Coisas Giras de Portugal em 2012 (49)

«O ministro da Educação e Ciência afirmou que serão obrigatórias, a partir de 2013/14, as metas curriculares que lançou para discussão pública, esta quinta-feira, e que visam um ensino “bem estruturado”, baseado num modelo anglo-saxónico.
Em conferência de imprensa, Nuno Crato indicou que, para o próximo ano lectivo, as metas para as disciplinas de Matemática, Português, Educação Visual, Educação Tecnológica e Tecnologias de Informação e Comunicação do ensino básico serão “fortemente recomendadas”. De recordar que as metas foram já promovidas pela anterior ministra Isabel Alçada, que pretendia que fossem de aplicação voluntária pelas escolas.

Elaboradas ano a ano, as metas, que estarão em discussão pública até 23 de Julho – menos de um mês –, destinam-se a “definir com clareza o que se quer que cada aluno aprenda”.

São “objectivos cognitivos muito claros” para professores e alunos, indicou, rejeitando que se ponha em causa a “liberdade de método” dos docentes para ensinarem as matérias.

Nuno Crato afirmou que as metas vão “clarificar aquilo que, nos programas, deve ser prioritário, os conhecimentos fundamentais a adquirir e as capacidades a desenvolver pelos alunos ao longo dos diversos anos de escolaridade”. “Não pretendemos actuar de uma forma dirigista em relação à pedagogia”, garantiu Nuno Crato, que defendeu a necessidade de um “ensino bem estruturado”.

“Julgamos que este processo corresponde a uma ambição de muitos professores”, apontou o ministro, reiterando que se dá “total liberdade aos professores” mas que se querem “resultados e para isso tem que se traçar objectivos”.

As metas curriculares lançadas hoje para discussão são baseadas no modelo de standards e core standards seguido no Reino Unido e nos EUA, e são um “movimento moderno”, salientou.

“Antes apostou-se numa grande liberdade, mas com a massificação do ensino e as dificuldades, há mais consciência da necessidade de um ensino mais bem estruturado”, declarou. O modo de verificar se, ao longo do ano lectivo, se as metas estão a ser cumpridas consegue-se com “vários sistemas de aferição”, desde logo as provas e exames de fim de ano e que são “provas externas” à escola que permitem aos alunos e professores “saber onde estão”.

Nuno Crato afirmou que o ministério está em diálogo com as editoras de livros escolares, que manifestaram disponibilidade para “ajustar os manuais” aos objectivos que fiquem consagrados definitivamente nas metas curriculares.

De 23 de Julho a 3 de Agosto, o ministério irá incorporar, na versão definitiva das metas, os contributos da discussão pública que achar “mais adequados”, afirmou Nuno Crato.»

Lusa (28/06/2012) (1)

«Concordo que se centre o ensino nos conteúdos e que se subalternize o conjunto quase vazio denominado de livro de competências. Na docimologia tem sido sempre assim: regressamos a sítios anteriores e a oportunidade faz com que apresentemos ideias do passado, muitas vezes abandonadas de forma modista e precipitada, como os caminhos do mundo moderno; no caso actual os EUA e a Grã-Bretanha.

Foi isto que me surpreendeu, ontem, nas imagens de Nuno Crato a falar das metas curriculares. Também me impressionou a pressa e o momento escolhido. Não é bom sinal.

Metas ou objectivos fazem parte da organização do ensino há mais de 40 anos e em Portugal também. A divisão entre gerais, específicas e operacionais generalizou-se na década de oitenta do século passado e as primeiras, as gerais, davam ao processo um ar etéreo e inatingível. Nos programas escolares do início da década de noventa, foram estabelecidas, de forma exaustiva e bem estruturada, metas curriculares (standards) por ano de escolaridade e ficou por fazer a rede do essencial (core standards), embora muitas escolas e grupos disciplinares o tenham realizado.

Em 1998 apareceu o tal livro de competências e desprezaram-se os programas. Os professores, felizmente e em muito casos, não. E porquê? Porque tinham que ensinar todos os dias e porque começaram a perceber que o sistema escolar estava a ficar entregue a “reformistas compulsivos, iluminados e atrevidos“. Comprovou-se que tinham razão.

Quanto o actual ministro apresenta o assunto como o fez, dá mais uma machadada na imagem da escola pública. Quem não conhecer a história da pedagogia em Portugal, pensará que temos tido um ensino não estruturado, e sem metas, até à chegada de Nuno Crato. É como sabemos: o eduquês não tem remédio, apenas se disfarça, e quando um sistema entra em plano inclinado há sempre espaço para mais devaneios.»

Paulo Guilherme Trilho Prudêncio (29/06/2012) (2)

(1) No Público Online.

(2) Blogue Correntes.

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