Coisas Giras de Portugal em 2012 (72)

passos21473932392163312701

«O primeiro-ministro está a começar a ficar tão habituado às suas contradições e mentiras que já tropeça nelas e nem dá por isso.

Disse, na entrevista à TVI: “Temos uma Constituição que trata o esforço do lado da Educação de uma forma diferente do esforço do lado da Saúde. Na área da Educação, temos alguma margem de liberdade para poder ter um sistema de financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal direta que é assumida pelo Estado.” Um financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal direta (dos contribuintes, que por acaso são os mesmíssimos cidadãos) não quer dizer co-pagamento?

O primeiro-ministro acha que não. Disse, logo depois da entrevista: “Eu nunca fiz qualquer referência a essa matéria e posso mesmo dizer que isso nem tem qualquer sentido. De resto, o senhor ministro da Educação esclareceu-o muitíssimo bem. Não é possível, em termos de ensino obrigatório, criar taxas dessa natureza.” Fica o mistério: o que quer dizer “repartir os custos”?

Alguns têm defendido que o problema de Pedro Passos Coelho é de comunicação. Que, nas entrevistas, improvisa. E saem-lhe estas pérolas que logo depois tem de desmentir. Parece-me uma avaliação bondosa. Poderia ter alguma credibilidade se esta referência fosse inédita. Mas não é.

Num artigo publicado no jornal “I”, em 2010, logo depois de chegar à liderança do PSD, Passos Coelho escreveu: “É indispensável organizar um ambicioso programa de combate aos desperdício nas políticas públicas mais pesadas, como são a Saúde e a Educação, fundadas na melhoria da nova gestão pública, no incentivo à livre escolha e na introdução de co-pagamentos pelos serviços prestados, com salvaguarda dos mais desfavorecidos.” Os co-pagamentos que agora não fazem qualquer sentido e não são possíveis.

Com estes factos, e tentando repor alguma ordem nas contradições de Passos Coelho, era de co-pagamentos que o primeiro-ministro estava mesmo a falar. Porque já o tinha dito antes, com todas as letras, e porque é a única interpretação possível das suas palavras na entrevista da TVI. Que tenha sentido a necessidade de o desmentir logo depois, compreende-se pela reação generalizada à proposta. O País ainda não está preparado. É esperar pelo desastre a que os primeiros meses da aplicação do seu orçamento nos levarão para poder dizer: “nós nem queríamos, mas agora temos de cortar na despesa”. O problema é que sabemos que queriam. Nunca quiseram outra coisa.»

Daniel Oliveira (04/12/2012) (1)

«Os sete pecados mortais da privatização do ensino público (em todas as suas variantes):

    a) O aumento das desigualdades, da segregação e do elitismo na sociedade portuguesa; b) O aumento do abandono e consequentemente do insucesso escolar; c) O aumento da despesa pública e privada com a educação; d) A progressiva substituição do ensino público laico por um ensino confessional; e) A monumental transferência de recursos públicos para interesses privados; f) A inevitável diminuição dos magros salários dos professores; (de onde se pensa que pode vir o lucro se mais de 80% dos custos são custos salariais?) g) A progressiva erosão da coesão social e da identidade nacional.

A questão a que os defensores ideológicos do ensino privado não gostam de responder é simples e directa: há em Portugal alguma limitação à instalação e à frequência do ensino privado desde o pré-primário ao superior? A resposta é igualmente simples e directa: não, não existe nenhuma limitação ou constrangimento.
Qual é então o problema? Evidentemente o poder, o lucro e o privilégio, os interesses que a direita persegue implacavelmente e que tenta encobrir com a retórica da liberdade. Liberdade que, de facto e de direito, já existe.»

Afonso Mesquita (04/12/2012) (2)

(1) Texto do Expresso Online. Reproduzido no blogue Arrastão.

(2) Texto do blogue Câmara Corporativa.

Fonte da Imagem: Dinheiro Vivo.

Anúncios

Os comentários estão desativados.