Leituras: Regresso ao Futuro, à Construção Europeia nos Anos 60 do século XX – última parte

«É precisamente no momento em que a opinião pública endurece em relação às ideias americanas que os hábitos tendem a ficar americanizados»

Raymond Aron

«O destino das nações depende do que comem e de como comem»

Jean Anthelme Brillat-Savarin (9)

Enquanto os políticos, eurocratas, empresários, economistas e tecnocratas se preocupavam com as estruturas industriais e económicas – multinacionais, tecnologia desenvolvida em conjunto e finança internacional – havia alterações a decorrer na vida das pessoas, ao nível dos hábitos.

Havia os subúrbios a crescer e os centros das cidades a se despovoarem.

Também crescia o consumismo: o ponto de encontro entre todos os europeus. Uwe Kitzinger (10) analisando um estudo de 1963 da revista Reader’s Digest sobre consumo dos europeus comentava:

«Se este estudo chega a uma conclusão importante é com certeza esta: os países da Europa ocidental, a Inglaterra e os Seis (se excluirmos o centro e o sul da Itália) parecem ser substancialmente iguais. Os lares dos holandeses possuem quase todos os mesmos bens duradouros que os italianos do nordoeste, as casas dos alemães têm o mesmo conforto que as dos ingleses… Podemos não ter ainda alcançado o ideal do Salvador de Mariaga, segundo o qual os franceses pensariam “o nosso Goethe”, os alemães “a nossa Chartres” e os ingleses “o nosso Miguel Angelo” – embora o continente tenha cada vez maior relutância em pensar neles como sendo “dos outros”. Por outro lado, parece que atingimos um estado de riquesa nacional mais rotineiro, no qual as máquinas de barbear Philips, os gravadores Grundig, os vinhos Beaujolais e as motoretas Vespa são aceites como artigos naturais de propriedade e consumo de cada país e não como importações exóticas do mundo exterior».

No entanto, o autor faz notar que continuava a haver padrões de vida diferentes entre os europeus. Fala do contraste em termos urbanísticos entre Paris e Londres. Em Paris havia falta de transportes públicos, falta de investimento urbano, ao mesmo tempo que havia um passado militar e centralidade da autoridade. Resultado: muitos prédios, longas filas de automóvel e poucos espaços verdes.

Para além disso, começavam a ser construídas pela Europa fora casas ao estilo norte-americano. Por exemplo, o autor entrevistou Andrew L. Lorant, um gestor de uma filial francesa de um grande construtor norte-americano que começou a construir casas ao estilo norte-americano do pós-guerra.

Na alimentação também houve mudanças, devido ao aumento dos rendimentos das famílias, o êxodo dos campos e a emigração. Assim surgiram as seguintes modas na Europa: o culto da magreza (fazer dietas e etc.); comer comida enlatada, desidratada e congelada; o pequeno almoço de cereais à moda norte-americana; os produtos light e o café descafeinado; os douradinhos de peixe, comidos em todos os países da CEE, na altura.

Havia também o despontar de novas formas de ocupar os tempos livres: criavam-se condições para ferias maiores. No mês de Agosto a maioria das pessoas praticamente deixava as cidades, para ir de férias. No entanto o aumento das férias não era aceite por todos os sindicatos franceses, que consideravam isso «a desculpa apresentada pelas sociedadas capitalistas para sustentar situações insustentáveis». Estes preferiam dias de trabalho mais curtos e não mais férias. Até porque o aumento das férias tinha como contraponto o aumento da pressão sobre os trabalhadores no resto do ano, reduzindo assim a vida pessoal e familiar.

Nestas condições, o turismo começava a despontar na Europa enquanto industria. Ele trouxe a necessidade de mais e melhores estradas (que levou à construção das auto-estradas), maior higienização das praias. Aqui o autor cita um artigo de J. F. Simon no Le Monde, de Junho de 1968, a propósito da sociedade de consumo emergente: havia tendência «para fabricar férias como se fossem automóveis, para considerar o veranista não como um trabalhador que cessou de trabalhar, mas sim um consumidor que começou a consumir… Vamos assim caminhando para as férias passivas, durante as quais, pense ele o que pensar, o individuo não controla a data das suas férias (imposta pelos industriais), nem o seu custo (imposto em grande parte pelas industrias de transportes do país, nem o seu conteúdo, o qual é ditado pelos imperativos da produção em massa e imposto pelas sugestões publicitárias».

Entretanto, surgiam no Reino Unido as primeiras au pair – raparigas que passavam as férias a trabalhar nas casas de familias como forma de aprendizagem da lingua. Começavam-se a começar a promover os intercâmbios entre os jovens e menos jovens dos vários países europeus. Construiam-se cada vez mais hoteis, onde o turista se ausentava do mundo real. A contracultura e os drogados, faziam viagens permanentes dentro da Europa.

Havia (e há) a questão da língua, claro. Na Europa havia 40 línguas, fora os dialectos. Mas havia interesse em aprender e muitos políticos tinham já feito brilhantes carreiras baseadas no facto de serem poliglotas. Por outro lado, havia o eterno problema do Outro, o estrangeiro: erros de interpretação e preconceitos no subconsciente. Na CEE dominava o franglais. E promovia-se o ensino de línguas.

Os anos 50 e 60 trouxeram a televisão para o centro das vidas dos europeus. E os politicos aproveitaram-se disso. Charles De Gaulle é um exemplo paradigmático. O autor lembra que «a mais importante influencia da televisao não consiste na projeccao de um único chefe, mas sim em fornecer uma determinada visão do mundo, omitindo as outras». E havia o Festival da Eurovisão, que na altura realmente unia os europeus.

Na conjuntura descrita desde o inicio destas Leituras, o tecnocrata começava a prosperar e a Europa despolitizava-se na CEE (e depois na União Europeia). A figura do advogado também ganhava cada vez mais poder.

(9) Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826) foi um advogado, político e cozinheiro francês.

(10) Uwe Kitzinger é um economista, político e professor universitário britânico. Foi o primeiro economista britânico com assento no Conselho da Europa (1951-1956) e foi conselheiro de Christopher Soames, o primeiro vice-presidente britânico da Comissão Europeia (1973-1975).

Fim da Leitura de Anatomia da nova Europa (Lisboa, Europa-América, 1971).

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Leituras Complementares:
Anthony Sampson (obituário no jornal The Guardian)

Jean Monnet. Grupo 24
Amartya Sen: Europe a ‘democratic failure’
Helmut Kohl apela à unidade da Europa
Eurocépticos para todos os gostos
Discreto como um eurocrata em Atenas
Queria ser eurocrata
Ilda Figueiredo: “O Bloco de Esquerda é federalista, nós somos soberanistas”
O Triunfo do conformismo
O fim do romance europeu

Fontes das Imagens: Amazon; Green Pack.

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Radicalismo da Terapia de Choque no seu melhor, na União Europeia (7)

Está na hora da Espanha…

«(…) “Não sei se estamos na borda do precipício. Mas estamos numa situação muito, muito, muito difícil”, disse Luís de Guindos, o ministro de Economia do governo espanhol.

A semana foi, de facto, muito difícil no mercado da dívida. A probabilidade de incumprimento da dívida espanhola num horizonte de cinco anos subiu de 37,49% há uma semana atrás, a 25 de maio, para 40,47% a 1 de junho, segundo dados da CMA DataVision. Este nível de risco é um novo máximo.

Esta subida correspondeu a um disparo no preço dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento, acrónimo cds) que passou de 546,41 pontos base a 25 de maio para 605,31 pontos base. Este preço de 605 pontos base é um novo máximo.

Este nível de preço dos cds no patamar dos 600 pontos é muito mais elevado do que o que se verificou para a dívida portuguesa quando o anterior governo resolveu anunciar o pedido de resgate a Bruxelas em abril de 2011. Mesmo uma semana depois do pedido de resgate por José Sócrates, o preço dos cds relativos à dívida portuguesa era de 577,21 pontos base e a probabilidade de incumprimento era de 39,72%.

A Espanha conservou o 10º lugar no “clube” dos candidatos a uma bancarrota, tendo chegado a estar em 9º lugar, durante o dia de 30 de maio.

Apesar deste stresse com o risco de incumprimento, a evolução das yields (juros) das obrigações espanholas (OE) no mercado secundário não chegou ao temido patamar dos 7% no caso do prazo a 10 anos. Tendo fechado em 6,31% em 25 de maio, os juros das OE a 10 anos subiram hoje para 6,53%, segundo dados da Bloomberg. Estes juros chegaram a fechar em 6,66% em 30 de maio. De qualquer modo, a expetativa de que subiriam ao limiar crítico dos 7% não se verificou esta semana. Segundo dados da Reuters, o valor de fecho das OE a 10 anos fixou-se esta sexta-feira em 6,468%.

Quando Portugal pediu resgate, a 6 de abril, os juros das obrigações do Tesouro a 10 anos estavam em 8,54%.

(…) A situação inconclusiva sobre a estratégia de ataque ao problema da crise bancária espanhola e as ondas de choque que tem provocado em toda a zona euro têm provocado um enorme nervosismo entre altos responsáveis mundiais, de que as declarações de Mário Draghi e Robert Zoellick durante esta semana são um exemplo.

Mário Draghi, presidente do BCE, deixou estalar o verniz e disse preto no branco perante a Comissão de Assuntos Económicos do Parlamento Europeu: “a estrutura [atual] do euro é insustentável”. Por seu lado, Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, escreveu no Financial Times que é “altura de quebrar o vidro” do alarme.

A condução do assunto do Bankia pelo governo espanhol tem recebido críticas. Draghi, no Parlamento Europeu, disse: “O que mostram os casos Dexia [banco franco-belga que esteve em foco durante a crise financeira iniciada em 2008] e Bankia é que, quando enfrentamos necessidades dramáticas de recapitalização, a reação dos governos ou dos supervisores nacionais é subestimar a importância do problema, e apresentar uma primeira avaliação, depois uma segunda, uma terceira, uma quarta”.

A agência de informação financeira europeia Eurointelligence, sediada em Londres, considerou o governo espanhol ” de longe o mais incompetente” da Europa. (…)»

Jorge Nascimento Rodrigues (01/06/2012) (1)

«(…) Quebrou-se o grande tabu. O inominável chegou. O resgate de um dos quatro grandes da zona euro já não parece um prognóstico dos senhores das trevas. A mistura letal de uma recessão, que promete aumentar com a enorme factura que deixou o buraco na banca, empurra cada vez mais a Espanha para perto da Grécia, Irlanda e Portugal.

Nestes dias, é difícil encontrar, em Bruxelas, um alto funcionário ou um responsável político, sempre anónimo, que não assuma como facto consumado que a Espanha acabará por pedir ajuda externa para não cair em insolvência.

(…) o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, pressionou o seu homólogo Luis de Guindos para que Espanha recorra ao fundo de resgate europeu. (…)»

Luis Doncel (03/07/2012) (2)

«Quando o primeiro-ministro espanhol declarou que o estado espanhol salvaria o Bankia enquanto, ao mesmo tempo, admitia que a Espanha não podia obter o cash para fazê-lo, havia duas explicações plausíveis sobre como este feito poderia ser alcançado.

Uma era que a Espanha se tornaria oficialmente o quarto estado membro da Eurozona a ter caído fora dos mercados, assegurando um salvamento do resto da Europa.

A segunda explicação era que a Espanha se tornaria o quarto estado membro da Eurozona a ter caído fora dos mercados, assegurando um salvamento do resto da Europa, sem admitir que isto fosse o caso – não oficialmente.

Imagine qual das duas opções a Europa escolheu: A segunda, naturalmente! Na verdade, por que confessar tudo quando a opção do subterfúgio está disponível?

Assim, foi isto que eles fizeram: A Europa permitiu à Espanha emitir nova dívida pública que é transmitida a bancos espanhóis (ao invés de dinheiro) em troca de acções. Então, os bancos enviarão esta nova dívida pública ao BCE como colateral em troca de cash que manterá em funcionamento as caixas multibanco dos bancos espanhóis. O resultado final será, naturalmente, que a dívida espanhola aumentará e os bancos permanecerão num estado zumbificado.

Compare-se e contraste-se isto com o que está a acontecer (a) na Grécia e Irlanda (países que estão oficialmente “caídos”) e (b) no caso de bancos italianos tais como o Unicredit.

No caso da Grécia e da Irlanda, o estado toma emprestado do EFSF tanto na forma de cash como de títulos EFSF. Os últimos são dados aos bancos e são contados como parte dos empréstimos de salvamento do país. No caso de bancos como o Unicredit, o banco emitiria nova dívida privada (seus próprios títulos), tem o estado a garanti-lo e então envia estes títulos privados (mas publicamente garantidos) ao BCE em troca de cash LTRO [1] . O que é que eles têm em comum? Que a dívida pública aumenta em consequência da tomada de empréstimos ou directamente junto ao EFSF (Grécia e Irlanda) ou indirectamente junto ao BCE (Espanha e Itália). A única outra diferença é que países que estão oficialmente “caídos” (Grécia, Irlanda e Portugal) pagam taxas de juro mais altas ao EFSF do que os não oficialmente “caídos” pagam ao BCE.

Oh que confusas teias eles tecem, quando praticam a arte do engano (dos cidadãos e igualmente dos mercados)!»

Yanis Varoufakis (29/05/2012) (3)

(1) Expresso Online.

(2) Jornal El País.

(3) Artigo originalmente publicado no blogue de Yanis Varoufakis. Traduzido no sítio Resistir.info.

Fonte da Imagem: Ladrões de Bicicletas.