Leituras: Regresso ao Futuro, à Construção Europeia nos Anos 60 do século XX – parte 3

«Queremos paz a qualquer preço. Que nos importa a Alemanha, a Áustria ou a Bélgica? Este género de coisas está obsoleto»

Anthony Rothschild (7)

«Quem quer que esteja familiarizado com o papel que o mercado de capitais de Nova Iorque desempenhou na unificação económica dos EUA não pode deixar de concluir que um mercado de capitais europeu é de absoluta necessidade como força motriz para a integração industrial»

Robert Marjolin (8)

Uma das consequências da CEE foi desde logo, foi o aumento de competição entre países por mercados para os seus produtos. A busca pelos preços mais baixos duram até hoje (com as consequências conhecidas).
Sicco Mansholt, Comissário para a Agricultura de 1958 a 1972, seguiu uma política que pretendia que se abandonasse o minifundo, uma tendência da Europa continental na altura, e se passasse para o latifundio. Para ele, havia demasiados trabalhadores na terra que era necessário dispensar, acabar com os subsídios e políticas proteccionistas e fixar os preços à escala da comunidade. Como este mercado produzia demasiados produtos alimentares, considerou-se, decidiu-se começar a subsidiar os agricultores para não produzirem. Isso levou a um cada vez maior êxodo para as grandes cidades, o que começou a criar desertificação nas aldeias (com as consequências conhecidas).
A unificação europeia começou com o mercado do carvão e do aço. Uma das esperanças nos anos 50 e inícios dos anos 60 era que, com a união energética, terminassem os conflitos entre países. No entanto não foi isso que aconteceu, pois com a crise do Suez as grandes companhias petrolíferas encontraram petróleo mais barato, abandonando-se assim a ideia de investir em carvão, aço ou energia atómica (no âmbito do Euratom). Assim, a energia tornou-se fonte natural de nacionalismo dos países.
As leis de abertura de mercados acabaram por fornecer as multinacionais, que na altura eram muito pequenas, comparadas com as existentes hoje. Andrew Shonfield, economista britânico, escreveu em 1968 um artigo em que afirmava: «temos a impressão, hoje, de que o diálogo entre a empresa e o Estado consiste principalmente da seguinte afirmação da primeira: “Tudo o que possas fazer, eu faço melhor”». O autor acrescenta: «O seu poder e influência social aumentarão rapidamente; serão a guarda-avançada de novas estruturas tecnológicas, de novos hábitos de consumo, de novos ambientes e, consequentemente, de novas relações sociais; contudo estão simultaneamente em toda a parte e em nenhuma parte, como não têm estado nem chefes específicos, serão cada vez mais difíceis de controlar. Já se fala de uma nova lei supranacional, uma lex mercatoria» (já se começava a sentir o que existe hoje). Mas na altura grande parte das empresas ainda tinha uma sede europeia, não tinham sido vendidas a norte-americanos, chineses, brasileiros, russos e outros. A maioria tinha sedes na Alemanha e na França (e na Suiça, apesar deste país não fazer parte da CEE).
Na altura a industria automóvel desenvolvia-se muito na CEE. As empresas que faziam mais sucesso era a Fiat, a Volkswagen, a Renaut e a British Leyland Motors. Nessa altura havia propostas para se fundirem para melhor concorrerem com os norte-americanos.
Os banqueiros eram considerados os profetas da união. Incitavam as pessoas a serem bem comportadas (os empregados a trabalhar muito e não fazer greves, os governos a ter menos despesas públicas, as empresas a despedir) e recordavam com grande nostalgia o século XIX, com o seu laissez-faire (ironicamente, o autor aqui cita a introdução de John Maynard Keynes ao seu livro Economic consequences of the peace). O poder começava a voltar para as mãos dos banqueiros nos anos 60. O autor cita os bancos da Bélgica, que dominavam sectores inteiros da industria e dominavam o governo. Na altura o Mercado Cumum permitiu também a instalação de bancos norte-americanos, que começaram a fazer concorrência aos europeus.
Como havia inúmeras moedas, quem viajava entre países (turistas e empresários sobretudo) viviam numa confusão de moedas, começaram a surgir sugestões para a criação de uma moeda europeia: nos anos 60 era o dólar a moeda que os europeus mais usavam nas trocas comerciais entre si.
Nos anos 60 os europeus eram conhecidos por serem extremamente poupados (mais uma ironia), pelo que havia poucos investimentos. Isso tornava dificil a criação de um mercado de capitais europeu. «Um relatório elaborado para o Mercado Comum, em Junho de 1968, recomendava que os fundos de pensões fossem investidos independentemente das empresas patronais de forma a aumentar os mercados de capitais», escreve Anthony Sampson. Conhecemos hoje as consequências destas recomendações.
«O longo pesadelo das esquerdas é que a Europa possa vir a ser gerida por uma comissão de banqueiros», escreve de seguida o autor. Já na altura havia sinais que isso iria acontecer: os dirigentes dos bancos centrais de cada país começavam a ter mais poder que os eleitos do Parlamento Europeu.
Também se tentava a união através da tecnologia. O autor fala de forma entusiasta do projecto anglo-francês da construção do Concorde. Isto não obstante a oposição de muitos ministros britânicos do partido trabalhista. Havia consciência que a Europa estava (e está) um passo atrás a nível tecnologico e pensava-se em formas de cooperação supranacional para colmatar tal atraso. Outra preocupação era a fuga de cérebros (preocupação que continua por resolver). Por isso o CERN, um projecto de 13 países com sede em Genebra, era um grande orgulho.
Aumentava a colaboração entre países europeus em termos de defesa, no âmbito da NATO.

Entretanto, havia muitos norte-americanos a enriquecer com negócios na Europa.

(7) Anthony Rothschild (1810-1876) foi um banqueiro britânico.

(8) Robert Marjolin foi um economista e político francês. Foi comissário europeu entre 1958 e 1967.

Fonte das Imagens: Amazon; Página Global.

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