Coisas Giras de Portugal em 2012 (39)

«A última actualização do programa de ajuda externa negociado com a troika não traz boas notícias para os portugueses que vivem do seu salário. O Fundo Monetário Internacional (FMI) refez as suas contas para a evolução do cenário macroeconómico e espera agora que a massa salarial real – ou seja, ajustada à inflação – caia ainda mais do que se esperava.

Segundo as novas previsões macroeconómicas, só o programa de ajustamento, que começou em 2011 e dura até 2014, deverá reduzir em cerca de 14% os salários reais. Contas feitas, o poder de compra do português médio estará, em 2014, pouco acima do nível do registado em 1996 – o que significa praticamente duas décadas de “congelamento salarial”.

O cenário é ainda pior do que o que se verificou na década de 80, quando o FMI fez a sua segunda incursão em território nacional e obrigou a uma desvalorização grande (embora suave – o famoso “câmbio deslizante”) do escudo. Na altura, o efeito da política foi um encarecimento das importações: mesmo que o valor efectivamente recebido ao fim do mês não diminuísse, o respectivo poder de compra estava, na verdade, a cair a pique. A partir de 1984, os salários já estavam a crescer rapidamente.

A grande diferença face a esse período é que hoje a taxa de inflação está praticamente “truncada” nos 2% do Banco Central Europeu (BCE). E como os salários nominais tendem a resistir a descidas, é preciso esperar muito mais tempo para que a subida dos preços vá erodindo o poder de compra das remunerações. O FMI prevê, por isso, um prolongado e moroso período de quebra dos salários reais (seis anos).

A maior parte do ajustamento nominal (ou seja, no salário efectivamente pago) ter-se-á feito na Função Pública, onde já houve dois cortes administrativos de salários. Somando todas as medidas tomadas neste âmbito – corte de 5% em 2011 e retenção dos subsídios de Férias e de Natal de aí em diante – ao crescimento dos preços, a quebra do poder de compra real pode ser de mais de 25% em apenas quatro anos.

E pode não chegar. O relatório publicado na sexta-feira alerta para o facto de o desemprego ter registado uma subida inesperada no final de 2011, o que significa, na interpretação do fundo, que pode haver um desajustamento entre procura e oferta de trabalho, que poderia ser potencialmente solucionado através de um preço mais baixo – ou seja, quebras salariais ainda mais pronunciadas.

“Se o desemprego continuar a aumentar rapidamente”, lê-se no relatório do FMI, “poderá haver necessidade de mais reformas [no mercado de trabalho] para garantir que o ajustamento não recai excessivamente sobre o factor ‘quantidade’ de emprego”. (…)»

Elisabete  Miranda (09/04/2012) (1)

Comentarium: Bem vindos ao caminho do progresso e da pobreza.

(1) Com Pedro Romano, no Jornal de Negócios.

Anúncios