Leituras: Regresso ao Futuro, à Construção Europeia nos Anos 60 do século XX – parte 2

«A Alemanha precisa da Europa mais do que qualquer outro país. Na insegurança e solidão do seu pós-guerra, viu na ideia europeia não só uma forma de compensar o passado imediato como também uma saída honrosa para as suas formidáveis energias»

Franz Josef Strauss

«Não somos apenas o clero, somos também os profetas da Europa»

Jean Rey (5)

Charles De Gaulle (1890-1970) foi um politico e militar francês e personificou a independência dos Estados (2). O contraste entre Charles De Gaulle e Jean Monnet é maior porque ambos pertencem à mesma geração, nascida no século XIX e colaboraram pelo menos duas vezes, tendo lutado nas duas Guerras Mundiais do século XX. De Gaulle era a personificação do nacionalismo francês do pós-guerra. Nunca usou a expressão “Europa das pátrias”, mas sim “Europa dos Estados”. Durante a 2ª Guerra Mundial observou os mesmos acontecimentos de Jean Monnet, mas chegou a conclusões opostas. Nunca acreditou numa Europa unificada e supranacional.

Apesar da rivalidade histórica com o Reino Unido, tentou num pós-guerra uma aliança com este país, visto que ambos tinham ficado enfraquecidos com a perda das colónias. Mas Winston Churchill, na altura primeiro-ministro, preferiu aliar-se aos Estados Unidos. Talvez a recordação deste gesto tenha levado mais tarde, em 1963 e 1967. Por outro lado, na altura, o Reino Unido conheceu um período de instabilidade política, com uma série de governos de apenas dois anos, o que segundo o autor poderá ter levado De Gaulle a confundir instabilidade política com instabilidade económica (o país estava bem desse ponto de vista).

O facto da França ter sido dos primeiros países a conceder a independência às colónias deu a De Gaulle, a nível de política externa, uma grande flexibilidade. Este aproveitou-a para fazer alianças com quase todos os países, inclusivé com a União Soviética, menos com os Estados Unidos, com quem tinha uma relação ambivalente. Por isso De Gaulle foi o primeiro a propôr uma aliança franco-alemã, que culminou num tratado com a República Federal Alemã. Com o tempo, a flexibilidade atingiu um limite e o facto de se recusar a fazer alianças com os Estados Unidos, cujo poder pensava ser excessivo, começaram a pesar. Na década de 60 ficaram conhecidos os seus embates com o presidente da Comissão Europeia, Jean Rey, pois De Gaulle não estava disposto a abdicar da soberania da França (ao mesmo tempo, nunca pediu a demissão das instituições supranacionais europeias).

O autor apresenta-nos por fim Franz Josef Strauss (1915-1988), um político de carreira, que era ministro das finanças da República Federal Alemã na altura (1966-1969). Combateu na segunda guerra mundial pela Alemanha, fazendo parte do exército nazi. Logo após esta conseguiu cair nas boas graças do ocupante norte-americano e contribuiu para a desnazificação. Já nessa altura era um fervoroso anti-comunista. Fundou, em 1961, a União Social Cristã (CSU), começando aí o seu caminho político, que só terminaria nas vésperas da sua morte. Strauss era um político democrata-cristão, um antepassado daquilo que hoje poderíamos chamar populismo de direita.

Ficou conhecido por um escândalo com o Der Spiegel. Esta revista seguia uma linha de pensamento segundo a qual Franz Josef Strauss constituia uma ameaça para a democracia, por isso ridicularizava-o todos os anos. Em 1962 deu várias notícias sobre a sua política de defesa (na altura Strauss era ministro da defesa), citando fontes militares o que levou este a ordenar a invasão da revista a meio da noite e a prisão de vários jornalistas e administradores desta. O autor do artigo foi preso em Espanha, quando passava férias. Isso levou ao clamor da imprensa nacionsal contra Strauss, bem como a manifestações organizadas por estudantes. O ministro da Justiça da altura, do Partido Democrático Livre, demitou-se e Franz Josef Strauss foi atacado por todos os partidos no Parlamento. Strauss acabou por demitir-se, mas sem contrição, organizando antes uma parada militar de despedida. No entanto, quatro anos depois voltou a ser convidado para o governo, desta vez pelos socialistas alemães, para ministro das finanças.

De volta ao poder, Strauss preocupou-se também as relações internacionais da República Federal Alemã. Ao mesmo tempo, a nível interno, alimentava o nacionalismo, dizendo «os estrangeiros enganam-se se pensam que nos podem privar do direito de termos de novo um salutar partido nacionalista na Alemanha de hoje» (referindo-se ao Partido Nacional Democrata, de cariz neo-nazi). Para Strauss não era natural que «300 milhões de europeus estejam dependentes de 190 milhões de americanos ou de 200 milhões de russos». A construção europeia constituía, portanto, uma terceira via. Também pensava que os países teriam de abdicar de uma parte da soberania se quisessem subreviver. Ridicularizava a política de alianças de De Gaulle mas achava que o eixo franco-alemão seria a chave da unificação europeia. Era favorável à entrada do Reino Unido na CEE.

Estes três homens – Jean Monnet, Charles De Gaulle e Franz Josef Strauss – representavam, segundo o autor, nos anos 60, três ideias em concorrencia e cooperação para a construção europeia. Jean Monnet é cultuado diariamente pelos politicos e burocratas por toda a União Europeia. Charles De Gaulle só hoje é vagamente é referido e é totalmente dissociado da construção europeia. Franz Josef Strauss foi totalmente esquecido, ultrapassado pelo seu rival político da altura (3), Helmut Kohl (4), considerado o arquitecto do Euro e da União Europeia.

Bruxelas tornou-se na cidade mais importante, na capital da Comunidade, na década de 50 do século XX. O autor descreve-a como (e é ainda hoje) o paraíso dos eurocratas, funcionários públicos internacionais encarregues de construir a Comunidade. Foi escolhida para a capital não ser nem Hamburgo nem Paris, para tentar um equilibrio entre a França e a República Federal Alemã.

A Comissão Europeia nasceu em 1955, primeiramente chefiada por Paul-Henri Spaak, e coube-lhe a ela a elaboração do Tratado de Roma. Inicialmente reunia-se no Castelo Val Duchesse, nos arredores de Bruxelas. O tratado baseava-se na crença do comércio livre, na ideia de que um mercado maior aumentaria a estabilidade politica (seguindo o modelo dos Estados Unidos). Também eram criadas autoridades centrais a nível europeu para controlar a necessária equidade entre países. O Mercado Comum assentava sobre o diálogo entre duas instituições: o Conselho de Ministros e a Comissão Europeia, representando um diálogo entre o nacionalismo e o internacionalismo. Na altura todas as decisões finais passavam pelos Conselhos de Ministros. Vem desde essa altura o método das maratonas negociais, pela noite dentro.

Em 1957 iniciou em funções uma Assembeia, que em 1962 se passou a chamar Parlamento Europeu, onde os partidos desde o inicio foram agrupados não por nações, mas por partidos. Grande parte do seu tempo os deputados ocupavam a fazer relatórios para a Comissão, sobre todos os assuntos. Na prática era (e é) um órgão sem poder. Como referia em 1967 Elena Bubba, directora da documentação parlamentar: «Uma sensação de realização, de vago descontentamento e de preocupações graves pelo futuro das comunidades premeia o Parlamento Europeu… À medida que as comunidades se desenvolvem, surgem cada vez mais pormenores e cada vez menos temas para grandes debates políticos».

Nestes primeiros anos de construção europeia já tinha começado a surgir a tendência dos eurocratas serem homens e mulheres separados tanto da sociedade belga (local de residência mas não laços afectivos) como dos seus países (onde têm relações afectivas mas cujas necessidades desconhecem). Surgiram assim os casamentos entre funcionários da CEE, ou com funcionários da EFTA (6) ou com norte-americanos. Assim, o inglês era já uma língua muito falada na Europa antes da entrada do Reino Unido. Por isso os eurocratas eram e são naturamente européistas (ou eurocrentes), dado o seu estilo de vida.

Na altura os eurocratas e políticos de Bruxelas, sentiam-se derrotados politicamente, visto que o nacionalismo havia triunfado temporariamente na construção europeia, muito graças a Charles De Gaulle, interrompendo os planos de maior integração entre países. Por isso começaram a concentrar-se cada vez mais em pormenores legislativos que longo prazo podiam trazer-lhes poder, como a criação de um imposto único de mais-valias entre países membros (na década de 60 apenas seis) ou negociações comerciais, em conjunto, com os Estados Unidos.

(2) Ver Malraux, De Gaulle e a Independência dos Estados.

(3) Apesar do CSU e a CDU concorrerem em coligação às eleições desde 1976, formando o CDU/CSU, havia rivalidade entre os dois.

(4) Membro do partido União Democrata-Cristã alemã (CDU). Orientou a unificação da Alemanha, que teve inicio em 1990.

(5) Jean Rey (1903-1983) foi um político belga. Foi presidente da Comissão Europeia entre 1967 e 1970. O autor descreve-o como um belga poliglota e desenraizado dentro do seu próprio país. Originário da Valónia, chegou a ridicularizar os valões por considerar só falavam uma língua (ele falava quatro).

(6) Associação Europeia de Comércio Livre.

Fonte das Imagens: Amazon; Wikipedia 1; Wikipedia 2; PlanetWare.

Anúncios

Os comentários estão desativados.