Coisas Giras de Portugal em 2012 (62)

«Este domingo, Marcelo Rebelo de Sousa enganou-se ao dizer que o corte de 50% aos subsídios dos portugueses tinha sido decretado pelo Governo de José Sócrates. No final do seu espaço de comentário corrigiu: a medida foi aplicada pelo Governo de Pedro Passos Coelho.

Sobretaxa de IRS. No ano de 2010, e apesar de Teixeira dos Santos garantir que não haveria mais aumentos de impostos, os esforços voltados para a contenção não foram suficientes. Das medidas do Governo de Sócrates, destacam-se o congelamento dos salários da função pública e empresas do Estado e a sobretaxa ao IRS.

No Programa de Estabilidade e Crescimento, anunciado em Maio de 2010, definiu-se que tanto as empresas do Setor Empresarial do Estado (SEE) como os funcionários públicos, ficavam sujeitos a regras de contenção salarial, ou seja ao congelamento dos salários até 2013.

Já a sobretaxa de IRS foi criada sobre os rendimentos anuais dos portugueses, mas nesse ano o Governo aplicou-a apenas sobre os rendimentos a partir de junho. Assim, e apesar de o apuramento final do IRS de 2010 só se fazer em 2011, os contribuintes começaram a sentir o efeito do aumento do imposto a partir de Junho, por causa das tabelas de retenção na fonte, onde o aumento de impostos já estava incorporado. Na prática, as taxas de IRS foram agravadas em 1% até ao terceiro escalão e em 1,5% a partir desse nível, o mesmo valor também foi aplicado à taxa liberatória (lucros de depósitos, etc).

Esta sobretaxa representou um “esforço adicional pedido a todos os portugueses”, com excepção daqueles que não pagavam IRS por terem rendimentos menores. Para esses, o imposto adicional extraordinário foi cobrado a partir do dia 1 de Junho.»

Ana Margarida Pinheiro (20/08/2012) (1)

«Marcelo Rebelo de Sousa cometeu este Domingo, na TVI, uma gaffe monumental (chamemos-lhe assim) ao atribuir a José Sócrates a autoria do imposto sobre o subsídio de Natal de 2011 (aos 17m 15s no link).

Mas foi Judite de Sousa a ter a sua prova de fogo, ao ter hesitado e demorado na correcção do erro de Marcelo, deixando-o prosseguir a argumentação de que há uma “fórmula Sócrates” – cortar 50% do subsídio” e uma “fórmula Passos Coelho corrigida”… Só aos 19m21s Judite tentou corrigir o professor:

“Há aqui algo que me está a fazer confusão na sua análise: não tenho ideia de José Sócrates ter cortado 50% do subsídio”. Mesmo assim,  Marcelo insistiu “Então não se lembra de que ele deixou esse legado para o último ano, não se lembra?””. Judite ainda insistiu…“sim mas a decisão foi deste governo…”…”Foi?”  hesitou Marcelo, com Judite a responder: “julgo que sim” e passou adiante.

A gaffe de Marcelo foi grave, não apenas por se tratar de uma mentira, já que foi Passos Coelho e não Sócrates quem impôs o corte no subsídio de 2011, mas sobretudo porque não foi imediatamente corrigida com clareza e segurança, deixando que a dúvida se instalasse nos telespectadores menos informados. Só quase no final do programa Marcelo reconheceu o erro e pediu desculpa “a José Sócrates”.

Não sei se Judite hesitou na correcção do professor, porque duvidou da sua própria memória ou se hesitou para não desmentir Marcelo, deixando que fosse ele a reconhecer o seu próprio erro.

Num programa em que o  papel de Judite de Sousa (como o de outros jornalistas  que têm contracenado com o professor naquele espaço na TVI e na RTP) é um papel menor  – não encontro o termo exacto para definir  a função de “receber” Marcelo,  dar-lhe as “dicas” para ele opinar sobre os assuntos que ele próprio antecipadamente escolheu e ler as perguntas que os telespectadores lhe dirigem.

(…)

A gaffe deste domingo veio chamar a atenção, uma vez mais, para a natureza do programa. É suposto que numa entrevista jornalística, Judite não hesitaria na correcção do erro. Mas aquele é um espaço de Marcelo, em que Marcelo escolhe os temas (receberá porventura sugestões de Judite,  aceitando-as  ou não), diz o que quer sobre o que quer e da maneira que quer. É uma espécie de tempo de antena, só que em vez de ser tempo de antena de um partido político ou de uma associação (sujeito a duração, periodicidade, etc.) é um tempo de antena de uma só pessoa e, ao contrário do primeiro, não está previsto na lei. Com a diferença também de contar com a presença de um/uma jornalista que não está ali para verdadeiramente desempenhar funções de  jornalista.

A gaffe de Marcelo questiona a natureza do programa e a função que nele desempenha a, ou o, jornalista que com ele contracena.»

Estrela Serrano (20/08/2012) (2)

Comentarium: A austeridade chegou aos neurónios dos gurus de serviço. Tenham medo… entre outras coisas.

(1) Dinheiro Vivo.

(2) Blogue Vai e Vem.

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