Louco Amor e Dancin Days: as telenovelas da austeridade pop : parte 1

Desisti de escrever sobre telenovelas depois que Joana Rita, a ex-governanta e amante do ex-dono de um império empresarial e de uma herdade no Alentejo, acabou a telenovela Anjo Meu como mãe-de-família extremosa, em vez de fugir para o Brasil como tinha anteriormente vaticinado.

Mas eis que São José Correia soltou o verbo numa entrevista ao Correio da Manhã (1):

«Há uma cultura de guionismo confortavelmente instalada. E como não há concorrência, vigora a ideia de que não vale a pena fazer melhor.»

«Quando nos instalamos numa estrutura, é porque há uma crise de criatividade. Faltam bons textos e vontade de superar o que se tem feito. O que não pode nunca acabar é a criatividade! Quando ela se extinguir, estaremos perdidos.»

Depois destas e de outras declarações da actriz em quase todas as entrevistas a actores têm aparecido uma pergunta sobre a (falta de) criatividade das telenovelas actuais. Uma dessas entrevistas foi a Mafalda Luís de Castro, que actua como uma das protagonistas de Louco Amor. Ela afirmou (2): «A história principal de uma novela tem sempre de se basear em um amor difícil ou proibido». Ora isso é muito interessante. Tornou-se portanto, pertinente analisar as duas telenovelas portuguesas de sucesso em 2012: Louco Amor e Dancin Days.

As Semelhanças

Ambas as telenovelas se passam num espaço de diversão nocturna. Em Louco Amor o espaço é a Broadway e em Dancin Days o espaço é uma discoteca do mesmo nome da telenovela, gerida pela irmã da protagonista e vilã de serviço.

As histórias passam-se à volta de pais, filhos & restante família. Em Louco Amor, Margarida veio para Lisboa estudar e procurar o pai (e afinal descobre que também tem de procurar a mãe). Já Chico foi criado pelo tio, que vê como pai. Aliás, Chico detesta o pai biológico. Em Dancin Days é uma mãe quem procura a filha depois de anos na prisão e não é bem recebida. A filha foi criada pela irmã. Em qualquer das telenovelas há irmãos que se detestam.

Ambas as telenovelas têm amores sofridos e praticamente proibidos durante quase todos os episódios – e quase todos os núcleos. Há amores desses que rimam com namoro, outros apenas com histórias familiares mal resolvidas.

Louco Amor

Núcleo principal:

(Personagem A) Carlos foi condenado por ter praticado a eutanásia com a mulher. Anda de um lado para o outro, ora a ajudar ora a reclamar com toda a gente. Foi amante de Violeta quando esta era muito nova (16 anos?) mas não se lembra que ela recebia sob o nome de Maria da Luz. É pai de Margarida mas não há quem lho diga.

(Personagem B) Violeta é uma ex-acompanhante de luxo cujos segredos demorarão grande parte da novela a serem revelados. Já foi amante dos dois irmãos desavindos. Ora é tratada como uma rainha ora é desprezada por qualquer deles. Tem sempre um aspecto asseado e sofisticado, faça o que fizer. Gere uma discoteca que é também um restaurante, um local de karaoke e sabe-se lá que mais.

(Personagem C) Rafael é irmão de Carlos é o vilão de serviço. O seu maior desejo é fazer mal ao próximo e arranjar muito dinheiro. Temos até ao final da telenovela para descobrir em todos os esquemas em que ele anda metido. As suas falas saem invariavelmente num estilo militar, o mesmo de há 20 novelas para cá.

(Personagem D) Margarida é a rapariga pobrezinha da província, boazinha e ingenuazinha de serviço. Tudo lhe acontece. A melhor amiga inveja-a, a avó precisa de um transplante, não sabe quem são o pai e a mãe, trabalha em dois sitios ao mesmo tempo e ainda tem optimas notas. Enfim,  a nora perfeita – menos para a família do noivo, encabeçada pelo vilão. A rapariga é ajudada  e adorada por todo o elenco.

(Personagem E) Chico detesta o pai biológico e adora o tio, que trata como pai. Estuda gestão, trabalha na empresa do tio mas não sabe dos seus esquemas (tão ingénuo!). É o galã substituto de serviço e anda com a gaja boa.

Outros núcleos:

A “senhora feudal” de Castelo de Vide e o dono do café: ou o amor na terceira idade. A empregada mais velha invejoza da vitalidade de Margarida. O galã clássico interpretado pelo classico galã da TVI. A família da ex-classe média alta a passar pela turbulência do desemprego, da precaridade e da emancipação feminina. O rapaz que vive de esquemas. A rapariga ex-rica com presente familiar caótico, dependente emocional do ex-namorado que se fartou dela. A gaja boa com passado misterioso. O cromo de bom coração. A melhor amiga de Violeta que gosta muito dela mas ainda gosta mais do ex-namorado (Carlos). A esposa enganada, rica e vingativa.

Quase todos os papéis são classicos nas novelas portuguesas da TVI e interpretados pelos mesmos actores de sempre. A maior excepção será a família-precaridade, a única inovação da novela. Essa inovação pretende passar mensagens muito ouvidas por estes dias: pode-se ser feliz com pouco; o que interessa é ter um emprego, mesmo que não seja na área para que nos formarmos; estar desempregado é uma oportunidade de mudar de vida. Enfim, bem-vindos à austeridade pop.

Falando em música… a banda sonora é constituida por música portuguesa é o prato do dia, com temas recentes e muitas vezes irónicos em relação à novela (veja-se o genérico). A Broadway começou por ser a meca da música portuguesa mas com o evoluir da história, por uma questão de racionalidade económica, optaram por ter actrizes-cantoras a interpretar (até não se poder ouvir mais) clássicos dos anos 20 a 50 do século XX.

(1) Correio da Manhã (suplemento Correio da TV), 03/08/2012.

(2) Correio da Manhã (suplemento Correio da TV), 17/08/2012.

 Fonte das Imagens: TV-Migrante; Noticias Video News Novelas.

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