Leituras: Regresso ao Futuro, à Construção Europeia nos Anos 60 do século XX – parte 1

«Devemos proclamar a missão e concepção de uma Europa unida, cujo conceito moral granjeará o respeito e a gratidão da humanidade e cujo poder físico será tal que ninguém ousará molestar o seu tranquilo percurso… Espero ver uma Europa em que homens e mulheres de todos os países darão a mesma importância ao facto de serem europeus como ao facto de pertencerem ao seu torrão natal e em que para toda a parte que forem neste vasto domínio possam pensar verdadeiramente: “Aqui, estou em minha casa»

Winston Churchill

«O Mercado Comum é um processo, não um produto»

Jean Monnet

Anatomia da nova Europa (título original: The new europeans) foi originalmente publicado em 1968 e neste se reflete a construção europeia da década de 60. No entanto, como o passado se reprecurte no presente achei que era tempo de voltar atrás, à boa maneira Marty McFly de Regresso ao Futuro.

O seu autor, Anthony Sampson (1926-2004) foi um jornalista britânico, que iniciou a sua actividade em meados dos anos 50 e foi especialmente profícuo nos anos 60 e 70. The new europeans é antecedido de Anatomy of Britain (1962) e Common sense about Africa (1960). Sampson foi também um dos fundadores do Social Democratic Party (1981-1988) e em 1999 escreveu uma biografia não autorizada de Nelson Mandela.

O livro é um retrato da Europa, focalizado sobretudo na atmosfera que rodeava a construção europeia nos anos 60, mas procurando também compreender o dia-a-dia das pessoas que não estavam à frente do poder.

O Conselho da Europa, primeira pedra do projecto europeu, surgiu em 1949 na consequência da Conferência de Haia. Todos os políticos queria ver uma Europa unida, mas ninguém, a começar por Winston Churchill queria abdicar da soberania para isso. Cada um tinha uma ideia diferente do que devia ser uma Europa unida.

O autor começa por nos apresentar Jean Monnet (1888-1979) é unanimamente considerado o “pai do Mercado Comum”. Sem partido político definido, cultivava uma aura apolítica e tecnocrata, notabilizando-se como economista e diplomata. Monnet soube manter-se afastado de querelas entre países em nome daquilo que considerava um ideal mais elevado. O autor refere que agia muitas vezes de acordo com a sua formação empresarial: «alicia políticos sem se aproximar muito deles e contrata peritos e técnicos para colaborarem consigo sem se deixar prender nas respectivas especialidades. (…) Sempre soube delegar, como arrumar ideias e administrações em compartimentos diferentes. A única altura em que ele esteve mais directamente envolvido – quando dirigia a Comunidade do Carvão e do Aço – foi a que menos lhe agradou». Era também um filo-americano. O seu legado mais importante, para o autor, foi a reconciliação europeia e o comércio livre.

O percurso de Jean Monnet junta muito dinheiro com diplomacia: abandonou a hipótese de um curso universitário para se tornar negociante da fábrica de aguardentes do pai; quando a 1ª Guerra Mundial começou trabalhava para o governo francês e sugeriu uma aquisição conjunta, anglo-francesa, de armamento norte-americano; foi vice-secretário da Liga das Nações, ficando chocado com o nacionalismo vigente neste organismo internacional; foi banqueiro nos Estados Unidos; reorganizou a industria do fósforo sueca, a moeda polaca, bem como os caminhos de ferro chineses. Durante a 2ª Guerra Mundial voltou a coordenar as aquisições anglo-francesas de armamento aos Estados Unidos e depois propôs a Winston Churchill uma aliança anglo-francesa, descartando no entanto Charles De Gaulle. Tornou-se na altura funcionário público e viajou para os Estados Unidos, onde pressionou Franklin Roosevelt para aumentar a ajuda, sendo um percursor da política Lend-Lease. Depois da guerra, já em França, elaborou o Plano Monnet para a modernização da industria francesa. Em 1950 apresentou a Robert Schumann, na altura Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, uma proposta para a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), tentando combater dessa forma o nacionalismo vigente. Mais tarde essa comunidade teve de fazer face a problemas de superprodução e de questões levantadas pelo proteccionismo vigente nos países que faziam parte dela, mas foi o embrião da Comunidade Europeia da Energia Atómica (CEEA ou Euratom) e depois do Mercado Comum, traduzido na Comunidade Económica Europeia (CEE). Em 1955 reformou-se, auto-exonerando-se do cargo que ocupava na CECA e criou o Comité de Acção para os Estados Unidos da Europa, que na prática era o clube dos amigos de Jean Monnet, gente de todos os partidos políticos e de sindicatos, que se reunia uma vez por ano para emitir um parecer.

Jean Monnet defendeu, num discurso pronunciou em Londres em 1962: «A natureza humana não muda, mas quando as nações e os homens aceitam as mesmas leis e as mesmas instituições para as fazerem vigorar, o comportamento de uns para com os outros mudará. É esse o processo da própria civilização» (1).

Noutro discurso, no mesmo ano: «A história da unificação europeia demonstra que, quando as pessoas se convencem de que se está a verificar uma mudança que irá criar uma situação nova, actuarão de acordo com os seus planos prévios, devidamente corrigidos, antes de a situação se verificar».

Em 1963 Charles De Gaulle vetou a entrada do Reino Unido na Comunidade Europeia. Jean Monnet correu para Bruxelas, onde elaborou um documento recomendando que os restantes países continuassem a negociar com o Reino Unido, independentemente da opinião francesa. No entanto, o Reino Unido só entraria em 1973.

(1) Esta frase faz lembrar outra, de Cavaco Silva em 2005: «Pessoas inteligentes, com a mesma informação, chegam às mesmas conclusões». Ver Cavaco Silva,  a realidade e o mito.

Fonte das Imagens: Amazon; Wikipedia; Time.

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