Pro Bono, ou melhor: Pró Boneco

«Esta semana mais uma notícia típica. Pagaram-se 120 000 euros a Peter Greenaway para realizar uma curta metragem 3D para o Guimarães 2012; fez-se um casting; escolheram-se actores, que acabaram por descobrir que trabalhariam à borla; o pouco dinheiro disponível ia ser usado para pagar o filme; terem uma obra de Greenaway no currículo seria pagamento suficiente; alguns recusaram.

É a notícia típica porque, esquecendo que se trata de um filme, de um realizador conhecido e de uma Capital Europeia da Cultura, este género de esquema acontece todos os dias desde há anos. Em alguns casos, até se institucionalizou sob a forma de estágio.

Tornou-se habitual acreditar que basta uma ideia empreendedora para haver  gente disposta a trabalhar de graça para a concretizar. Sabendo que esse trabalho implica deslocações, alojamento, refeições, na verdade o trabalhador até teria sorte se estivesse a trabalhar de graça. Com efeito, está a pagar o trabalho do seu bolso. Está a investir do seu bolso. E qual é o retorno? Neste caso, como em muitos, ganha apenas currículo. Que é apenas uma espécie de crédito que só pode usar em empregos futuros. Se existirem e não forem como este.

(Repare-se que o trabalhador precisa de trabalhar e investir mais do uma vez para receber dinheiro pelo seu trabalho.)

Mas de onde vem o dinheiro que o trabalhador investe? Dos sítios do costume: do salário que ganha a fazer outra coisa, das suas poupanças, de um empréstimo, dos seus pais (dos seus salários, poupanças – incluindo por vezes as suas reformas – ou empréstimos).

Este estranho modo de vida onde um trabalhador investia no seu próprio trabalho sem outro retorno que não a possibilidade de um dia vir a ser pago (por outro trabalho) assentava na existência de emprego seguro, segurança social e crédito fácil.

Era em grande medida isto que significava viver acima dos meios: uma classe média que tinha meios à sua disposição para disfarçar o facto de estarem a perder dinheiro sempre que um dos seus filhos começava a trabalhar. Neste momento isso acabou, porque o emprego seguro, a segurança social e o crédito fácil acabaram.»

Mário Moura (30/11/2012) (1)

(1) Blogue The Ressabiator.

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