Para que conste 15

– Disse David Mourão Ferreira:

«Não é subscrevendo petições, redigindo protestos, participando em comícios, inscrevendo-se neste ou naquele partido, que cabalmente se afirma e se cumpre a responsabilidade social do homem de Cultura como homem de cultura. Através de todos esses actos – que são e podem ser eminentemente cívicos, que são ou podem ser muitíssimo respeitáveis – é genericamente o cidadão que assim entende cumprir-se e afirmar-se. Em tais circunstâncias, porém, nem a sua qualidade de homem de Cultura há-de sequer ser evocada: se o for, estará irremediavelmente a insinuar-se como previlégio o que não deve passar de uma condição, a sugerir-se como prerrogativa de classe o que tão-só decorre da mais rigorosa igualdade de direitos e de deveres. E, por outro lado, não é tão-pouco defendendo, nas instâncias e instituições adequadas, os seus legitimos interesses de trabalhador intelectual que plenamente se cumpre e se afirma a responsabilidade social do homem de Cultura como homem de Cultura: isto respeita antes ao cumprimento e afirmação, na área sócio-profissional, dos seus irrecusáveis direitos de cidadania. Mas, a par desses direitos e das obrigações que eles igualmente implicam, o homem de Cultura incessantemente se encontra comprometido, com a realidade cultural em que se integra, por um implicito pacto simultaneamente mais vasto e mais específico, menos imediato e menos aleatório, mediante o qual detém a sua quota-parte de responsabilidade na defesa e difusão do respectivo património, no ressurgimento, enriquecimento e actualização dos respectivos valores, na utilização do capital assim mobilado em novos investimentos de criatividade e de consumo espiritual.»

Hoje faltam homens e mulheres de Cultura em Portugal, entre intelectuais, políticos e universitários. No máximo temos tudólogos com um grande ego.

– Disse Almeida Garrett:

«Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? – Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.»

E são palavras actuais…

Fonte da Imagem: Wikipédia (litografia de Pedro Augusto Guglielmi).

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