Anatomia da troika

«A troika é, como se sabe, na tradução mais simples da palavra russa, um “trio”. Palavra que quer designar uma entidade una, sólida, operativa, dotada de poderes especiais. Ora, a troika que o sistema impôs a Portugal não é, verdadeiramente, uma “entidade”. Engloba elementos heterogéneos e que, no quotidiano, pouco ou nada se relacionam: o Fundo Munetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia.

(…) A troika é, assim, basicamente, um invólucro para conteúdos que lhe são injectados – numa parte pelos staffs das organizações, e, noutra, a partir da estratégia dos interesses e da ideologia dominantes no país em que actua. Quem “decide” são os aparelhos técnicos, constituídos por funcionários, em ligação com elementos escolhidos (é fácil imaginar com que critérios) da “inteligência” económica e política local. A leitura do “memorando de entendimento” mostra – nomeadamente na parte respeitante ao trabalho e ao emprego – que a troika se limitou a recolher o input de pessoas que viram no episódio uma escancarada janela de oportunidade. Estes personagens – que são quem realmente estabelece o quê, o quando e o como – estavam e mantém-se na sombra, anónimos e irresponsáveis, logo imunes.

Quem participou, de alguma maneira, no processo de “negociação” do Memorando de Entendimento de Maio de 2011 relata como se passavam as coisas. Numa sala, caras conhecidas da troika e da sua acessoria recebiam as “instituições nacionais” para serem ouvidas displicientemente, quase distraidamente, com uma ou outra troca de palavras à laia de “diálogo”. Em outras salas, à margem de tudo, desenhava-se afanosamente, ponto a ponto, o cardápio das exigências que seriam integradas no “memorando”. E nessas salas falava-se bastante português.»

António Monteiro Fernandes (20/08/2012) (1)

(1) Público, 20/08/2012.

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