu no verão de 2011, que foi assumida uma previsão de nove trimestres consecutivos de contracção da actividade económica.

Todas as previsões, incluindo as do Governo, “apontam nove trimestres consecutivos de contracção da actividade económica”, dizia Vítor Gaspar em Julho de 2011, pouco depois de tomar posse como ministro das Finanças, e que estava prevista uma queda acumulada de 4% do PIB em 2011 e 2012.

O crescimento económico, dizia o ministro, “só regressará no início de 2013” e também só este ano é que a taxa de desemprego começaria a decrescer, após crescer até “quase 13 por cento”.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, na estimativa rápida do PIB do quarto trimestre de 2012 hoje divulgada, a economia terá contraído 1,8% nos últimos três meses do ano quando comparado com o terceiro trimestre de 2012, e 3,8% quando se compara com o último trimestre de 2011. No total de 2012, a recessão foi de 3,2%, pior que os 3% esperados pelo Governo e a ‘troika’.

Na curta explicação dada pelo INE na nota que hoje publica, o contributo positivo da procura externa líquida “diminuiu significativamente” nesta parte final do ano, verificando-se uma queda menos acentuada nas importações e uma redução nas exportações.

Os dados do Eurostat sobre o PIB do quarto trimestre na zona euro demonstram um abrandamento na economia da União Europeia, que apresenta novamente uma contracção, após uma ligeira recuperação no terceiro trimestre do ano (em cadeia), e de forma mais profunda (-0,5% do PIB).

Na zona euro são já três os trimestres consecutivos de queda, com a contracção no último trimestre do ano a ser mais profunda que nos outros dois trimestres.

Destaque para a contracção do PIB alemão no último trimestre do ano, que vinha a abrandar o seu crescimento, e também da Espanha que apresenta uma contracção mais profunda. São dois dos principais clientes das exportações portuguesas na União Europeia.

Mas para a redução das exportações poderá também ter contribuído a greve dos estivadores que afectaram parcialmente os portos de Lisboa, Setúbal, Aveiro e Figueira da Foz, desde Setembro até ao final do ano de 2012.

A procura interna até acabou por dar um contributo menos negativo para o PIB, em especial através de uma redução menos expressiva no investimento, mas não conseguiu compensar as consequências da queda nas exportações e da diminuição menos acentuada das importações.»

Lusa (14/02/2013) (1)

«No final de 2012, a taxa de desemprego atinge os 16,9%. O ritmo de destruição de emprego empreendido pelo actual governo é absolutamente vertiginoso: em apenas ano e meio contabiliza um aumento de desempregados (233 mil) que compara com o verificado entre o início da crise financeira (2007/08) e Junho de 2011 (239 mil, em quatro anos e meio). Ao mesmo tempo, o número de desempregados sem acesso a subsídio de desemprego aumenta cerca de 120 mil desde a tomada de posse da maioria PSD/PP, atingindo os 524 mil no final do ano passado. E o número de beneficiários de RSI está em queda desde Março de 2010: menos 124 mil (redução de 30%), a que acresce uma degradação crescente dos valores das prestações (244€ em média, por família, em Fevereiro de 2010, para 215€ em Dezembro de 2012). Tudo isto enquanto a tripla tenaz da austeridade (aumento do custo de vida, cortes salariais e degradação dos serviços públicos e das prestações sociais) foi sendo violentamente aprofundada. Bem-vindos à “ética social na austeridade“.

(…) O governo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas está assim a colocar um número crescente de famílias e cidadãos no vazio, no limbo do total abandono. Mas não se pense que este é apenas o dano colateral do fracassado processo de ajustamento orçamental. Este é o mundo sinistro que Gaspar e Santos Pereira conceberam desde o início para “sair da cris”»: quanto maior o desamparo, quanto mais desregulamentada a legislação laboral, quanto mais espicaçado o simples instinto de sobrevivência, tanto melhores as condições para competir através de baixos salários e assim reverter a balança comercial. O consumo interno, a economia doméstica, valem tanto como as pessoas que a constituem: nada. E é por isso imperioso continuar, com a mais distinta lata, a recitar o mantra do “risco moral associado a algumas prestações sociais”, como referia recentemente o ministro Mota Soares, ao sugerir que é preciso “contrariar situações em que, (…) apesar de os beneficiários (…) terem capacidade e idade para o trabalho, possa ser preferível não o estarem a fazer por estarem a receber prestações sociais”. Como se existisse um mar de empregos e oportunidades desaproveitados pela malandragem, numa economia que está hoje em estilhaços. (…)»

Nuno Serra (16/02/2013) (2)

(1) Notícia do Sol Online.

(2) No blogue Ladrões de Bicicletas.

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